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Controle da verminose Foco no hoje para garantir o amanhã (Parte I)

Ao contrário dos carrapatos, os nematódeos gastrintestinais (vermes) são menos detectáveis, apesar de poderem acarretar perdas econômicas ainda maiores nos animais jovens. As contagens de ovos de parasitas por grama de fezes (OPG) em bovinos adultos tendem a estar na faixa de 0 a 50, mas facilmente atingem 200300 em bezerros e novilhas. A característica mais marcante da contagem de OPG é a distribuição binomial negativa, ou seja, poucos animais apresentam altas contagens (maiores ou iguais a 300), e a maioria dos adultos tem contagens baixas (menores ou iguais a 50). Uma vaca com contagem de 100 OPG (30 kg de fezes ao dia) pode eliminar 3 milhões de ovos no pasto todos os dias.

O uso prolongado e indicriminado de anti-helmínticos levou os parasitas a tornarem-se cada vez mais resistentes, ameaçando a sustentabilidade da cadeia. Fato claro na ovinocultura, mas em estabelecimento na bovinocultura. Um programa de controle da verminose deve maximizar os ganhos de produção, minimizar o risco de doenças e evitar o uso indiscriminado de antiparasitários (tratar o animal certo na época correta). Devemos focar o controle da verminose nos animais do desmame aos 24 meses (maior retorno econômico). Aspectos práticos do controle parasitário diferem entre raças e sistemas de produção, por isso o acompanhamento de um veterinário é fundamental, mesmo quando implantado o controle estratégico desenvolvido para o Centro-Oeste, que consiste no tratamento dos animais nos meses 5, 8 e 11 de cada ano.

O tratamento de vacas de primeira e segunda crias no fim da gestação (duas semanas antes do parto) é primordial, pois o fenômeno do periparto é característico nessa espécie (aumento do número de ovos eliminados nas fezes e da contaminação das pastagens). Outros tratamentos em bovinos adultos devem ser indicados pelo veterinário, e deve-se levar em consideração o desempenho animal, categoria, estado fisiológico, estação de monta ou outros fatores relacionados ao clima e às pastagens. Na verdade, o controle da verminose é bem mais complexo que isso, e pode incluir até mesmo os impactos ao ambiente, por isso este artigo será dividido em duas partes. Inicialmente, o produtor deve considerar fatores essenciais:

– Áreas densamente pastejadas são mais contaminadas e obrigam os bovinos a se alimentarem próximos do bolo fecal e do solo, onde o número de larvas é maior. Em sistemas rotacionados, áreas anteriormente pastejadas por vacas de primeira cria podem estar fortemente contaminadas e, portanto, são inadequadas para bezerros. Use animais adultos na sucessão dessas pastagens. Procure ações sinérgicas entre agricultura e pecuária (gradagem e sucessão de culturas).

– Use os vermífugos de forma eficaz, cada antiparasitário tem suas próprias forças. A ivermectina atinge parasitas externos e internos, enquanto o albendazol somente os internos. Na Região Sul do País, onde o controle parasitário estratégico recomenda tratamentos nos meses 2, 5, 9 e 11, não seria recomendado utilizar produtos endectocidas (controlam parasitas internos e externos) nas quatro aplicações, pois os vermes estariam recebendo “tratamentos desnecessários”. Nesse caso, o uso de produtos exclusivamente acaricidas, em algumas épocas do ano, teria foco no controle dos carrapatos, principalmente nos animais adultos (mais resistentes à verminose).

– Os tratamentos antiparasitários ocorrem quando é conveniente. Com apoio de veterinário, o produtor deve planejar um programa de controle parasitário que equilibre as melhores ferramentas com a realidade de outras práticas de manejo. Administre o vermífugo corretamente, pese o gado (dose correta), siga as instruções de bula para administração, armazenamento e tempo de carência antes do abate (fator limitante para exportação de carne).

– Quarentena: trate os novos animais e os mantenha longe dos outros por duas a três semanas. O uso de uma combinação de medicamentos (dois princípios ativos) minimiza o risco de introduzir parasitas resistentes. Ao sair da quarentena, os animais vão para piquetes em uso (contaminados), onde vão adquirir a população de vermes presentes na propriedade, diluindo, assim, qualquer gene de resistência que poderiam introduzir no rebanho.

– Verifique a eficácia dos medicamentos para prevenir a resistência e maximizar os ganhos. Faça a contagem de OPG (fezes de 20 animais, no dia do tratamento e 14 dias após). Subdosagem ou sobredosagem dos princípios ativos podem selecionar populações de parasitas resistentes. Continuamos nossa conversa na próxima edição.

Alessandro Pelegrine Minho, pesquisador e médico-veterinário Embrapa Pecuária Sudeste