O Confinador

METABOLISMO DO FÍGADO

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Pesquisas mostram maior consumo de matéria seca em animais alimentados com blend de vitaminas B e hidroximinerais desde a fase de adaptação

*Dr. Ricardo Andrade Reis e **Dra. Josiane Lage **

Vitaminas do complexo B são essenciais para os animais e estão presentes em quase todos os alimentos que os ruminantes consomem, mas, em muitos casos, essa não é a principal fonte de vitamina B que os bovinos utilizam. Vitaminas B provenientes do alimento são degradadas no rúmen devido ao processo de fermentação ruminal, sendo que algumas vitaminas são absorvidas através da parede ruminal. Entretanto, micro -organismos no rúmen utilizam e também produzem vitaminas B.

Elas atuam como cofatores enzimáticos que estimulam o funcionamento do fígado, auxiliando no metabolismo de carboidratos, lipídeos e aminoácidos, melhorando a eficiência pós-absortiva de Foto: Arquivo Revista AG REVISTA AG - 45 nutrientes. O fígado tem um papel crucial no metabolismo de glicose, aminoácidos e lipídeos, de forma que muitos desses processos dependem de enzimas que são ativadas em cooperação com cofatores enzimáticos. Os responsáveis por esse processo no fígado consistem de vitamina B e, portanto, há um aumento na demanda dessas vitaminas para suportar e otimizar o metabolismo quando o animal está com uma alta demanda do mesmo.

Muitos estudos com vitaminas B em bovinos envolvem a suplementação via dieta, entretanto não consideram o uso de vitaminas B protegidas da degradação ruminal. Devido ao fato de que vitaminas B “não encapsuladas” são degradadas no rúmen, muitos estudos não tiveram sucesso em afetar o status de vitamina B no organismo do animal. Se a vitamina B “não encapsulada” é adicionada à dieta, a bactéria ruminal reduz a síntese ou degrada as vitaminas B adicionadas, resultando em nenhum aporte líquido delas. Entretanto, muitos benefícios têm sido alcançados com o uso de vitaminas B protegidas da degradação ruminal, principalmente em relação ao desempenho e à eficiência alimentar.

Embora os bovinos possam acumular reservas nutricionais de vitaminas A, D e E, o estoque de vitaminas B é limitado. Muitas vitaminas B não são estocadas em quantidades substanciais e, portanto, seu status no organismo pode se tornar insuficiente, se o consumo de alimento está abaixo do ideal e a exigência do animal está alta, principalmente em bovinos estressados ou com algum distúrbio metabólico, apresentando baixo consumo. Em geral, um sintoma de deficiência de muitas vitaminas B é a redução do apetite.

Os animais que são destinados à fase de terminação em uma fazenda, geralmente são transportados de um local a outro, passam por períodos de jejum (de água e ali mento), podem sofrer algum tipo de desidratação etc., mas precisam chegar à fazenda e estar aptos a ingerir alimentos e ganhar peso. Muitas vezes, os animais não receberam nenhum tipo de suplementação com concentrados e precisam ser adaptados a uma nova dieta de terminação. Além disso, os órgãos dos animais passarão por uma fase de crescimento e adequação ao novo aporte de nutrientes, sendo o fígado um dos órgãos mais exigidos metabolicamente neste processo de transição.

O blend de vitaminas do complexo B protegidas da degradação ruminal é uma opção a ser utilizada na dieta de bovinos de corte, com o foco em melhorar a eficiência do metabolismo no fígado, com consequências benéficas na performance do animal. Bovinos de corte com reduzido consumo de alimento devido ao estresse ou distúrbios metabólicos podem passar por um período de tempo com deficiências de vitaminas B, devido à redução na síntese ruminal, permanecendo com limitada reserva dessas vitaminas no corpo, podendo acarretar impactos negativos no desempenho.

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O blend de vitaminas do complexo B protegidas da degradação ruminal é uma opção a ser utilizada com foco em melhorar a eficiência do metabolismo no fígado

Por atuar na melhoria da eficiência do metabolismo no fígado, a inclusão de vitaminas B protegidas da degradação ruminal à dieta de bovinos, durante a fase de adaptação (dietas de alto concentrado) ou a fase de terminação em confinamento convencional ou Confinamento Expresso®, pode ser uma alternativa àqueles produtores que utilizam dietas ricas em concentrado (acima de 80%), com silagem de milho grão úmido, milho reidratado. Ou seja, dietas de alta digestibilidade que demandam um metabolismo mais ativo no fígado do animal.

O uso de vitaminas B protegidas da degradação ruminal na dieta de bovinos de corte na fase de terminação contribui com uma melhora no consumo do animal, uma vez que proporciona uma melhor adaptação a dietas de alto concentrado, resultando em impactos positivos no desempenho. Dessa forma, reduz a porcentagem de animais que teriam refugos de cocho, melhorando a eficiência do sistema com retorno econômico positivo dentro da fazenda.

Outra tecnologia sendo utilizada associada ao blend de vitaminas do Complexo B protegidas da degradação do rúmen são os hidroximinerais, fonte de cobre e zinco by pass, ou seja, também não se dissolvem no rúmen nem reagem com outros nutrientes, chegando intactos no intestino para serem absorvidos pela corrente sanguínea. O processo é exatamente o oposto do que ocorre com os minerais inorgânicos, os sulfatos e óxidos, pois, no rúmen, os inorgânicos são solubilizados e acabam se ligando física ou quimicamente a outros nutrientes. Por isso, não ficam livres para absorção no intestino e não chegam até o local que verdadeiramente interessa: a corrente sanguínea do animal. A maior parte do mineral acaba excretada nas fezes.

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Unesp estuda uso do blend de vitaminas e hidroximinerais na Nelore e no cruzamento Angus x Nelore

Microminerais são essenciais para diversas funções biológicas necessárias para o adequado funcionamento do sistema imune, a reprodução e o crescimento dos animais. Esses nutrientes estão presentes em forragens e outros alimentos utilizados nas dietas de bovinos e, com exceção do cobalto, atendem bem às exigências da microbiota ruminal. No entanto, a suplementação é necessária para atender às necessidades do animal.

Cobre é um micromineral importante na saúde das articulações, células sanguíneas, imunidade, fertilidade e metabolismo adequado do ferro. O zinco é importante no metabolismo de proteínas, utilização de vitamina A, fertilidade, imunidade, integridade de cascos e pele. As ligações covalentes fortes e uma estrutura cristalina única limitam a exposição dos hidroximinerais aos antagonistas na ração e no rúmen, além de preservar a microbiota ruminal do efeito tóxico de minerais como cobre e zinco na forma de sulfatos.

Portanto, a baixa solubilidade ruminal dos hidroximinerais, fonte de cobre e zinco by pass, reduz a quantidade de minerais livres no rúmen. Esses minerais livres podem ser tóxicos para a microbiota ruminal, reduzindo a digestão da fibra pelas bactérias. Dessa forma, em nossos estudos estamos avaliando a digestibilidade da fibra em detergente neutro das dietas.

Começamos, em 2017, na Unesp Jaboticabal/SP, os estudos sobre a associação de blend de vitaminas do Complexo B e hidroximinerais fontes de cobre e zinco, ambos protegidos da degradação ruminal, em dietas para bovinos de corte em confinamento convencional e também Confinamento Expresso. Além disso, exploramos raças como Nelore e cruzamento de ½ Angus x ½ Nelore.

Esses trabalhos foram realizados com objetivo de avaliar performance, características de carcaça e também em nível de rúmen (pH ruminal, produção de ácidos graxos voláteis). Observamos que há um maior consumo de matéria seca por animais alimentados com a associação do blend de vitaminas B e hidroximinerais desde a fase de adaptação, o que, consequentemente, impactou em melhora da eficiência alimentar, com animais apresentando maior deposição de carcaça e melhor rendimento. Outro pesquisador parceiro, como o Prof. Dr. Otavio Machado da Unesp Botucatu, utilizou essas tecnologias em dietas de terminação com alto amido, em sistema superprecoce, sem uso de monensina ou outro ionóforo, reportando que nenhum animal apresentou lesão de fígado, em avaliação ao abate. Além disso, a Embrapa Gado de Corte, sob coordenação do Dr. Luiz Otavio Silva, realizou três anos de prova de desempenho do Nelore, com uso dessas tecnologias, afirmando a qualidade nutricional das dietas e o excelente desempenho dos animais. Portanto estamos continuando os estudos neste ano, um será em parceria com o Prof. Dr. Márcio Duarte, da Universidade Federal de Viçosa, e outro com uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Lavras, sob a responsabilidade do Dr. Daniel Casagrande, com objetivo de investigar, além da performance, todos os parâmetros metabólicos que estão sendo beneficamente alterados no organismo animal, com o uso dos produtos.

*Ricardo Andrade é professor titular do Departamento de Zootecnia da Unesp Jaboticabal/SP **Josiane é gerente P&D da área de Ruminantes da Bellman/Trouw Nutrition Brasil