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Gestão, por onde começar?

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Saiba como realizar uma administração mais profissional, em busca de melhores resultados produtivos e maior lucro na atividade

Erick Henrique
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Não é fácil montar um projeto de sucesso. Qualquer que seja a atividade desempenhada, se não houver sinergia entre os envolvidos, conhecimento aprofundado do sistema produtivo e determinação para superar os desafios, todo esforço em busca de resultados positivos será em vão.

Isso posto, para escapar dessa experiência inglória na sua propriedade, produtor rural assinante da Revista AG, o único caminho viável é controlar custo dentro da porteira, mediante a gestão da propriedade, fazendo de tudo para bater metas e monitorar os indicadores de produtividade ininterruptamente. Ou seja, administrar uma empresa agropecuária é manter o planejamento em marcha, sempre corrigindo a rota.

Na análise do zootecnista e diretor do Instituto Terra de Métricas Agropecuárias (Inttegra), Antônio Chaker, o primeiro passo que o criador precisa executar é acerca de processos internos. Começando pelo planejamento, porque a fazenda precisa ter uma visão clara de onde deseja chegar.

Esse panorama deve ser orientado em três aspectos: a finança – o quanto de lucro a propriedade deve gerar; as pessoas – que tipo de equipe o pecuarista precisa ter para alcançar tais objetivos; e, finalizando, os processos – como a fazenda vai operar do ponto de vista de manejo de pasto, planejamento forrageiro, nutricional e estratégia reprodutiva para atender àquela perspectiva financeira inicial.

“Ainda sobre a organização inicial da propriedade, um fator importante está relacionado ao controle financeiro. É imperativo que a fazenda tenha uma conta específica com conciliação bancária, no máximo semanal, para que o pecuarista possa ter domínio de todas as receitas, despesas e saldo. Com esse balancete, o fazendeiro analisa, também, o acumulado do ano”, orienta Chaker.

Segundo o analista do Inttegra, é fundamental implantar os controles no campo, em busca de medir toda a movimentação do rebanho e agrícola, com o intuito de calcular os indicadores de produção. Para Chaker, esses mecanismos seguem um roteiro simples: o produtor coleta um dado, transforma em informação, tira uma conclusão e toma uma atitude.

“A título de exemplo, ao coletar um dado sobre o consumo de sal mineral no cocho, obtemos a informação de que é de 50 gramas/dia. Se falamos de sal mineral 80 para vacas paridas, a conclusão é a de que a quantidade é muito baixa para essa categoria. Portanto, a atitude é entrar em contato com o fornecedor e entender o porquê desse consumo insatisfatório”, explica.

Além disso, o analista frisa que agrupar um time de colaboradores engajados no objetivo é uma tarefa difícil, porém é necessário orientar a equipe sobre quais valores sustentam um bom projeto agropecuário. “Esses valores são: zelo, transparência e verdade. Logo, aquelas empresas agropecuárias mais bem-sucedidas preservam tais características. Em suma, quando a fazenda é um zelo absoluto, desde a tropa e barracão ao manejo, isso demonstra que tudo é muito bem cuidado porque os funcionários valorizam organização, limpeza e disciplina.”

Indicadores de resultados

O diretor do Inttegra diz que o principal índice para verificar se a fazenda dá lucro é o resultado gerencial por hectare/ano, que é a receita total, menos a despesa total, mais o quanto o rebanho aumentou ou diminuiu em reais, dividido pela área de pastagem. Dessa forma, ele sofre uma influência direta dos indicadores de ganho de peso médio diário (GMD) e arrobas produzidas por hectare por ano (@/ha/ano).

Um termômetro fundamental para saber quem tem rentabilidade na atividade pecuária está no acompanhamento do ganho médio diário global do desempenho animal. Chaker afirma que quem faz recria e engorda precisa fazer o gado atingir um ponderal acima de 550 gramas/dia, porque, nessa faixa, o criador tem um giro de estoque mais rápido, viabilizando uma redução de custo fixo.

Agora quem trabalha com ciclo completo precisa ter ganhos diários acima de 420 gramas. Por fim, o pecuarista de cria precisa manter o foco em ganhos acima de 360 gramas/dia nas suas vacas. Quem estiver atingindo esses objetivos, segundo Chaker, é um “craque na atividade” e está ganhando dinheiro.

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“É imperativo que a fazenda tenha uma conta bancária específica com conciliação bancária, no máximo semanal”, alerta Antônio Chaker

Ainda é possível descobrir quem está ganhando ou perdendo dinheiro na atividade. Para tanto, o especialista se utiliza de levantamentos feitos pelo Inttegra, por meio de benchmarking (comparação de resultados), durante 20 anos, envolvendo mais de 200 pecuaristas, donos de 1,3 milhão de hectares de pastagens e de um rebanho estimado em 2 milhões de cabeças.

“No caso dos produtores de cria, quem está lucrando na atividade é aquele que produz acima de [email protected]/ha/ano. Quem faz ciclo completo precisa produzir acima de [email protected]/ ha/ano. Por último, os recriadores e terminadores precisam ter índice de produtividade acima de [email protected]/ha/ano para lucrar com a pecuária de corte”, revela Chaker.

Custo da arroba X fluxo de caixa

Para calcular o desembolso da arroba produzida, o pecuarista precisa conhecer duas variáveis: quanto ele produziu e quanto gastou. Para saber o quanto foi produzido, a melhor equação é avaliar o estoque final da safra (de 1 de julho a 30 de junho) em arrobas. Ele permitirá ao pecuarista ter em mãos o estoque inicial e o volume final em arrobas. Subtrai-se, então, tudo que foi comprado ou que entrou de transferência na fazenda e soma- se tudo que foi vendido. Assim, tem-se um balanço de arrobas produzidas, que nada mais é que “produção final, menos inicial, menos entradas, mais saídas”.

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O pecuarista Cesário Ramalho produz [email protected]/ha/ano, nas áreas de integração, com ajuda da gestão profissionalizada

“Essa fórmula fornecerá quantas arrobas o produtor produziu, mas essa é apenas metade da equação. Junto disso, deve ser calculado quanto se gastou, o que remete aos controles financeiros oriundos da conciliação bancária. Se o pecuarista já sabe o quanto gastou e produziu, simplesmente divide essa equação, culminando no desembolso por arroba”, explica o zootecnista.

Veja como fica em álgebra: Produção de @/ha/ano = Peso total do rebanho (@) em junho 2019 – Peso total do rebanho (@) em julho 2018 – Peso total comprado (@) no período + Peso total vendido (@) no período ÷ pela área de pastagem (ha). Desembolso/ cabeça/mês = Total de desembolso/mês em reais ÷ rebanho médio do mês (cabeças).

Entretanto, nem todos optam por esse caminho. O produtor de cria, Cláudio Belelli, proprietário das fazendas Colina Verde e Poço Dantas, nos municípios de Aliança do Tocantins e Santa Rita do Tocantins, prefere monitorar o fluxo de caixa ao invés do custo da @/ha/ano.

O professor da Esalq/USP, Paulo Fernando Machado, esclarece que o fluxo de caixa é um instrumento para controlar todos os recebimentos e pagamentos de uma empresa em um determinado período de tempo. Permite saber com precisão e agilidade qual a situação financeira presente e futura do negócio. O principal objetivo do controle do fluxo de caixa é fazer com que a empresa fique sempre com o saldo bancário positivo para evitar o pagamento de juros.

“Através desse sistema, podemos interpretar os números e chegar ao custo de produção de qualquer item agropecuário. Basta computarmos o custo de produção total da fazenda, reunir tudo aquilo que tivemos de entrada de dinheiro com a venda de vacas e touros de descarte, subtrair o custo total e dividir pelo número de arrobas de bezerro produzidas”, calcula Belelli.

Da mesma forma que Chaker, o produtor com fazendas no Tocantins ressalta que uma gestão financeira não pode ser trabalhada de forma isolada, pois ela deve estar relacionada também com a gestão de pessoas engajadas, já que é o resultado do esforço humano, organizado, que vai gerar um fluxo de caixa positivo.

“Vale destacar que não devemos misturar o caixa da fazenda, com o dinheiro pessoal. Embora a propriedade esteja cadastrada como pessoa física, ela tem de ser vista como uma empresa. O capital da empresa tem de ser trabalhado de forma separada do capital proprietário, senão a gente se perde nos números, nos valores e na gestão”, adverte o pecuarista.

Gestão eficiente

Quem está colhendo bons frutos da administração agropecuária mais especializada é o pecuarista de Naviraí/MS, Cesário Ramalho, que viu, nos últimos anos, o município de predomínio pecuário perder, anualmente, 3% das pastagens para agricultura. A única maneira para se manter competitivo foi adotar a integração lavoura-pecuária (ILP) para melhorar o rendimento por hectare.

“A Fazenda Santa Inês possui 2 mil hectares, trabalhamos com pecuária há mais de 48 anos. Antigamente, se formava a pastagem no lugar da mata, e íamos trabalhando, engordando boi. A região possui um clima bastante favorável para alta produção de carne bovina, no entanto, as pastagens ficam velhas, degradadas, dado que utilizávamos tudo que havia na terra. O solo acabava se tornando ácido, com pouco fósforo, potássio, cálcio, minerais essenciais à fertilidade do solo. Por isso, decidimos plantar soja, visto que é uma grande incorporadora de fertilidade. Em seguida, desenvolvemos a rotação da pastagem”, destaca Ramalho.

O pecuarista informa que trabalha com cria, recria e engorda, e também adquire animais só para engorda. O rebanho atual é de 2 mil cabeças, sendo que, desse total, 500 vacas Nelore são inseminadas com genética Angus. Essa heterose oriunda do cruzamento industrial, segundo Ramalho, tem acelerado o ganho de produtividade da fazenda. Além disso, ele oferece um pasto de qualidade para que esses animais meiosangue Nelore x Angus registrem um ótimo desempenho.

O Cria Certo da Embrapa reúne quatro simuladores com os métodos de reprodução mais relevantes atualmente

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A equipe do Inttegra trabalha na Fazenda Santa Inês há mais de 20 anos, sendo um controller para Ramalho. A consultoria anota todos os dados referentes à propriedade, como temperatura, precipitação, manejo da pastagem, dos animais, custos de produção etc. A equipe fornece uma série de soluções e faz um quadro comparativo com mais de 200 fazendas atendidas pela consultoria com ajuda de um software da empresa.

É avaliado se Ramalho possui uma relação eficiente homem x animal, trator x cultura, consumo de combustíveis e hora-máquina. Por meio dessa gestão que a consultoria promove na propriedade, o produtor afirma que, atualmente, desfruta de um projeto bastante equilibrado.

“Infelizmente, a grande maioria dos pecuaristas mede muito pouco o ganho de produtividade dos animais, para saber se o choque genético tem impulsionado o ganho de peso do rebanho. Nosso rebanho, por exemplo, está ganhando, em média, 1 kg/ peso/dia, criado puramente a pasto, apenas com suplementação proteinada. Esse tipo de informação poucos pecuaristas têm na ponta do lápis.”

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Ramalho informa que, nas áreas de ILP, está produzindo [email protected]/ha/ano, muito em conta também pela qualidade dos animais comprados, porque, na região, existem criadores que trabalham com eficiência na cria. “Eu penso que minha fazenda é como se fosse um hotel, quanto menor for o tempo que os animais ficarem na propriedade, maior será minha lucratividade, sem o uso de confinamento, visto que essa arroba produzida a pasto é de custo baixo.”

Segundo a zootecnista do Inttegra que presta assistência na Santa Inês, Rafaela Verdi, a fazenda está em constante busca pelo aumento de resultado. “O senhor Ramalho é muito pontual nos acompanhamentos mensais, nos quais ele analisa o orçado e o realizado, seguindo à risca o planejamento do triênio”, descreve.

Ferramentas

Hoje, os pecuaristas possuem alguns aplicativos que ajudam na árdua tarefa de controlar os custos da fazenda, alguns deles bem fáceis de usar. Qual o valor a ser pago por um touro melhorador? O que é mais viável economicamente, a monta natural ou a inseminação artificial?

Perguntas como essas, feitas diariamente por pecuaristas e técnicos, poderão ser respondidas com ajuda do Cria Certo. O aplicativo desenvolvido pela Embrapa Gado de Corte/MS em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), simula e calcula os custos e os benefícios de técnicas reprodutivas adotadas no Brasil, dando suporte à tomada de decisão.

A ferramenta reúne quatro simuladores com os métodos de reprodução mais relevantes atualmente: monta natural, inseminação artificial em tempo fixo (IATF) com repasse de touro, duas inseminações em tempo fixo mais repasse com touro e três IATFs.

“Essa tecnologia vai ajudar sobremaneira nós, produtores – tanto os que já fazem IATF quanto os pecuaristas com dúvidas sobre utilizar ou não a tecnologia reprodutiva e a quantidade de protocolos aplicados. No meu caso, por meio do manejo que realizamos na fazenda, o Cria Certo trouxe o custo do bezerro com uma IATF e touro de repasse, fechando a R$ 169,42. Isso inclui o custo do protocolo considerando a prenhez da IATF e o custo por bezerro do touro (incluindo depreciação e taxa de prenhez do repasse)”, avalia Estela Rodrigues do Vale, proprietária da Fazenda Lageado RV, de Morrinhos/GO, e usuária do app.