Caindo na Braquiária

Moderna cria

Caindo

Quando Maria do Rosário Filinto decidiu ir ao sótão da antiga casa da fazenda Monte-Mor, propriedade secular de sua família, localizada na rica Região do Prata, em Minas Gerais, tinha a certeza que ali encontraria os tradicionais tachos de cobre que sua avó usava quando fazia doces de leite ou a goiabada que deixava todos que passavam próximo do fogão a lenha com água na boca. Dona Nena, assim como era chamada, tinha a capacidade de fazer ao mesmo tempo doces suaves no adoçar, mas saborosos como poucas sobremesas da região.

Foi fuçando entre teias de aranha que, inusitadamente, encontrou um pequeno baú de couro empoeirado contendo alguns manuscritos malconservados. A curiosidade fez a criadora Maria do Rosário descobrir que, atrás daquela caligrafia impecável, tinha o pulso de seu avô, Zé Theodoro Filinto, pecuarista que, por vezes, deixava a paixão pelas vacas obnubilar a razão que deveria ter com as contas da fazenda.

Entre tantos documentos, alguns surpreenderam Maria do Rosário, como alguns contratos de arrendamento escritos à mão e assinados sem qualquer desconfiança de trapaça entre as partes, bem como simples pedaços de papéis assinados por funcionários concordando em trabalhar em outra fazenda da família. Tudo muito simples, famosos acordos feitos, como diz a gíria, “no fio do bigode”.

Uma carta, em especial, foi aberta pela generosa pecuarista. Carta escrita pelo seu avô a seu pai, Gileno Filinto, quando esse havia recém-casado com sua mãe e iniciava trajetória como pecuarista na fazenda herdada pelo pai. Nesse papel, havia conselhos de todo o tipo para um novo pai de família do campo, mas, entre eles, um ditado sublinhado, que chamava a atenção, dizia: “Quem faz o homem ir pra frente é o animal que mija pra trás”.

Maria do Rosário entendeu bem o recado daquele secular ditado pecuário, que, em outras palavras, diz que, para crescer na vida, o pecuarista tem que ter vaca.

Toda essa narrativa é verídica e toca num ponto crucial da realidade do setor: como ter ótimo lucro com a cria?

Se colocarmos questões de múltipla escolha, qual seria a mais adequada para respondermos a seguinte pergunta: como posso fazer cria com ótima lucratividade?

A – Fazendo cruzamento terminal, onde compro novilhas para repor as vacas descartadas.

B – Comprando vacas paridas, engordando-as com seus bezerros para venda de todos produtos.

C – Comprando novilhas a ponto de enxerto, tirando crias dessas matrizes até que fiquem ineficientes no pasto.

D – Todas as anteriores, lançando mão da integração lavoura-pecuária (ILP), mantendo 40 matrizes/ha suplementadas com silagem de capim todo o tempo em pasto irrigado e adubado.

E – NDA. Sempre a cria será menos lucrativa que a recria e engorda.

É na fazenda Chico Pio, da família Andrighetto, localizada no Leste do MS, que conheci um ousado projeto pecuário de ciclo completo, sendo administrado por Fran cisco João Andrighetto e gerenciado por Cláudio, seu braço direito. Nessa fazenda de origem agrícola, estão sendo, paulatinamente, formados pastos com cultivares de alta produção, os quais serão irrigados com o chorume do confinamento, a fim de manter a recria dos produtos de cruzamento nessa área até que atinjam em torno de 350 kg. Desses pastos, seguem para as baias de confinamento totalmente cobertas. Tal cobertura permite aproveitar a água da chuva, a qual cai para um tanque de alguns milhões de litros. Essa água é utilizada para as lavagens semanais do piso do confinamento.

A planta das baias cobertas do confinamento foi estrategicamente projetada com três valas de um metro de largura cada, que atravessam todo o piso no seu subsolo com o intuito de recolher o esterco líquido resultante da lavagem do piso. Todo o chorume fica num tanque de coleta fermentando por até uma semana, onde é distribuído por irrigação aos pastos dos machos de recria.

Quanto às matrizes, o projeto conta com silagem (atualmente de milho, mas, futuramente, será feito de capim) para alimentar todas vacas, mantendo uma lotação de 40 vacas/ha, podendo chegar a 60 vacas/ ha. Francisco está ciente que os piquetes das vacas sofrerão com pisoteio, chegando a ficar, futuramente, sem pasto algum, mas, dessa forma, conseguirá manter cada 2.000 vacas em 50 ha da fazenda. Pelos seus cálculos, esse sistema de produção pecuário retornará o dobro de lucro que a soja vem dando à família. Toda sorte do mundo à família Andrighetto, pois competência já possuem de sobra.

Aproveito o espaço da coluna para fazer uma errata importante, pois, na edição anterior de Caindo na Braquiária, usei o termo “microproteína” quando teria de escrever “micoproteína”.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected] Conheça www.crossbreeding.com.br