Feno & Silagem

Forragens malconservadas oFerecem riscos ao rebanho

Feno

Julia Abud Lima*, Danielle Brutti** e Júlio Barcellos***

Nos sistemas de produção de bovinos de corte, é indispensável o uso da suplementação alimentar como alternativa à baixa qualidade e disponibilidade das pastagens em períodos específicos do ano, sendo a utilização de feno ou silagem as estratégias mais eficazes para esse fim. A ensilagem e a fenação são métodos tradicionais de conservação de gramíneas e leguminosas que resultam em silagens e fenos de composição o mais similar possível à planta original. Além desses materiais, outros como resíduos de cultivos agrícolas ou palhadas também podem ser conservados por esses métodos. Assim, esses suplementos volumosos são utilizados para evitar a redução na produtividade em períodos de escassez de pasto, na garantia da estabilidade do sistema, sem a necessidade de redução da lotação animal ou, ainda, para intensificar a produção, pelo aumento de carga ou maior desempenho individual. No entanto, o produtor, ao escolher esses tipos de suplementação para seu rebanho, deve se ater a cuidados nos processos de elaboração e conservação para não propiciar uma contaminação por micro-organismos ou deterioração física do alimento conservado, pois essas conduzem a uma perda do potencial nutricional da forragem e até mesmo às patologias nos animais que a consumirem.

A capacidade de preservação de forrageiras se dá pelos seguintes processos: quando se trata de fenação, ocorre devido à desidratação, não permitindo o desenvolvimento de micro-organismos e fermentações indesejáveis; e, referindo-se à silagem, a microbiota aeróbia presente na planta é praticamente eliminada na ausência de oxigênio, permitindo o crescimento de bactérias anaeróbias, as quais fermentam os açúcares, transformando-os em ácidos, baixando o pH rapidamente, impedindo a proliferação de bactérias indesejáveis “butíricas” (Clostridium) e, assim, conservam a forrageira e seus nutrientes.

Os alimentos são naturalmente propícios à contaminação por fungos provenientes do solo e das plantas, e em estado de má conservação, que consiste em uma alta umidade nos fenos e entrada de oxigênio e umidade nas silagens, ocorre uma proliferação de micro-organismos indesejáveis, causando prejuízos à produção. Nessas forragens conservadas, alguns fungos são capazes de produzir substâncias que são tóxicas aos animais. Os mais importantes deles pertencem aos Aspergillus, em especial, o flavus, glaucus e fumigatus. Todos, juntamente com algumas leveduras, produzem micotoxinas, que são compostos altamente tóxicos que se desenvolvem em substratos e apresentam baixa disponibilidade de água, os quais são inadequados para o crescimento de bactérias. As micotoxinas produzidas pelo Aspergillus flavus são quimicamente estáveis, ou seja, resistem à fervura, à pasteurização, ao congelamento, então a melhor maneira de combater às toxinas é controlando a proliferação do fungo com boas práticas de ensilagem e fenação. Portanto, tanto no feno como na silagem, um dos princípios básicos é a redução da umidade e, especialmente na silagem, a rápida acidificação lática.

Existem mais de 100 espécies de fungos toxigênicos que produzem endomicotoxinas, cujas ações ocorrem no espaço intracelular da planta conservada, produzindo efeitos agudos e morte dos animais de produção, embora sejam raras na produção em zonas temperadas. As exomicotoxinas, mais comuns nas forragens, são liberadas no substrato, sendo as principais causadoras de problemas na pecuária de corte, com origem primária nos fungos do tipo Aspergillus, Fusarium e Penicillium.

Quando os animais ingerem alimentos contaminados pelas micotoxinas do Aspergillus manifestam sinais clínicos variados, podendo apresentar desde ausência de apetite e redução do consumo até icterícia, devido a lesões no fígado e má absorção de nutrientes, causando gastroenterites. Em consequência, um baixo crescimento e ganho de peso, reduzindo o potencial econômico da propriedade. Não obstante, a presença dos fungos em fenos e silagens não apenas causa prejuízo à saúde animal como também humana, quando entra em contato com esporos de Aspergillus, a fase do ciclo de vida do fungo em que se encontra resistente no ambiente, pode ocorrer inalação desses esporos por via aérea e causar o que é chamado de febre do feno, uma doença respiratória. Além disso, sabe-se que as micotoxinas desse fungo são eliminadas no leite (com importância na produção de vacas leiteiras ou de corte com terneiro ao pé) e também na carne, causando ao consumidor os sintomas de intoxicação; porém acredita-se que a atuação dessas toxinas sobre o código genético dos animais e humanos seja o fator que as tornam mais perigosas, sendo considerado um importante agente cancerígeno.

A fermentação inadequada ou a secagem da forragem em condições desfavoráveis resultam em decréscimo nos conteúdos de proteína verdadeira e aumento da porção nitrogenada associada à parede celular, levando à diminuição na digestibilidade e ingestão da forragem. Nos fenos e silagens, a presença desse componente nitrogenado associada à fração fibrosa pode ser um indicador de aquecimento, o que provoca uma reação indesejável, que, por consequência, reduz o valor nutricional e o consumo de forragem. Estudos comentam que esse superaquecimento em fenos promove redução na digestibilidade de proteína – nesse sentido menor absorção de aminoácidos no intestino delgado e redução no crescimento dos animais.

Além dos distúrbios sanitários causados pela má conservação das forragens, outro aspecto que merece atenção do produtor é a perda de qualidade da forragem durante os processos de ensilagem e fenação. Há modificações consideráveis na composição química do alimento que será conservado e, dependendo da intensidade dessas alterações, poderá ocorrer mudanças no valor nutritivo e na qualidade do produto. No processo denominado haylage (destaque desta seção na edição de julho da Revista AG), com mais de 70% de umidade, geralmente, as perdas ocorrem por infiltração e lixiviação da água, acarretando queda de proteína e energia destinada aos animais. Além disso, o consumo pode ser reduzido em mais da metade do feno.

Os problemas de silagens e fenos malconservados decorrem basicamente de equívocos durante a produção e o armazenamento dessas forragens. Portanto, como as principais causas são conhecidas, o essencial é realizar um bom planejamento na fenação e na ensilagem, e, uma vez concluídas essas operações, controlar de forma rigorosa o processo de armazenamento e distribuição. Geralmente, nessa última operação, ocorrem falhas involuntárias da equipe que distribui a forragem aos animais, pois existe a premissa de que o mais importante é fornecer o alimento, fato que não é totalmente verdadeiro. A vedação do silo e controle do ambiente anaeróbico são fundamentais para que não ocorram prejuízos na qualidade da silagem que permanece no silo. Assim, a equipe deve receber orientações necessárias à operação.

Com relação à distribuição do feno, muitas vezes, em sistemas de autoconsumo, é fundamental a observação do produto, toda vez que for alocado ao gado, porque a presença de mofo nem sempre é visível. Nos rolos de grande porte, a contaminação pode estar localizada na porção mais interna. Portanto, o operador deve abrir parcialmente o rolo, observar detalhadamente e perceber o seu odor característico de um feno normal. Enquanto isso não ocorre, deve abrir o rolo para observar com mais cuidado antes de fornecer aos animais.

É crível admitir que o produtor imagine que, fornecendo qualquer silagem ou feno ao rebanho, solucione o problema nutricional e que os animais terão melhor desempenho. Isso é verdadeiro quando esse suplemento representa a qualidade da matéria-prima original e ainda não contém qualquer tipo de contaminante fúngico em particular. O ruminante é sensível à ingestão de fungos e suas micotoxinas, podendo apresentar perda de desempenho ou até mesmo a morte dos animais. Assim, é de suma importância que as forragens conservadas, sejam elas quais forem, recebam a devida atenção na preparação, seguindo boas práticas de ensilagem e fenação, como o enchimento rápido do silo; a vedação correta; o mane jo adequado ao cortar o silo, para minimizar a deteriorização após a abertura; a secagem correta da forragem para fenação; e o armazenamento adequado do feno. Visto que não há tratamento para combater as micotoxinas no organismo dos animais, deve-se impedir a proliferação de fungos, para que não haja produção das toxinas, ou seja, é melhor prevenir do que remediar. Por fim, a silagem e o feno continuam sendo as grandes alternativas de alimentos volumosos para manter uniforme a produtividade ou intensificar os sistemas de produção de bovinos de corte, com a ressalva que esses materiais não devem oferecer riscos à saúde do rebanho.

* Julia é graduanda em Medicina Veterinária, BIC-CNPq – NESPro/UFRGS **Danielle é zootecnista e doutoranda do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ***Júlio Barcellos é médico-veterinário e doutor – NESPro/UFRGS [email protected]