Na Varanda

Pecuária além do Buraco Negro

Na

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

O ser humano, de modo semelhante a fauna e flora, sente- se melhor quando se encontra em equilíbrio. Impactos súbitos na rotina diária criam estresse e provocam maior gasto de energia. No entanto, existe uma diferença importante entre o Homo sapiens e o resto da natureza. Nós, há cerca de 300 mil anos, começamos a acelerar a história. Enquanto a evolução da natureza anda em passos lentos, os homens, mudando a vida nômade para a agricultura e, posteriormente, criando a convivência urbana, descolou-se do resto do universo para ganhar, bem, nem sabemos direito ‘o que’, com todos esses avanços tecnológicos. Mas pouco importa saber o motivo, o fato é que estamos numa roda de hamsters.

Qual o resultado até o momento? Vivemos melhor e mais tempo, porém, provavelmente menos felizes do que as gerações anteriores e, mesmo comendo apenas comidas saudáveis, estamos todos nos aproximando da epidemia do Burnout. Talvez não conheçam o termo, mas certamente sentem seu efeito. A vida acelerada, tanto no negócio como no trânsito e em casa (com a parafernália de conexões via dezenas de aplicativos) provoca desequilíbrio psicológico, que, com o tempo, se transforma em distúrbios psíquicos de caráter depressivo. Na Europa as pessoas já faltam entre 15 a 20 dias por ano no trabalho apresentando atestados médicos com essa nova doença. Ou seja, ganhamos muito, mas perdemos o bem-estar da alma.

Sentimos a aceleração do tempo em todas as esferas da nossa vida. Mas, são os momentos mais espetaculares que nos fazem parar para pensar sobre como desenhar o caminho para o futuro. A chegada do homem na lua nos ensinou que os limites do intangível estão se afastando. Com a internet, entramos na biblioteca universal do conhecimento ilimitado e, também, no mundo da perda de tempo com montanhas de futilidades. O surgimento de Hamburgers 3-D, da pesagem de boi via chip sem balança e da plantação de mudas feitas por drones são avanços extraordinários. Essas inovações, quase diárias, mudarão nossa percepção sobre como as coisas funcionam e, consequentemente, nossa rotina de planejar, produzir e comercializar.

O último evento de impacto foi a selfie do Buraco Negro. Na verdade, não havia nada de muito novo, pois já se havia comprovado que ele realmente existia. Porém, vendo “olho no olho” aquele monstro, imediatamente sentimos a descarga de adrenalina. Vivemos um momento de mudança de patamar da nossa atitude. Entendemos que é verdade o que já ouvimos em vídeos e palestras: A única coisa que não muda é a mudança contínua. E falta completar: com velocidade cada vez maior.

Já que somente poucos jovens pensam em mudar-se para ilhas desabitadas ou as montanhas do Himalaia, nós que ficaremos aqui mesmo, devemos refletir sobre como podemos ajustar nossa visão e ritmo de fazer as coisas perante a essa aceleração quase insana da roda da tecnologia. Se é verdade que os robôs irão substituir grande parte dos trabalhos de rotina devemos estudar qual parte do nosso dia-a-dia é rotina e onde somos e estaremos por muito tempo melhor do que a inteligência artificial. Essa é a contemplação da nossa conversa “Na Varanda” de hoje e, provavelmente, ao longo de outras.

Sempre houve uma divisão de humanos em um pequeno grupo que manda e a grande maioria que obedece, entre os poderosos e os indefesos, entre os ricos e os pobres, entre os iluminados e os desinformados. Mas foi o grande avanço da cultura ocidental, ao longo dos últimos 800 anos, que desmontou esse dualismo histórico, criando uma sociedade mais equilibrada.

Todavia, filósofos, sociólogos, economistas e cientistas receiam que chegamos num ponto de inflexão do atual modelo devido a um novo colega de trabalho que se chama “robô”. Ele substituirá 48% dos atuais empregos nos EUA ao longo dos próximos 15 anos. Em princípio, serão automatizadas tarefas pouco atrativas como o trabalho manual no campo, entregadores de correio ou seguranças em prédios de apartamentos. Até advogados, contadores e médicos enfrentam desafios que os obrigarão a repensar suas atividades. O verso da moeda é a questão social. Se um pequeno grupo de 15 a 20% dominar a gestão da inteligência artificial e se as máquinas inteligentes substituírem metade das profissões de rotina, o que acontecerá com os excluídos dessa sociedade altamente impactada por aparelhos, drones, sensores e aplicativos?

Não vamos poder aprofundar a questão social. Assim, devemos focar nos conceitos e ferramentas que nos permitirão fazer parte da minoria dos 20% de vencedores dos tempos modernos. Isso inclui os nossos filhos e as melhores cabeças da nossa equipe na fazenda. Temos de desenhar um programa de aprendizado contínuo e individualizado para cada função do nosso negócio crescentemente complexo. A explosão do conhecimento é tanta que ninguém mais consegue, sozinho, ficar ao par de tudo que é preciso saber para gerenciar com lucratividade sustentável. Surge, assim, a necessidade de aprender em grupo.

Precisamos formar um novo protótipo de pecuarista que assumirá a liderança na transição da bovinocultura atual para o negócio da produção de carne no futuro. No próximo artigo vamos falar sobre o Mapa de Lida para fugir do campo gravitacional do buraco negro da pecuária em extinção e traçar o perfil do novo líder do agronegócio no século do conhecimento.