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Domínio no CEIP

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Primeiro programa a obter o certificado do Mapa que atesta o melhoramento genético, DeltaGen foca em fertilidade, ganho de peso, precocidade de abate e carcaça

Adilson Rodrigues
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As transformações incríveis da pecuária brasileira impactaram sobremaneira a pista de julgamento, principalmente nas raças zebuínas, antes tida como a grande vitrine de melhoramento genético. Por outro lado, abriu espaço para o surgimento de uma gama de programas de avaliação genética, retratados aqui em nosso especial da Revista AG.

Como vimos na edição anterior, um dos programas surgidos é a Conexão Delta G, que trabalha especificamente com uma raça taurina e outra sintética. Esse é o grande legado do renomado zootecnista Luiz Alberto Fries.

Mas não só dele é o mérito da criação de um dos maiores projetos das raças Hereford e Braford do mundo. Fries iniciou o programa coletando dados dos animais das tradicionais famílias Pötter e Zart, que, em 1973, uniram-se no intuito de consolidar um genuíno programa de melhoramento genético.

Esse foi o embrião da Conexão Delta G, aberto à participação dos demais criadores a partir de 1993. “Sem o empenho deles não teríamos todo esse progresso de seleção genética das duas raças nem a formatação e a grandeza da Delta G como ela é hoje”, como bem lembra a criadora Renata Eichenberg, da Estância Silêncio.

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Moacyr Fregonesi estima que a DeltaGEN possua 52% do mercado CEIP e mais de 10% do Nelore nacional

E foi a partir de tais avanços que também nasceu a campeã do Troféu Touro de Ouro 2018, na recém-lançada categoria Programas de Avaliação Genética, a DeltaGen, dedicada exclusivamente à raça Nelore e que, desde 2013, não carrega mais o nome Conexão Delta G Norte.

“O programa de melhoramento da DeltaGen é baseado nos princípios de seleção a pasto e sistema produtivo de ciclo curto, no qual os animais são abatidos ainda jovens”, define Moacyr Fregonesi Barbosa, titular da Fazenda Santa Thereza e que assumiu a presidência do programa em 13/09/2018.

A veia zebuína do programa teve origem na aquisição da Fazenda Jacarecatinga e da Agropecuária Jacarezinho pelo Grupo Grendene, agregando o rebanho Nelore, inicialmente selecionado em Valparaíso/ SP, aos primórdios do projeto. “Essa história começou 25 anos atrás com um grupo de criadores em conjunto com geneticistas renomados que enxergaram que o caminho era a pecuária de ciclo curto, com bovinos abatidos com 24 meses de idade”, conclui Ian Hill.

Para o CEO da Agropecuária Jacarezinho, a fertilidade também é o ponto-chave para o aumento da produtividade na pecuária. E acertou em cheio. “Um dos grandes diferenciais da DeltaGen, e com grande reconhecimento no universo Nelore, é o trabalho de seleção para precocidade sexual. Tem rebanhos conseguindo prenhez das novilhas aos 14 meses de idade, algo excepcional na raça”, ratifica o zootecnista Vanerlei Roso, sócio na GenSys C o n s u l t o r e s , empresa responsável por rodar as DEPs do programa. Ao longo destas duas décadas e meia, a associação – a Conexão Pecuária para o Melhoramento Genético ou apenas DeltaGen – conquistou posicionamento no mercado e colocou em prática um dos principais objetivos: aumentar a eficiência produtiva dos rebanhos nacionais.

Então, é perceptível a busca constante por fertilidade, precocidade de crescimento, terminação e sexual, mas sem o viés da perfeição racial. Todavia, sem abrir mão de avaliações funcionais importantes. Destaque para a atribuição de notas de CPMU a cada animal. “C” é conformação, “P” é precocidade, “M” é musculatura e “U” é umbigo.

“Essa avaliação visual ajudou muito o crescimento dos animais. Antigamente eles eram pernaltas, tardios, e terminavam a carcaça com três, quatro e até cinco anos de idade. Hoje, já abatemos de maneira superprecoce, dependendo, claro, da estratégia nutricional de cada fazenda, mas, em média, nossos animais são abatidos aos 24 meses, mais de [email protected] e boa cobertura de gordura”, garante Moacyr Fregonesi.

Além destes atributos, todos os animais são pesados, tem altura controlada, recebem notas para caracterização racial, ossatura e pigmentação. Nos machos ainda é medido o perímetro escrotal. Outro diferencial é a interação entre os associados, afinal juntos é que se vai longe.

A coleta de informações é uma parte fundamental do processo. Dentro do programa, ela acontece em três fases distintas: nascimento, desmama e pós-desmame. Todas com datas e prazos estabelecidos para garantir a correta mensuração e repasse dos dados à Gensys para compilar as DEPs.

Vinte e três são as DEPs publicadas no sumário de touros, com maior destaque àquelas que impactam diretamente o índice de qualificação DeltaGen: dias para ganhar 160 kg, dias para ganhar 240 kg, perímetro escrotal e CPMU à desmama e ao sobreano. A acurácia de cada DEP varia de 0 a 1, quanto mais se aproximar de 1 mais o touro é confiável. Vale ressaltar a DEP de peso ao nascer, muito importante na raça Nelore atualmente.

“Temos trabalhado apenas caasracterísticas de grande interesse econômico, levando precocidade, musculosidade e desempenho superior aos rebanhos participantes e, via comercialização de sêmen e touros, contribuindo com a evolução da pecuária nacional”, destaca Fregonesi.

Segundo o presidente da Delta- Gen, cada ponto a mais agregado ao índice de desmama dos bezerros resulta em ganhos reais de 1,7 kg de peso nessa fase. “Os rebanhos que têm utilizado sistematicamente nossos reprodutores terão uma evolução considerável do peso à desmama e ao abate”, complementa. Resultados como esse renderam uma boa chancela ao programa.

Força no CEIP

O Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP), concedido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) a animais comprovadamente melhoradores, é outro dos grandes méritos da DeltaGen no Nelore, pois é pioneiro entre os programas de avaliação genética, começando em 1996 com o rebanho da Agropecuária Jacarezinho e futuramente abrindo para os demais participantes que viriam.

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Rodrigo Dias informa que são realizados encontros anuais para orientar os criadores em relação à interpretação dos índices do programa

Um touro Deca 2 é bom para ser utilizado na vacada comercial enquanto os Deca 1 são perfeitos para repasse ou inseminação artificial. Fregonesi estima, com base no Index ASBIA 2017, que a Delta- Gen possua 52% do mercado CEIP e mais de 10% do Nelore nacional.

Ranqueamento dos touros

Assim como a Conexão Delta G, a DeltaGen trabalha com Decas, ou seja, os touros são ranqueados no sumário em escalas de 10%. Deca 1 é o melhor grupo, representa os 10% melhores reprodutores ou TOP 10%, se desejar. Isso significa que os pecuaristas não encontrarão animais TOP 0,1%, a nova “coqueluche” entre os programas de avaliação genética, onde os erros de interpretação fazem suas maiores vítimas.

Justamente para evitar esse tipo de problema que a DeltaGen promove encontros anuais com os as sociados. “Realizamos uma Reunião Técnica Anual que possui entre os principais objetivos passar possíveis implicações para os criadores sobre a interpretação dos nossos índices de seleção”, explica Rodrigo Dias, gerente técnico da DeltaGen.

É essencial o animal ter uma boa avaliação genética, mas existem outras qualidades que nunca perderão relevância. “Um touro precisa ter bons aprumos, boa ossatura, bom posicionamento de membros, prepúcio corrigido, linha de dorso forte, pigmentação firme e ser harmônico. Também é interessante se ele for racialmente bom, mas não digo que isso seja um atributo fundamental”, pondera o gerente.

Genômica

Dedicada a investir em tecnologias inovadoras, a DeltaGen oferece aos associados a DEP Genômica desde 2012. DEP Genômica é a união de métodos clássicos de seleção com as informações genéticas extraídas do DNA dos animais, obtendo dados muito mais consistentes e acurados.

A tecnologia genômica permite a identificação de animais superiores antes mesmo que eles venham a gerar filhos, encurtando ainda mais o ciclo de produção, o que permite maximizar o uso de touros jovens, um desafio no moderno melhoramento genético.

Sumário de touros da DeltaGen reúne 23 DEPs

“A DeltaGen é pioneira na seleção genômica no Nelore. Seu banco de dados genotípicos conta hoje com 22 mil animais. Apenas em 2018 foram genotipados mais de 10 mil cabeças”, informa o médico-veterinário Jorge Severo, também sócio da GenSys Consultores.

Vantagens que extrapolam para o teste de progênie, onde a pressão de seleção é fator determinante no progresso genético. “No ano passado, foram selecionados 24 touros para o teste de progênie, num universo de 20 mil machos avaliados no programa. Ao todo foram distribuídas 16 mil doses de sêmen aos rebanhos DeltaGen”, revela Severo. E isso é apenas a ponta do iceberg.

O Programa DeltaGen compreende 75 mil vacas controladas. Os rebanhos participantes têm produzido em torno de 3,1 mil tourinhos por ano. “Este número deve aumentar, possivelmente atingindo 5 mil por ano, à medida que os progressos genéticos se concretizem e também em função do recente aumento do rebanho controlado”, projeta Severo. O banco de dados da DeltaGen possui mais de 900 mil animais avaliados.


Com ajuda da genética avaliada, Maragogipe é a campeã de carcaça

Pioneira no cruzamento industrial entre as raças Angus e Nelore no Mato Grosso do Sul, a Agropecuária Maragogipe, de Itaquiraí, é hexacampeã do concurso de Carcaça Angus, realizado anualmente na unidade de Bataguassu do frigorífico Marfrig. Em sua edição mais recente participaram 1.377 animais de 16 fazendas.

A vitória entre os machos foi garantida pelos animais do lote 11 que tiveram média de 350,06 kg e 58,78% de rendimento de carcaça. Nas fêmeas, a Maragogipe venceu com o lote 12 ao atingir 309,62 kg e 57,81%. Claro que a propriedade utiliza sêmen Angus com alta conversão alimentar e precocidade de terminação, mas esse é apenas parte do segredo.

Entre os diferenciais que garantem a supremacia da Maragogipe há seis anos nas provas de Bataguassu estão as matrizes Nelore utilizadas e um conjunto de critérios de manejo, como explica o sócio-diretor Wilson Brochmann. “Qualquer criador que seja criterioso e analise as DEPs dos animais sabe que nutrição, manejo sanitário e, principalmente, melhoramento genético são fundamentais. Trabalhamos a vida toda em conjunto com a DeltaGen e temos uma relação técnica muito boa”, avalia.

Ou seja, a base genética – as matrizes Nelore ou ainda a reposição, se preferir – é fundamental para o sucesso na atividade. Prova disso é o recente investimento da propriedade no resgate genético do plantel por meio da aquisição de matrizes da Agropecuária Jacarezinho, de onde também vieram as primeiras vacas Nelore da Maragogipe, em 2012.

“Na ocasião, além da fertilidade, o critério de aquisição destas matrizes baseou-se em performance produtiva. São animais superiores à média do rebanho na avaliação genética, sendo 45% delas Deca 1 e 31% com CEIP”, ressalta o médico-veterinário Fernando Boveda, gerente da fazenda.

Ele também destaca a acurácia das DEPs, pois tinham de seis a 12 crias avaliadas, 36 eram do núcleo precoce da DeltaGen, além de apresentarem eficiência, rusticidade e funcionalidade para desempenho a pasto. A Agropecuária Maragogipe tem 40 anos de seleção e na década de 1990 era famosa no Limousin, raça que dominava o mercado taurino à época.