Na Varanda

Como tomar decisões para continuar competitivo na pecuária?

Francisco Vila é economista econsultor internacional [email protected]

Na

Se tudo muda o tempo todo, e com cada vez maior velocidade, chegou a hora de avaliarmos se nossa rotina de tomar decisões está adequada para acompanhar essas mudanças. Não sabemos ainda quais serão e com que ritmo deveremos, no futuro, gerenciar os múltiplos assuntos técnicos, comerciais, financeiros e de pes-soas. Mas já estamos cientes de que os campos de influência para definir as coisas serão cada vez mais amplos e o tempo de validade das decisões, cada vez mais curto.

Frequentemente, nos perguntamos: “Por que mexer numa roti-na que funcionou até agora?”. A resposta é óbvia, mas não custa ser lembrada. Senti isso na pele durante a recente Agrishow. Perante as máquinas monstruosas, senti-me duplamente apequenado. Primei-ro, mesmo não sendo exatamente baixinho, tratores, semeadoras e colheitadeiras tinham o triplo da minha altura e 20 a 30 vezes a minha largura. Esses gigantes tecnológicos não deixaram de me assustar. Também houve outra ameaça, menos aparente. Trata-se do perigo do defasamento tecnológico. Estou contente com meu iPhone 6, pois ele funciona bem. No entanto, perante os milagres tecnológicos dos aparelhos e dos múltiplos sistemas de controle, senti vergonha. Nem usei meu aparelho jurássico, que tanto gosto, em público.

Então vamos analisar a problemática da tomada de decisão no caso de um trator com plantadeira que foi apresentado na feira com um preço de R$ 2 milhões. Como vai ser nosso raciocínio? Primeiro, o aspecto fiscal-financeiro. As máquinas têm um perío-do de depreciação contábil entre quatro e dez anos. Porém, como sabemos da prática, elas podem ser usadas por muito mais tempo. Bem cuidadas e guardadas, facilmente servem durante oito a 15 anos. Por outro lado, daqui a três anos, a mesma fábrica vai lançar equipamentos mais potentes que tornarão o nosso, adquirido hoje e ainda nem depreciado, obsoleto em termos de performance eco-nômica. Solução? Vamos vender nosso “seminovo” dois anos antes da vida tributária e cinco a sete anos antes da vida útil em termos operacionais. Vamos comprar aquele novo conjunto magnífico para ficar com aquilo que é o mais moderno. No entanto, esse modelo será novamente desvalorizado tecnicamente por outras soluções que surgirão nas feiras daqui a dois ou três anos. E assim seguimos, sempre correndo atrás do estado da arte!

Todavia, existe, ainda, outro problema. Tratores, plantadeiras, colheitadeiras, vagões inteligentes para confinamentos, robôs de ordenha e muitas outras máquinas oferecem níveis de performance que, em nossa fazenda, por diversas razões, só estão sendo usados em apenas 60% a 70% da sua real capacidade. Igualmente ao nosso smartphone, que tem habilidade de fazer entre três e dez vezes mais do que estamos aproveitando. Mas pagamos sempre pelo total da capacidade instalada!

É isso! O que temos hoje, em princípio, funciona e atende às nossas necessidades de hoje. Resta-nos refletir sobre como pode-mos enfrentar o dilema de como atender às exigências crescentes do consumidor e, ao mesmo tempo, incorporar as múltiplas opções tecnológicas que avançam com velocidade espiral.

Para nos mantermos competitivos, torna-se indispensável de-senvolver o que eu gostaria de chamar uma ferramenta de “Gestão Personalizada de Informação”, ou seja, uma GPI que se tornará tão útil como nosso atual GPS. A GPI filtrará e transformará o tsunami de centenas de informações que diariamente batem à nossa porta via jornal, TV e WhatsApp. Recebemos um mar de informações desconexas que devemos avaliar em relação à sua utilidade para nosso negócio específico. Depois de ter filtrado, precisamos inter-ligar os dados com outras informações que já temos ou precisa-mos buscar nas conversas com amigos ou nas redes. A pecuária competitiva é resultado de uma gestão sistêmica e integrada entre os aspectos técnicos, comerciais, financeiros e humanos relevan-tes para o nosso perfil de produção. Quem consegue interligar as informações e depois sincronizá-las com seu modelo de negócio e sua gestão diária das negociações com vendedores, compradores, consultores e a própria equipe da fazenda conseguirá operar com margem positiva, mesmo não usando (ainda) essas máquinas ma-ravilhosas que os líderes do setor já utilizam.

Precisamos avaliar como a combinação das informações sobre a peste suína na China, a morte de meio milhão de bovinos nas chuvas desastrosas na Austrália, a viagem da ministra da Agricultu-ra para o Japão e a China, o aumento de exportações de carnes no primeiro trimestre de 40%, a baixa de 40% de vendas de veículos brasileiros para a Argentina, o aumento do valor das ações da JBS em 70% e o preço da soja encalhada, mesmo com aumento de de-manda na China, interagem entre elas. Depois, é preciso avaliar como esses dados, em seu conjunto, podem, ou não, ter influência em nosso plano de negócio de curto, médio e longo prazos.

Temos de criar um mecanismo para a construção do nosso sis-tema GPI. Isso nos oferece uma boa oportunidade para envolver nossos filhos que são mais hábeis no uso de aplicativos necessá-rios para esse exercício. Além disso, as empresas de insumos, bem como os consultores com ferramentas para todo tipo de planeja-mento e controle, podem ajudar nesse processo de formatação do nosso negócio em constante transformação. Assim, criamos as con-dições para fazer parte da cabeceira do setor que precisa produzir cada vez mais, melhor e com margem segura. O macroambiente para a pecuária brasileira é positivo. Cabe a nós fazermos a lição de casa, cujo lema principal será: modernização contínua em base de um sistema de informação individualizada para reduzir o risco na tomada de decisão.