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O grande legado de Fries

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Programa Conexão Delta G carrega no cerne os ideais do reconhecido zootecnista Luiz Alberto Fries

Adilson Rodrigues
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Assim como vimos na matéria inaugural do Especial de Avaliação Genética – no qual apresentaremos, todos os meses, programas de melhoramento genético que estão revolucionando o mercado –, muitos desses projetos pioneiros carregam uma história invejável. Seja por meio de pessoas à frente do seu tempo ou por, simplesmente, serem catalisadores de grandes realizações.

No caso da Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores, o professor Raysildo Lobo herdou a matemática das Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs) e foi responsável por desbravar os caminhos de uma nova era na pecuária brasileira. E foi na década de 1990 – época do boom dos programas de avaliação genética – que um zootecnista, futuramente renomado, deixava sua assinatura.

Seu nome, Luiz Alberto Fries. Talvez alguns não se lembrem, mas o caxiense nascido em 27 de agosto de 1951 formou-se em Zootecnia em 1972, fez mestrado na mesma área na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1974 e, dez anos depois, tornou-se PhD In Animal Breeding pela Iowa State University of Science and Technology, entre outros títulos. Mais do que um currículo invejável, ele abriu mais portas para o melhoramento animal.

Cofundador da GenSys ConSys Consultores Associados, em 3 de fevereiro de 1991, e atuante no desenvolvimento de softwares aplicados ao melhoramento genético, sem dúvida, sua maior contribuição foi fundar, há quase 30 anos, o Programa Conexão Delta G, hoje voltado à avaliação genética das raças Hereford e Braford.

“O pioneirismo abre caminho para avanços significativos. As inovações de maior possibilidade de acerto são amparadas em bases sólidas, muita técnica e conhecimento, que era o caso do Fries e, hoje, é o da GenSys”, destaca Fernanda Varnieri Brito, sócia-fundadora da GenSys.

É creditado a Fries a criação do Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP) e uma mecânica que permite identificar reprodutores capazes de produzir uma progênie mais homogênea, sobre a qual o leitor terá detalhes ao longo desta matéria. “Não adianta passar pela vida sem deixar a marca. E ele deixou”, discursava Ian Hill, CEO da Agropecuária Jacarezinho (Valparaíso/ SP), durante homenagem no 23º remate da propriedade, em 29 de julho de 2018.

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Eduardo Eichenberg está no terceiro mandato à frente da Conexão Delta G

O célebre zootecnista faleceu em 8 de novembro de 2007, aos 56 anos, mas deixou um grande legado à pecuária brasileira, nas mãos, agora, da GenSys e das “conexões” Delta G e Delta GEN. No plural, porque se dividiram em duas. A Delta G, como dito, atua com taurinos, e a Delta GEN, com zebuínos. Na década de 1990, as duas empresas possuíam o mesmo nome; entretanto, a primeira era denominada “Sul”, e a segunda, “Norte”. O destaque desta matéria é a Delta G.

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O pesquisador Fernando Cardoso é o responsável pela avaliação genômica

Com sede em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, estão na Conexão Delta G 17 rebanhos das raças Hereford e Braford distribuídos nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Os números do programa são bem interessantes. Hoje, contempla mais de 15 mil matrizes controladas em reprodução, além de uma base genética robusta.

“O banco de dados utilizado nas avaliações genéticas conta com, aproximadamente, meio milhão de produtos, o que caracteriza a Conexão Delta G como um dos maiores programas de melhoramento genético do mundo”, acredita Eduardo Eichenberg, titular da Estância Silêncio e presidente do programa pelo terceiro mandato consecutivo. Ele assumiu no ano de 2013.

Outro fator interessante é que o programa reúne diferentes tipos de ambientes, do clima subtropical – no qual predominam pastagens na tivas e cultivadas, especialmente de inverno – ao tropical – caracterizado por forrageiras extensivas, mas com ciclo produtivo determinado pela sazonalidade das chuvas, passando, ainda, por inúmeras situações intermediárias, testando ao máximo a adaptabilidade do Hereford e do Braford.

Um ambiente variável como esse explica o fato de a associação ser pioneira na seleção de animais resistentes ao carrapato, lançado em 1994 e otimizado com a ajuda da tecnologia genômica, em 2009, possibilitando um salto maior na acurácia da característica, em torno de 60%. Isso é possível por meio de uma parceria com a Embrapa.

Assim como no princípio, a GenSys continua rodando as DEPs da Conexão Delta G, que somam 21 características de real importância econômica, em diferentes fases de desenvolvimento do animal.

Cabe ressaltar alguns diferenciais que reforçam a premissa de Eichenberg do programa figurar entre os maiores do mundo. É o único das raças Hereford e Braford em território nacional a emitir CEIP, lembrando que este é um certificado concedido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) a animais comprovadamente melhoradores.

Vale lembrar que o Projeto de Seleção Genômica para Resistência ao Carrapato, realizado em parceria com a Embrapa e a GenSys, é inédito no mundo, de acordo com posicionamento fornecido pela associação. Ainda possui o Programa Touro Jovem, no qual, anualmente, são identificados os melhores touros de cada safra para uso no teste de progênie. A Conexão Delta G possui 26 reprodutores em coleta em diferentes centrais de inseminação artificial, e as 17 propriedades participantes comercializam 1.500 touros por ano.

Momentos cruciais

Igual aos demais programas, a avaliação genética dos reprodutores acontece em dois momentos-chave do ciclo produtivo, na desmama (entre seis e oito meses de idade) e no sobreano (entre 14 e 18 meses de idade). Oportuno frisar que a Conexão Delta G é um dos poucos programas que controla o peso ao nascer, que, se relegado ao esquecimento, aumenta a chance de partos distócicos.

Aumentar a taxa de crescimento sem elevar o peso ao nascer e o peso adulto é um desafio no melhoramento genético atual em gado de corte. Portanto, a prioridade é por animais precoces. Depois de se tornarem DEPs, as características avaliadas são ponderadas de acordo com a ênfase desejada, formando o índice final da característica (tabela ao lado).

*Todo o sumário possui um índice de qualificação para ranquear os touros. Esse índice é a soma de todas as características avaliadas pelo programa, que representam um total de 100%, mas cada uma delas tem um peso diferente.

DEP Harmônica

A DEP Harmônica (DEPh) é um grande diferencial do Programa Conexão Delta G, à qual o início da matéria se referiu ao falar sobre a contribuição de Fries para descoberta de uma ferramenta que permitisse identificar reprodutores capazes de produzir uma progênie mais homogênea. É como se fosse um aperfeiçoamento da DEP tradicional.

“Os touros podem gerar produtos muitos bons e outros muito ruins, mas, na média, acabam ranqueando bem no programa. Na DEPh, esse tipo de animal é penalizado”, explica Eichenberg. O Sumário de Touros é impresso somente com a DEPh.

“Considerando os resultados dos últimos dez anos, verificamos ganhos bastante expressivos, tanto analisando as tendências propriamente ditas – que atingiram, em alguns rebanhos, índices acima de 1% em relação à média fenotípica por ano – quanto o perfil das vacas decas 1, 2 ou 3, sendo essas as de maior número na maior parte dos rebanhos”, constata Fernanda. Na Conexão, o índice top é classificado em grupos de 10% (decas), e não em números decimais, por isso, não são vistos touros ou vacas top 0,1%.


Conexão Delta G identifica resistência à ceratoconjuntivite

Dona da seleção mais robusta no que tange à resistência ao carrapato em taurinos, o programa, agora, também foca a seleção genômica para identificar animais da raça Hereford resistentes à Ceratoconjuntivite Bovina Infecciosa (CBI), trabalho desenvolvido em parceria com a Embrapa e a GenSys.

CBI é uma infecção que gera custos elevados no tratamento, que nem sempre é efetivo. Queda do ganho de peso e da produção de leite também são sintomas importantes. O primeiro passo do programa consistiu na coleta de fenótipos relacionados à doença em touros e novilhas de sobreano.

De acordo com Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, até o momento, o programa tem 1,08 mil animais com fenótipo e genótipo para a doença. Outros 560 animais estão sendo monitorados, porém ainda sem genotipagem. “Com esse número, é provável que, em 2019, tenhamos a primeira avaliação produzindo valores genéticos aprimorados pela genômica para os animais participantes do projeto e os seus pais, especialmente touros”, informa.

Para Eduardo Eichenberg, as DEPs Genômicas para Resistência à Ceratoconjuntivite Bovina Infecciosa contribuirão muito para a raça Hereford, certamente impulsionando a utilização de touros da raça.

Aliada à informação genômica de Resistência ao Carrapato, também fruto de um projeto inédito da parceria entre a Conexão Delta G, a Embrapa e a GenSys, e às DEPs para Comprimento de Pelo, já comumente avaliada pelos membros da Conexão, essa nova DEP Genômica para Resistência à CBI também fomentará a utilização da raça Hereford em projetos de cruzamento em regiões nas quais o desafio ambiental é maior, e, muitas vezes, proibitivo a raças taurinas .

De acordo com o presidente da Conexão Delta G, isso permitirá aos pecuaristas alcançarem uma maior rentabilidade com a produção de animais adaptados. “Ao mesmo tempo, esses produtos serão mais precoces, com tamanho ideal de carcaça e melhor remunerados pela indústria”, avalia.