O Confinador

TEMPERAMENTO O que isso tem a ver com a adaptação e o desempenho no confinamento?

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Janaina Braga*

A crescente intensificação da nossa bovinocultura de corte se dá principalmente pela utilização de confinamentos para a terminação de bovinos. As vantagens são inúmeras. Conseguimos minimizar os efeitos da baixa disponibilidade de forragem no período seco do ano, reduzir a idade de abate, aumentar a produção de arrobas por animal ou por área e atender à crescente demanda externa por carne bovina de qualidade ao longo do ano, por exemplo. Confinar, de acordo com a premissa básica dessa atividade, implica na imposição de diversos fatores ambientais aos bovinos como a restrição de espaço, mudança na dieta e no regime alimentar, reagrupamento social, maior exposição aos patógenos, bem como exposição a condições climáticas extremas. A grosso modo, o ambiente do confinamento é muito diferente do ambiente de pastagens, no qual os bovinos foram evolutivamente preparados para viver.

Todas as vezes que somos apresentados a situações diferentes daquelas que estamos acostumados, automaticamente ocorre a ativação de mecanismos adaptativos em busca da manutenção da homeostase (equilíbrio interno), ocasionando mudanças comportamentais, fisiológicas e bioquímicas. Se as mudanças estiverem dentro de certos limites e atenderem às nossas necessidades básicas, nós conseguimos nos adaptar num curto período de tempo sem grandes prejuízos, o mesmo acontece com os bovinos.

Mas quando essa fase de mudanças dura um longo período de tempo, dizemos que temos uma situação de estresse crônico que é contrário à definição de bem-estar animal. Muitas tentativas para adaptar-se ao ambiente de confinamento implicam em elevados custos biológicos para o animal e, de quebra, resultam em prejuízos financeiros para o confinador. Os hormônios relacionados ao desempenho produtivo do animal, incluindo o hormônio do crescimento, grelina, leptina, insulina e outros, terão sua produção e função reduzidas devido às altas concentrações do cortisol, por exemplo. Cortisol é reconhecidamente o hormônio do estresse e responsável por gerar maior disponibilidade de glicose ao organismo, que não é eficientemente utilizada pelos tecidos periféricos devido à sensibilização das células à insulina provocada indiretamente pelos próprios hormônios do estresse. Resumidamente, o animal pode até se alimentar normalmente, mas a eficiência de utilização da energia é reduzida pelo estresse. Ainda a composição do ganho de peso é alterada em função da diferenciação do metabolismo dos nutrientes nos tecidos, sendo evidenciado pelo aumento da distribuição do tecido adiposo, principalmente na cavidade abdominal.

Dentro desse contexto, gostaria de ressaltar que os animais variam na percepção e na resposta frente às situações desafiadoras, como no confinamento. Uma das formas de analisar essa variação é por meio da avaliação do temperamento, que pode ser caracterizado pela reação do animal ao homem em uma dada situação, especialmente desencadeada pelo medo.

Do ponto de vista prático, a facilidade ou a dificuldade com que é realizado o manejo durante as atividades de rotina na fazenda pode ser considerada um bom indicador do temperamento dos animais. Os zebuínos levam a fama de serem mais temperamentais do que os taurinos, mas tenha em mente que a formação e a expressão do temperamento é fruto da interação entre genética e ambiente (como por exemplo, o sistema de criação e a qualidade da interação homem-animal).

As adrenais dos bovinos mais reativos, independente se estavam confinados em currais com 6, 12 ou 24m²/animal, eram maiores, mais pesadas e tinham maior área cortical

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interação homem-animal). Bovinos calmos e mansos formam um grupo de animais de bom temperamento; e aqueles agitados, nervosos e reativos, os do grupo de pior temperamento. Apesar de fazermos a avaliação de temperamento, instintivamente, existem métodos objetivos validados cientificamente, sendo o teste de velocidade de saída (VS) o mais prático e que possível ser aplicado em confinamentos comerciais que desejam avaliar o temperamento dos animais e usá-lo como critério para diferentes estratégias de manejo. O VS leva em consideração a velocidade (m/s) com que o animal sai do tronco de contenção em direção a uma das divisórias do curral. Realizar esse teste é simples! Tenha uma distância (em metros) conhecida a ser percorrida pela animal e mensure o tempo (em segundos) que ele levará para percorrer tal distância. Com as duas medidas em mãos, calcule a velocidade de saída (em metros/ segundo). Animais com maiores velocidade de saída são aqueles de pior temperamento.

Sabendo que os animais são diferentes na susceptibilidade ao estresse e apesar dos confinamentos no Brasil apresentarem ciclos curtos (por volta dos 90 dias) nosso grupo de pesquisa (Grupo ETCO, da UNESP/ Jaboticabal e da UFMT/Rondonópolis) têm demonstrado que a disponibilidade de espaço (m²/animal) é um dos principais fatores estressores no confinamento, tendo papel fundamental na adaptação. Cientes disso, resolvemos avaliar os efeitos do temperamento em diferentes disponibilidade de espaço (6, 12 e 24 m2/animal) nos currais de confinamento durante o período de terminação. Tínhamos muitas perguntas na cabeça. Será que os animais reativos terão melhor desempenho nos currais com maior espaço? E os mais calmos, será que terão melhor desempenho no menor espaço? Essas eram algumas das muitas perguntas que acabamos respondendo no estudo, que originou minha tese de doutorado.

Bovinos reativos apresentam diferenças intrínsecas nos mecanismos do estresse, tanto na resposta do eixo hipotálamo-hipófise- adrenal (HPA), quanto do medular (SAM). Assim sendo, podemos dizer que a glândula adrenal é um importante órgão responsivo ao estresse. Ao avaliarmos as adrenais dos bovinos calmos e reativos (foi a primeira vez, pelo menos que temos ciência, que as adrenais dos bovinos foram avaliadas em função do seu temperamento), obtivemos resultados interessantes. As adrenais dos bovinos mais reativos, independente se eles estavam confinados em currais com 6, 12 ou 24m²/animal, eram maiores, mais pesadas e tinham maior área cortical (a área que produz o cortisol) do que as adrenais dos animais calmos. O aumento do peso e do tamanho da adrenal pode ser considerado uma resposta à condição de estresse crônico, o que indica que os animais reativos apresentam mais dificuldades ou falhas de adaptação se comparado aos calmos.

Janaína informa que as carcaças dos animais mais calmos são 4,5 kg mais pesadas em comparação a dos reativos

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Falência de adaptação significa redução do desempenho e prejuízos ao confinador. Reforçando os resultados encontrados, os animais mais calmos, independente do espaço disponível, tiveram melhor desempenho, inclusive ganharam mais peso no período de adaptação e chegaram ao peso de abate antes dos reativos. Mas vamos pensar na variável que remunera o confinador diretamente, o peso da carcaça. As carcaças dos animais mais calmos foram 4,5 kg mais pesadas do que a dos reativos. No preço da arroba (R$ 157,50/@ SP CEPEA, 19 abril 2019), o animal de melhor temperamento deixaria R$ 47,80 a mais, se comparado com o reativo.

Esse estudo foi realizado em condições comerciais, adotando-se o tamanho dos grupos (150 animais por lote), a dieta e o regime alimentar, bem como os manejos de rotina típicos de confinamentos comerciais ao ar livre nas condições tropicais brasileiras, o que torna os resultados adequados para discutir o impacto dessas condições de criação no bem-estar dos bovinos.

Ainda, os bovinos reativos apresentam maior risco de acidentes, maior probabilidade de ações agressivas pelos manejadores, bem como maior risco de serem transferidos para o curral enfermaria, principalmente em decorrência da inapetência, sem nenhuma causa clínica associada. Quase nunca levamos esses riscos para a ponta do lápis, portanto, esses “custos” ainda são invisíveis para a maioria dos confinadores. As experiências vividas em confinamentos comerciais apontam para uma proporção expressiva dos bovinos que são incapazes de se adaptar ao ambiente, apresentando reduzido ganho de peso e maior ocorrência de doenças, sendo que não apresentam os mesmos problemas quando mantidos em pastagens. Os resultados desse estudo são claros, o temperamento dos bovinos é um dos contribuintes para a capacidade adaptativa ao ambiente de confinamento. Entretanto, sabemos que em condições comerciais, selecionar somente os animais calmos é impraticável, pelo menos num curto/ médio prazo.

Para finalizar, gostaria de salientar que até o presente momento pouca atenção têm sido destinada à parcela de animais que enfrentam sérias dificuldades ou que são incapazes de se adaptarem, o que obviamente tem implicações econômicas. O desenvolvimento de mais pesquisas que busquem avançar no conhecimento dos custos biológicos e econômicos advindos de manter bovinos em ambientes desafiadores pode ser decisivo na formulação de estratégias de gestão aplicadas pelos confinamentos. Nosso grupo tem testado algumas estratégias de manejo e os resultados são muito animadores. Logo em breve, voltaremos a falar sobre algumas dessas estratégias, com baixo ou nenhum custo adicional, que podem ser implementadas no confinamento. É assim que avançaremos para uma pecuária mais ética e sustentável.

*Janaina Braga - médica veterinária e consultora – Comportamento e Bem-estar de Bovinos de Corte - BEA Consultoria e Treinamento Pesquisadora Associada Grupo ETCO Unesp, Jaboticabal