Sanidade

Manejo Integrado

Sanidade

Combater as infestações de endo e ectoparasitas melhora qualidade de vida dos bovinos e aumenta o lucro da fazenda

Erick Henrique
[email protected]

Faça sua parte que eu te ajudarei. Essa frase deve ficar marcada na memória do estimado pecuarista quando se deparar com números insatisfatórios do rebanho. Pois, muitas vezes, o grande “ladrão” da produtividade pode ser a negligência no controle de parasitas internos e externos. Em outras palavras, se baixar a guarda no manejo sanitário da propriedade, mesmo por conta da crise econômica, o gado não vai colaborar para que a conta feche no azul.

Segundo estudos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da Embrapa Gado de Corte, prejuízos anuais com a verminose gastrintestinal podem chegar a US$ 7,11 bilhões por ano no Brasil. As infestações por carrapatos e mosca-doschifres ultrapassam 3,24 e 2,56 bilhões de dólares ao ano, respectivamente. Além disso, o fator de resistência a antiparasitários é um problema que pode agravar a situação.

“Observamos que animais tratados com um vermífugo com eficácia de 84% ganharam 9kg a mais que aqueles tratados com outro produto com eficácia próxima a 50%. Isso foi observado em um período de 112 dias. O estudo mais recente, em particular, está em vias de publicação e trata do impacto econômico de diferentes protocolos de controle da verminose gastrintestinal em bovinos. Neste artigo, mostramos que o produtor pode ter um ganho adicional de até US$ 31,56 por animal, no abate, quando o controle da verminose é realizado de forma estratégica e com produtos eficientes”, revela o médico-veterinário da UFMS, Mário Henrique Conde.

O especialista em doenças parasitárias explica que a UFMS desenvolveu o controle estratégico de parasitas que preconiza a vermifugação do rebanho nos meses de maio, agosto e novembro (5-8-11), aproveitando-se duas idas do gado ao curral para vacinação obrigatória de febre-aftosa. O objetivo é preventivo, a fim de proteger o rebanho e manter a população de vermes em nível baixo para maximização da produção e do bem-estar dos animais. Quando o problema é controlado adequadamente, o criador é capaz de aumentar a produtividade de arrobas por hectare em 30%.

Manejo integrado

O conhecimento dos parasitas presentes nas propriedades é essencial para a construção de um controle integrado, haja vista as diferenças na biologia e na epidemiologia dos parasitas, que necessitam de estratégias de controle diferentes. Essa, talvez, seja o pontochave para um controle integrado adequado, pois é a partir dela que serão instituídos os períodos de tratamento.

“Tendo ciência desse fator, pode-se então começar a construir uma estratégia de controle integrado. Para isso, é necessário analisar, ou construir, o calendário sanitário (vacinas obrigatórias e não obrigatórias) juntamente ao calendário reprodutivo da propriedade. Em seguida, deve-se identificar os momentos de maior prevalência dos parasitas em questão, porém, buscando associá-los aos manejos sanitário e reprodutivo já de rotina. Propriedades com estação de monta têm maior facilidade e sucesso com o uso de controle integrado”, diz o médico-veterinário Dyego Lino Gonçalves Borges.

Para ele, a obtenção de uma estratégia de controle integrado é uma tarefa difícil, complexa e que demanda um planejamento para cada propriedade, portanto, não é possível realizar uma recomendação genérica.

“Apenas para exemplificar, em uma fazenda na região Centro-Oeste do Brasil, que pratique ciclo completo com estação de monta de quatro meses e animais meio-sangue Angus X Nelore com problemas de verminose, carrapato e mosca-do-chifre, os períodos de maio, junho a setembro e novembro seriam momentos interessantes para se instituir tratamentos com antiparasitários, porque é possível conciliar os manejos de vacinações obrigatórias contra febre aftosa (maio e novembro) e a desmama dos animais com os picos de parasitismo”, aponta Borges.

Faça consciente

Quem sabe dos riscos intrínsecos é o engenheiro- agrônomo e pecuarista José Leandro Olivi Peres, da JP Agropecuária, onde investe pesado na sanidade do plantel de 7.936 cabeças de animais Nelore e meio-sangue Angus distribuídas em 2.760 hectares de pastagem. Para acertar no manejo, o criador não abre mão de utilizar o controle integrado de parasitas na sede, a Fazenda Pontal, localizada no município de Nova Guarita/MT.

“Eu vim para a Fazenda Pontal em 1999, recém-formado em Engenharia Agronômica, no município de Marília/SP. Meu pai já possuía essa propriedade, no entanto, não era o carro-chefe do seu sistema financeiro, e sim uma paixão, bem como uma possível oportunidade de negócio. Com o tempo, ele se deparou com os problemas que acontecem com as fazendas cujo dono não está presente. Logo, era necessário criar um projeto para alavancar a produtividade”, lembra o pecuarista

Primeiramente, o engenheiro-agrônomo foi recuperando as pastagens utilizando a integração lavoura-pecuária, a qual foi logisticamente viável entrar com a cultura de soja em 1.200 ha de plantio e nos locais que não eram possíveis a ILP ele desenvolveu sistemas rotacionados.

“Depois desse processo, hoje, a nossa fazenda de cria tem uma lotação de 2,8 UA/ha/ ano, com lucro líquido de R$ 850,00/ha/ano, e produzindo [email protected]/ha/ano. Temos também o confinamento e através da integração lavoura- pecuária nós invertemos a nossa estação de monta para junho, julho, agosto e setembro, sendo algo realizado diferente da maioria dos projetos que são feitos nas águas”.

Sanidade

“Posso garantir que o manejo sanitário dos animais meio-sangue Angus não é complicado'', diz o pecuarista José Leandro Peres

Todavia, esse desempenho da Fazenda Pontal, segundo Peres, só é possível graças ao controle estratégico de parasitas, no qual o produtor realiza o protocolo há mais de 12 anos, durante a época das vacinas (maio e novembro), sendo que no período seco entra com o controle de vermífugos de ação prolongada, com ação de 130 dias a partir de maio, em todas as categorias animais. Já em novembro, Peres utiliza uma dosagem específica de ivermectina para os animais com menos de 24 meses de idade, e acima de dois anos aplica o protocolo de vermifugação normal.

Sanidade

Amostra de Haemonchus spp - Teste de resistência e rotação de moléculas é necessária para controle das verminoses

“Além disso, nós controlamos moscados- chifres com uso de brincos mosquicidas, que eu acho que é uma das melhores ferramentas existentes no mercado. Muitos pecuaristas utilizam produtos pour-on, contudo, essa tecnologia obriga a uma rotina a cada 30 dias, caso contrário o criador perde a ação do produto, enquanto o brinco tem uma ação prolongadíssima, com ótimo custo/benefício. Chega até ser irrisório porque desembolso é de R$ 2,40 a R$ 3,00 em um produto que dura 180 dias. Assim, a gente coloca o brinco mosquicida no rebanho em novembro e só retira em maio”. É uma boa opção para controle da moscados- estábulos, cuja incidência aumentou em patamares alarmantes nas propriedades próximas a usinas sucroalcooleiras.

De acordo com o criador de Nova Guarita/ MT, com isso, o produtor tem o controle perfeito, e não precisa trazer o gado para o curral. “Porém, para os laboratórios, essa tecnologia não traz muita lucratividade, então, eles não a oferecem aos pecuaristas. Depois que a fazenda está com o manejo sanitário controlado, fazendo as ações de maio e novembro, por exemplo, executando um projeto pontual, em cima da faixa etária do rebanho, os produtores resolvem todos os problemas, com custo muito baixo, por meio do brinco mosquicida”.

Na propriedade, eles trabalham também com as novilhas meio-sangue Angus x Nelore, onde as fêmeas são negociadas com o frigorífico VPJ, que comercializa carne gourmet no estado de São Paulo. Já os machos são vendidos à parte de acordo com o mercado.

“Posso garantir que o manejo sanitário dos animais meio-sangue Angus não é complicado, visto que desmamamos os bezerros e, em seguida os mandamos para as áreas de integração, onde ficam por 60 dias em local “limpo”, e de lá eles já vão para o confinamento por 120 dias, sendo abatidos com uma idade média de 16 ou 17 meses. Ou seja, é um período muito curto que o animal fica na propriedade e passou por dois controles integrados de parasitas de longa ação”.

Atualmente, o custo de sanidade animal da Fazenda Pontal, conforme Peres, é alto, pois trabalham com plantel de cria. Gira em torno de R$ 12,00 a R$ 15,00/cab/ano, sendo que a média nacional é R$ 7,00/cab/ano. “De todo modo, não abrimos mão de investir em sanidade animal, e, além dos vermífugos, utilizamos vacinas reprodutivas, contra a raiva, aftosa e doenças respiratórias nos bovinos confinados. Enfim, tudo isso é muito barato levando em consideração o ganho de produtividade e a lucratividade da fazenda”, conclui proprietário da JP Agropecuária.

Atenção aos exames

Os criadores ainda não se atentaram para a importância de se realizar um teste de eficácia de anti-helmínticos (vermífugos), que determina o produto mais adequado para o controle da verminose em uma determinada fazenda e que pode ser realizado a partir da comparação de resultados de exames de OPG (utilizado principalmente para a quantificação de ovos por grama de fezes em animais de produção) pré e pós vermifugação. É importante lembrar que cada fazenda apresenta uma realidade diferente. O produto que controla os parasitas em uma pode não funcionar em outra, mesmo que vizinha.

mesmo que vizinha. “De maneira geral, quando analisamos as estratégias de controle de verminose de diferentes propriedades, observamos que a frequência de utilização dos vermífugos é diferente, o que favorece a ocorrência de populações de vermes com diferentes perfis de resistência. A não realização da quarentena dos animais de compra, que deve ser associada com a vermifugação, também é um fator importante. Como em cada fazenda podemos observar uma realidade diferente em relação à eficácia dos vermífugos, a realização de testes de eficácia é extremamente importante. Por este motivo, recomendações de balcão não devem ser levadas a sério”, alerta o professor da UFMS.

Na avaliação de Conde, os motivos pelos quais os pecuaristas não fazem OPG e testes de eficácia de vermífugos em fazendas comerciais são inicialmente, pelo desconhecimento dessas metodologias, assim como do impacto econômico causado por parasitos resistentes e, em segundo momento, a realização de dois ou três manejos a mais no curral soa como grande empecilho para os produtores.

“A importância de se detectar a resistência de vermes e carrapatos aos medicamentos se dá por um simples motivo que faz toda a diferença no sistema de produção. Podemos descrever esse motivo por um modelo matemático: (vermes resistentes + carrapatos resistentes) = prejuízo econômico. Quando me refiro às perdas causadas pelo parasitismo, estou falando de valores, que somados, superam 10 bilhões de dólares por ano”, calcula o mestre em ciência animal.

Os especialistas em doenças parasitárias afirmam que a rotação de moléculas é uma alternativa que deve ser utilizada, a priori, para retardar o aparecimento da resistência parasitária. Essa prática deve ser utilizada de maneira consciente e associada à realização de testes de eficácia dos produtos. Cuidado para não fazer a rotação de marcas comerciais diferente, mas que possuem como base o mesmo princípio ativo. Isso é um erro relativamente comum. A recomendação é a realização de testes de eficácia a cada dois anos.

Outra sugestão corrente é a troca de princípio ativo também a cada dois anos, no entanto, isso não é uma verdade absoluta. Alguns pesquisadores relatam que uma molécula pode ser utilizada até que se detecte a resistência contra o mesmo. Esta divergência de pensamentos é alimentada pela ausência de resultados de campo, que poderiam ser obtidos após a avalição continuada, ao longo de anos, dessas alternativas. Basicamente, os resultados que temos foram obtidos em simulações matemáticas realizadas a partir da análise de dados coletados durante curtos espaços de tempo.

“Outra alternativa frente às populações de vermes resistentes que está ganhando espaço na Medicina Veterinária é a utilização de combinações anti-helmínticas de dois ou mais princípios ativos em uma mesma formulação. Um exemplo é a utilização de ivermectina combinada ao sulfóxido de albendazole, já comercializada no Brasil. Em breve outras combinações serão lançadas”, finaliza o médico-veterinário da UFMS.

DICA DA REVISTA AG

Ainda existem medicamentos altamente eficazes contra verminoses como é o caso dos produtos à base de sulfóxido de albendazol, mas que possuem ação zero contra carrapatos, exigindo reforço de um ectoparisiticida específico, que, no caso de taurinos, dificilmente será ivermectina. Então, todo o cuiadado é pouco para gerir a resistência em cada uma das infestações.