Entrevista do Mês

O lado obcuro do CAR

Entrevista

O consumo alimentar residual (CAR) ganha evidência na pecuária nacional, ao ajudar na seleção de touros com melhor eficiência alimentar. Mas, você sabia que o CAR negativo pode afetar a qualidade de carcaça e a precocidade sexual? Quem nos revela isso é o engenheiro-agrônomo e mestre em Nutrição Animal Dante Pazzanese Duarte Lanna, professor associado da ESALQ/USP e titular da Marca DP.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Hoje, estamos numa corrida frenética para melhoria da eficiência alimentar dos bovinos. Esse é o caminho correto a seguir?

Dante Pazzanese Duarte Lanna - Acredito que sim. Devemos pensar cada vez mais em eficiência porque ela gera dois grandes benefícios à pecuária. Um é o aumento da competitividade da carne bovina com outras carnes e alimentos e o outro é que, com ela, reduzimos o impacto ambiental, pois animais e sistemas mais eficientes produzem menos poluentes por quilo de carne produzida. É preciso, agora, entender que o caminho do aumento da eficiência tem várias oportunidades e várias armadilhas.

Revista AG - Ouvimos um comentário seu que a seleção para eficiência alimentar está levando à produção de animais tardios. Essa seria uma das armadilhas?

Dante Pazzanese - Sim, é verdade que podemos selecionar animais tardios ao focar a eficiência alimentar. O que vale lembrar aqui é que existem dezenas de “índices de eficiência”. Qual deles devemos escolher? Por exemplo, veja dois dos mais utilizados: conversão alimentar e consumo alimentar residual (CAR). Sempre se soube que animais com melhores conversões alimentares eram mais magros e tinham problema de acabamento. Isto já era muito conhecido para suínos também. Entretanto, meu grupo de estudos vem publicando pesquisas há 15 anos mostrando que também os animais mais eficientes para “Consumo Alimentar Residual (CAR)” são mais magros (tem menor acabamento) que o grupo menos eficiente. Ou seja: os animais são mais eficientes, em parte, porque depositam menos gordura. E isto tem a tendência de fazer com que os animais sejam mais tardios. Há uma correlação genética entre deposição de gordura e precocidade.

Revista AG - Interessante, todavia eficiência alimentar não seria apenas identificar os animais que convertem mais comendo a mesma quantidade de alimento que o outro. Como isso pode interferir nas características de precocidade?

Dante Pazzanese - A explicação está no que discuti inicialmente. Podemos calcular a quantidade de alimentos para depositar a mesma quantidade de ganho. Mas, e se a composição do ganho de peso for diferente? Esse é o problema. No início das pesquisas sobre CAR, autores australianos como Paul Archer afirmaram que a menor deposição de gordura explicava apenas 5% do CAR e a comunidade aceitou sem questionar. Eu não concordava e afirmava, desde o início, que havia um grande erro nesta versão. O problema é a metodologia utilizada. E ficou ainda maior quando vários grupos brasileiros começaram a trabalhar com CAR e a usar a mesma metodologia (uso da regressão múltipla com dados de peso, ganho e de ultrassom). Isso foi um grande erro estatístico, pela altíssima correlação entre estas variáveis. O uso de regressão múltipla pode ser totalmente enganoso. Nestes últimos dez anos, nós e alguns outros grupos comprovamos que estávamos certos e eles errados. Em trabalhos posteriores meu grupo demonstrou que cerca de 30 a 40% da diferença no CAR podia ser explicada pela menor deposição de gordura. Duas teses de doutorado das minhas orientadas Michele Lopes e da Amália Chaves, aqui na ESALQ, demonstraram isso, claramente, para a raça Nelore.

Revista AG – Então, temos um dilema aí, pois os especialistas em avaliação genética defendem que a eficiência alimentar é uma característica neutra. Subentende-se que inclui as DEPs de carcaça. Então, o negócio não é bem assim?

Dante Pazzanese - Como disse, está provado que estão errados. Além das pesquisas feitas no Brasil e nos EUA, existe um estudo muito interessante feito na própria Austrália, onde nasceu esta crença. Naquele país foi desenvolvido um projeto de seleção para animais com maior e menor CAR. Descobriu-se, após poucas gerações, que os animais mais eficientes (CAR mais baixo) eram também animais com menor teor de gordura. Como havia duas linhagens, uma eficiente e outra ineficiente, os pesquisadores também puderam calcular a correlação genética entre o CAR e a deposição de gordura. Ficou claro que animais mais eficientes (menor CAR) eram mais magros. Demorou 15 anos, mas a sua pergunta foi adequadamente respondida pela comunidade científica.

Revista AG - E qual seria a solução para selecionar animais que sejam mais eficientes no aproveitamento do alimento, mas que não deixem de ser precoces e bem-acabados?

Dante Pazzanese - Muito simples: primeiro não se pode selecionar apenas para uma característica, especialmente se esta for a eficiência alimentar. É preciso montar um índice e se buscar animais equilibrados. O fato de a correlação genética ser inferior a 100% demonstra que há genes diferentes envolvidos nas características. Ou seja, existem animais que convertem alimentos mais eficientemente sem necessariamente serem mais magros. Portanto, é possível achá-los. As análises genéticas comprovam que eles existem. Outro aspecto que vale deixar claro é que no caso de duas novilhas de mesmo CAR, aquela que for mais precoce sexualmente acaba sendo muito mais eficiente. Exemplo: uma novilha prenha aos 14 meses economiza 12 meses de alimento consumido em comparação àquela fêmea que ficou prenha aos 24 meses. Isto a torna muito mais eficiente. Veja, então, que há várias características afetando a “conversão alimentar” e isto não se remete a apenas ao que o animal consome no confinamento. A precocidade sexual é muito importante.

Revista AG - Existem fazendas que conseguiram atingir tal objetivo?

Dante Pazzanese - Acredito que sim. A característica melhor correlacionada com a eficiência é o ganho de peso. E isto é importante. Melhor fazer seleção para ganho do que uma má seleção para CAR. Como todos devem saber, minha família seleciona Nelore desde 1965 e recentemente eu assumi a responsabilidade do trabalho. Nossos touros jovens Nelore Mocho são líderes do programa da ANCP. Em conjunto com nosso coordenador de pecuária, Fernando Manicardi, buscamos bom senso e equilíbrio. Nosso foco está em animais com altas taxas de crescimento que depositam gordura de acabamento na hora certa e na precocidade sexual. Não acho que temos um volume de dados de CAR para utilizar estas características, mas já estamos chegando próximo deste momento. A coleta de dados em várias instituições públicas e em algumas fazendas vai logo permitir isto. Mas, somente quando um volume grande de dados for obtido, teremos DEPs acuradas e conheceremos o valor real das correlações genéticas entre ganho, gordura e precocidade sexual na raça Nelore. Aí poderemos incluir o CAR ou outra medida de eficiência na equação. Um alerta: jamais use o CAR de um animal. Ou seja, o valor fenotípico de um touro testado é uma PÉSSIMA escolha. Por quê? Porque há enorme variabilidade no CAR. Temos pesquisas mostrando que, quando foi feita a medição do CAR duas vezes seguidas no mesmo animal, os valores eram muito diferentes. Há enormes erros individuais na medição do CAR. E acredite, acho que ninguém mediu mais CAR do que os grupos com quem colaboramos. Há erros de brincos eletrônicos, de cochos eletrônicos, de pesagens individuais, de variação climática durante as pesagens, etc. E, principalmente, porque os animais podem estar doentes ou em crescimento compensatório. Isto altera tudo e a conclusão é clara: não acredite no dado de CAR de um indivíduo!!! Nunca!!! Apenas a DEP pode ser utilizada, e, quando utilizar a DEP, é preciso estar atento ao valor da acurácia calculada.

Revista AG - Falando em crescimento, em relação às provas de ganho em peso, elas vêm sendo utilizadas para identificar reprodutores jovens, todavia, por si só, elas oferecem a credibilidade necessária para aquisição de um bom touro?

Dante Pazzanese - Não. Eu prefiro selecionar um touro por meio da DEP do que apenas da prova de ganho em peso. Além disso, se esta prova medir consumo, a variação individual não me convenceria a escolher um touro pelo CAR de uma prova. Eu apenas escolheria o sêmen de um touro com DEP para baixo CAR (eficiente) se ele também tivesse boas DEPs para precocidade sexual. Se fosse Nelore, para ser um bom touro, teria de ter bons índices de ganho, rendimento de carcaça e precocidade sexual. Acho muito importante trabalhar com rebanhos que tenham DEP genômica, pois as acurácias são muito maiores para todas as características. Se for de raça europeia, eu focaria mais no ganho, eficiência e rendimento.

Revista AG - O que uma PGP precisa ter para ser considerada boa?

Dante Pazzanese - Um grande problema destas provas é que alguns animais podem apresentar ganho compensatório em PGPs. Isto porque os períodos de adaptação não são longos o suficiente para retirar este efeito. As PGPs também acabam por desmanchar os “grupos contemporâneos”. Quando se tira um animal do grupo contemporâneo, a qualidade da comparação genética é perdida. Nas PGPs feitas fora da propriedade, os animais são retirados do seu grupo de manejo e a comparação de indivíduos fica comprometida.

Revista AG - O senhor é pioneiro no estudo das curvas de crescimento da raça Nelore. Hoje, o mercado sabe como gerir essa curva?

Dante Pazzanese - Acredito que todos no ramo agropecuário tenham dado um grande salto. Não faz muito tempo que se buscava só o ponto mais alto desta curva. Precocidade era entendida apenas como animal mais pesado. E agora as medições de eficiência, quando chegarem a ter um volume robusto, poderão ser muito úteis para se somar ao que já sabemos sobre a curva de crescimento. A questão da curva de crescimento é que o peso adulto não varia tanto. Trocar-se o ambiente e pouco se muda o peso adulto. Ele é definido mais pela genética. Mas, os pesos à idade jovem variam mais em função do ambiente. Alterações no sistema produtivo, na nutrição ou na sanidade, mudam muito a precocidade e, portanto, é mais difícil identificar o efeito genético. Então, será sempre mais fácil modificar a primeira parte da curva de crescimento alterando o ambiente (principalmente o pasto, os suplementos e o sal mineral) do que alterando a genética.

Revista AG - Como deve ser essa curva?

Dante Pazzanese - Animais devem ser mais pesados à idade jovem. Este é o objetivo. E devem alcançar a precocidade sexual cedo, ao longo desta curva. Quando mais rápida a primeira parte da curva de crescimento, mais eficiente é o animal na conversão de alimentos. Por outro lado, esta curva não pode levar a pesos adultos excessivos. Isto já foi demonstrado que leva a animais menos eficientes.

Revista AG - O fato de não termos um biotipo de Nelore definido atrapalha essa questão?

Dante Pazzanese - Acho que não. Acredito que o biotipo vai acontecer naturalmente na medida que vamos selecionando para o que importa: ganho de peso, precocidade sexual, fertilidade, rendimento de carcaça e de carne. Tudo isto está naturalmente associado a uma boa deposição de gordura.

Revista AG - Muitos criatórios de Nelore PO estão ingressando no que está sendo chamado de “precocinhas”. Esse é o caminho para melhoria da precocidade sexual das fêmeas?

Dante Pazzanese - Há 21 anos, em 1988, eu havia me formado na ESALQ e estava indo para os EUA fazer meu PhD. Naquele momento nós fizemos a primeira temporada de monta-desafio com as novilhas de 15 meses. Meu pai ficou bastante surpreso com a proposta, mas aceitou. Paramos uns anos e retomamos esta prática, a qual considero um pilar na nossa seleção genética. O problema hoje está em saber como a IATF impacta nesta questão. Muitos selecionadores estão usando hormônios e não temos a menor ideia de como isto afeta a nossa habilidade em identificar novilhas mais precoces. É um experimento dificílimo de ser feito e algo que precisamos discutir melhor.

Revista AG - Mas, uma novilha Nelore que emprenha aos 16 meses não vai contra a natureza da raça zebuína ou ela só não emprenha mais cedo porque não são dadas as devidas condições de manejo?

Dante Pazzanese - A verdade é que mesmo dando as condições de manejo, há uma parte destas novilhas Nelore que não tem o sistema reprodutivo pronto para conceber. Eu acredito que temos de mudar isto. Em nossa seleção da Marca DP, eu fico tão preocupado tanto com estas provas de precocidade quanto com as nossas provas de ganho de peso. São duas ferramentas a serem usadas conjuntamente para alterar a curva de crescimento. Se junto da seleção alterarmos o manejo, o objetivo será alcançado muito mais rapidamente. É preciso lembrar que estudos genômicos mostram que há muita contribuição gênica de gado europeu no Nelore. Mesmo em animais POI (puros de origem importados) foram encontradas contribuições de DNA de gado europeu. Sabe- se também que há fraudes e no caso do Nelore L.A. houve uma contribuição do DNA europeu. Isto deve ter acelerado a seleção para precocidade, de forma acidental ou não. O que temos de fazer, agora, é continuar este melhoramento utilizando ferramentas modernas, basicamente as análises de DNA. Temos feito análises genômicas em 100% das fêmeas Nelore da Marca DP e buscado fazer a temporada de monta-desafio em quase 100% das novilhas nascidas no nosso programa de seleção.

Revista AG – Daqui para a frente será cada vez mais comum vermos agricultores entrando na pecuária?

Rogério Coan – Com certeza, a entrada de agricultores na pecuária é uma tendência natural, pois estes têm a visão de que as pastagens são culturas agrícolas e estão dispostos a investir na correção e na adubação delas, na divisão em módulos rotacionados e na terminação em confinamento. Sem dúvida, os agricultores terão os maiores projetos de pecuária do Brasil, haja vista a vocação agrícola e o ímpeto pela aplicação crescente de tecnologias de produção.

Revista AG – Como isso deve impactar os índices zootécnicos dos animais?

Rogério Coan – O principal impacto será no ciclo de produção de recria e engorda, que tende a reduzir drasticamente em decorrência da aplicação das tecnologias de produção. Com certeza, veremos animais abatidos com idade inferior a 20 meses nesses projetos, garantindo carnes de melhor qualidade, preço diferenciado e margens operacionais mais elevadas.

Revista AG – Com base nos seus clientes, quais têm sido os maiores desafios desses produtores?

Rogério Coan – Os custos de produção têm aumentado muito nos últimos anos, e a baixa disponibilidade de linha de créditos e com juros mais competitivos limita muito o crescimento dos projetos pecuários.

Revista AG – A pastagem ganha mais atenção, hoje, em comparação aos últimos dez anos?

Rogério Coan – A pecuária tem como base a produção em regime de pastagens, e é natural que, nos últimos dez anos, tenhamos dado mais atenção à intensificação de sistemas com essa vertente produtiva, haja vista que os custos de produção tendem a ser mais baixos, permitindo maior competitividade dos sistemas.

Revista AG – Ultimamente, ouvimos muito sobre o conceito de nutrição de precisão. Qual a sua opinião sobre isso?

Rogério Coan – A nutrição de precisão é um segmento da nutrição animal que prioriza o máximo aproveitamento nutricional dos alimentos ingeridos pelos animais, de forma a potencializar a eficiência produtiva, reduzir custos de produção e mitigar impactos ao meio ambiente. Utilizamos esse conceito há mais de 20 anos, a partir do momento em que começamos a estudar melhor a produção de frangos de corte. Visualizamos, naquela época, que a pecuária do futuro faria uso desse conceito e buscamos ser pioneiros. Acredito, hoje, que a nutrição de precisão foi e será um divisor de águas para os pecuaristas que buscam aumento de produtividade, redução de custos de produção e, consequentemente, aumento das margens operacionais.

Revista AG – É verdade que a exigência do animal muda a cada cinco meses?

Rogério Coan – A exigência nutricional pode variar de 30 kg em 30 kg ou de 50 kg em 50 kg, dependendo da categoria animal. Logicamente que, em sistemas intensivos de produção, o desempenho animal pode ser elevado, aí o tempo (dias) pode ser bem menor para se atingir essa variação de peso.

Revista AG – Vemos ótimos exemplos de eficiência dentro do nosso setor, mas é fato que o conceito de pecuária 4.0 ainda é um sonho distante?

Rogério Coan – Acredito que a pecuária 4.0 é um sonho para muitos e uma realidade para outros. Temos, hoje, clientes que se encontram em nível tecnológico bastante avançado, com softwares e aplicativos interligados para gestão eficiente de processos e pessoas. Já estamos partindo para uso de drones para interpretação da massa de forragem em pastagens e leitura de cocho no confinamento, algoritmos de previsibilidade climática e cálculo instantâneo da taxa de lotação. E muito mais está por vir em breve. A verdade é que ainda visualizamos pecuaristas na era da pedra polida, na qual a tônica ainda é abater animais com cinco a seis anos de idade. Para esses, acredito que a pecuária 4.0 é futurista, para não dizer que é um sonho. Mas pode esperar que, nos próximos três anos, daremos um salto tremendo para uma pecuária ainda mais sofisticada, e daí poderemos chamar de revolução da indústria pecuária.

Revista AG – Por outro lado, vemos uma boa parcela de propriedades sendo assumida pelos jovens. Estaria aí o “pulo do gato” para o investimento em tecnologia?

Rogério Coan – Os novos sucessores dos projetos de agricultura e pecuária carregam maior afinidade em relação à aplicação de tecnologias, e certamente estes serão agentes de mudança entre a pecuária do passado e a do futuro. Visualizo, nessa nova gestão, o “pulo do gato” no investimento em tecnologias.

Revista AG – Quais as suas dicas para quem deseja encerrar o ano no azul?

Rogério Coan – As dicas poderiam ser inúmeras, mas foco onde o pecuarista é mais falho, na gestão. Faça o planejamento da atividade pecuária; estabeleça um fluxo de caixa com centros e classes de custos, priorizando receitas e despesas ao longo dos meses do ano; faça o orçamento por cabeça da atividade e seja rigoroso no controle dos custos; defina as estratégias nutricionais, o protocolo sanitário, as práticas de manejo e os investimentos no aumento de produtividade; e simule os impactos das tecnologias nos custos de produção x produtividade, encontrando o modelo ideal para o sistema de produção.