Genômica

Slick: o gene da tolerância ao calor do Senepol

Genômica

A 12ª Feira Internacional dos Cerrados foi além das expectativas, tanto no volume de negócios como na mobilização dos produtores

José Fernando Garcia
Médico-veterinário, professor, pesquisador e consultor
(UNESP e AgroPartners)[email protected]

lUm dos “sonhos de consumo” acalentados por todo criador de bovinos é o de poder se-lecionar os melhores animais com base em informações 100% preci-sas, utilizando algum tipo de teste de DNA rápido que pudesse infor-mar qual o melhor animal dentro de um grupo de contemporâneos.

Infelizmente, isso ainda não é totalmente possível, pois os méto-dos utilizados para a seleção ofere-cem, na maior parte das vezes, um grau de precisão tão baixo que, em alguns casos, apenas a intuição e o “olho” do criador podem oferecer precisão similar àquela dos méto-dos consagrados de seleção. Sem contar com os custos e complexi-dades logísticas da implementação e da alimentação dos programas de melhoramento genético clássicos.

A sensação de “deixar passar” um ótimo animal em favor de um não tão bom é sempre um risco no processo de seleção, particular-mente no caso de características difíceis de medir, como resistência a doenças, tolerância ao calor e ca-pacidade de conversão do alimento em carne, por exemplo.

Os cientistas estão começan-do a identificar genes altamente relacionados com a manifestação de características específicas, os quais, ao serem caracterizados em detalhe, podem oferecer alternati-vas para a seleção dos animais que carregam a sua melhor forma (ale-lo) e, consequentemente, apresen-tam o melhor fenótipo.

Um caso que está se tornando clássico é o do gene Slick na raça Senepol. A raça Senepol foi criada no Caribe há mais de um século, a partir do cruzamento de raças mais antigas (com forte influência do Red Poll – taurino europeu de clima temperado – e do N’Dama – taurino africano adaptado ao cli-ma tropical e com alguma influên-cia aleatória de zebuínos). Essa mistura e sua seleção originaram animais que apresentam as boas características de cada um dos pi-lares formadores da raça, com des-taque para musculosidade, preco-cidade e resistência ao calor.

Entretanto, a história da intro-dução dos bovinos na América nos conta que, por cerca de 500 anos, esses animais foram trazidos de outras partes do mundo e subme-tidos a um ambiente tropical ex-tremamente desafiador. A partir do Caribe, os bovinos foram sendo in-troduzidos na América pelos espa-nhóis, tendo o processo de seleção natural ocorrido de forma lenta e silenciosa. Talvez o maior desafio desses bovinos para a adaptação em solo americano tenha sido o desenvolvimento da capacidade de sobreviver ao calor intenso e úmi-do da região.

Estudos científicos conduzidos com raças locais da Venezuela, da Colômbia e do Caribe, inclusive com o nosso Caracu, e também com a raça moderna Senepol mos-traram que todas elas possuem mu-tações no gene Slick, que determinam um fenótipo muito particular: pelo curto e mais escasso, além de maior número de glândulas sudo-ríparas.

Ao aprofundar esses estudos re-centemente, descobriu-se que essa mutação altera a estrutura de uma proteína (receptor da prolactina), que se expressa em diferentes te-cidos do corpo do animal e que, quando alterada, modifica sua fun-ção em alguns deles. O resultado disso é que o animal não transfere o calor do ambiente para dentro do corpo, não “sentindo” o calor e não gastando energia desnecessa-riamente para se resfriar, economi-zando-a para o que interessa: pro-dução de carne, leite e manutenção da qualidade de vida.

O incrível que se observa na raça Senepol é que a grande maio-ria dos animais é homozigoto (ou, pelo menos, heterozigoto) para a mutação Slick, indicando que essa característica foi fundamental para a sobrevivência dos animais. Em última análise, a existência desse único marcador pode ter definido a vida ou a morte dos animais ao longo da formação da raça.

Espera-se que o avanço rápido da pesquisa genômica na identifi-cação de outros genes que atuem como o Slick (de forma única e majoritária) permita desenvolver estratégias que aumentem a preci-são dos processos de melhoramen-to que, hoje, utilizamos e, quiçá, em breve, tornem o sonho do cria-dor em realidade.