Feno & Silagem

SILAGEM NA RECRIA

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Amir G. Sessim*, Yago M. da Rosa**, Vanessa S. Fernandes*** e Júlio O. J. Barcellos****

A recria é a fase da produção de bovinos de corte imediatamente após a desmama, cujos objetivos são de recriar as bezerras até o primeiro acasalamento e os bezerros para entrar na fase de engorda. A duração do período de recria tem um impacto na duração do ciclo completo da pecuária de corte e, portanto, quanto mais curta ela é, mais eficiente é o processo da produção de carne nos sistemas produtivos.

Assim, diversas estratégias de alimentação são empregadas nesse período, e o uso da suplementação com alimentos volumosos tem sido uma tecnologia que possibilita o aumento do ganho de peso diário dos animais. A silagem de milho ou sorgo, na forma de grão úmido ou planta inteira, está sendo cada vez mais utilizada.

Ganho de peso na recria

O ritmo de ganho da bezerra, pré-definida para a reprodução, a partir da desmama, é que determina se ela vai chegar no peso alvo para o acasalamento na idade estabelecida no sistema, se aos 14, 18 ou 24 meses. Obviamente que aspectos adicionais como padrão genético e aspectos fenotípicos também são elementos que se combinam ao desenvolvimento corporal. De outra parte, quando a novilha não atinge esses objetivos, ela é destinada ao processo de engorda ou comercializada como fêmea de reposição para outros produtores. O foco aqui é quando ela é destinada à reprodução, cujo peso corporal alvo no início da temporada de monta ou inseminação, deve alcançar 60% ou 65% do peso adulto potencial. Portanto, conhecendo o peso alvo (vaca adulta de 450 kg = novilha ao início do acasalamento com 270-292 kg), é possível programar o ganho de peso na recria e, com isso, escolher a estratégia alimentar, sempre respeitando aspectos técnicos, operacionais e econômicos.

A recria dos machos visa entregá-los para um sistema de terminação com o maior desenvolvimento e peso possível. Aqui estamos tratando daqueles machos que não serão utilizados como reprodutores, mas, muitas vezes, o sistema de recria aplicado aos machos castrados também pode ser utilizado na produção de tourinhos. Portanto, quanto mais pesados os novilhos entregues à engorda, menor será o ciclo produtivo do sistema. Além disso, quanto mais próximo do final da fase de crescimento o animal sair da recria, maior será a deposição de gordura nos músculos e o acabamento mais homogêneo.

Tabela 1 – Níveis de suplementação de silagem de milho e sorgo e seus respectivos ganhos de peso

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Assim, na recria de fêmeas ou machos, o ganho de peso eficiente é a principal variável para o bom desenvolvimento do sistema. O ganho necessário para uma novilha de 14 ou 24 meses atingir o peso ideal para a fase reprodutiva vai depender do peso ao desmame e do seu objetivo na idade estabelecida. Para os machos, a lógica é a mesma. Para entendermos melhor a relação entre ganho de peso e o tempo de recria, iremos considerar que o peso ao desmame dos bezerros foi de 180 kg e que suas mães pesavam 450 kg. Nessas condições, uma novilha que será acasalada aos 14 meses terá apenas 150 dias para ganhar 90 kg e atingir o peso mínimo (270 kg) no momento da seleção. Portanto, o ganho de peso médio deve ser de 0,600 kg/dia. Já a novilha que será acasalada aos 24 meses disporá de 510 dias para ganhar os mesmos 90 kg, então, por dia, serão necessários ganhos diários de 0,176 kg. Nas duas situações, os ganhos de peso diários são bem distintos devido às diferentes durações da fase de recria, porém, sem a devida atenção, até os menores ganhos médios diários podem se tornar complexos, pois existem os efeitos das estações do ano, muitas vezes com escassez de alimento, adversidades climáticas e até mesmo eventos sanitários que possam restringir o crescimento dos animais.

No caso dos machos, vamos considerar os exemplos anteriores de ganhos na recria das fêmeas de 0,600 kg/dia ou 0,176 kg/dia. Um aumento de peso na ordem de 0,600 kg/dia durante 150 dias, para um bezerro desmamado com 180 kg, resultará num novilho em torno de 12 meses com 270 kg no início da engorda. Como na fase de engorda o animal precisa atingir seu peso de abate (450 kg nesse exemplo), o produtor poderá tomar duas decisões: 1) abate aos 18 meses; ou 2) abate aos 24 meses. Na primeira opção, o produtor terá de garantir ganhos aos animais de 1,00 kg/dia, enquanto que, na segunda, o ganho deverá ser de 0,500 kg/ dia. Apesar da diferença entre os ganhos futuros, ambos são factíveis, mas dependem de diferentes sistemas de engorda. Já com ganhos de 0,176 kg/dia na recria, o abate aos 18 meses se torna muito difícil e, às vezes, oneroso demais para o sistema, pois os ganhos diários na engorda deverão ser de 1,320 kg/dia, uma vez que o novilho iniciaria a terminação com peso muito leve (206 kg). Porém, aos 24 meses, os ganhos precisariam ser de 0,660 kg/dia, sendo mais fácil de atingir.

Apesar da recria ser apenas uma fase preparatória para as demais, é possível percebermos que ela desempenha um papel fundamental em todo o planejamento nos sistemas de produção de bovinos de corte. Em virtude das diferentes situações de produção, é frequente que a recria apresente problemas de eficiência, pois, nessa fase, as exigências nutricionais dos animais em crescimento é elevada, particularmente, no que diz respeito à proteína, acrescido a isso, que a capacidade digestiva dessa categoria ainda não está plenamente desenvolvida. Isso limita muito à ingestão de forragens de qualidade inferior – pouco digestíveis. No Brasil, na pecuária mantida a pasto, no período da seca ou no inverno (região Sul), existe, naturalmente, uma escassez de pastagem de qualidade, restringindo os ganhos de pesos necessários e, para conseguir contornar esse problema, muitas vezes, se torna necessário o fornecimento de suplementos alimentares aos animais, como, por exemplo, a silagem.

Suplementação com silagem

A silagem é um volumoso que pode ser disponibilizado na forma de suplemento ou mesmo como alimento principal na dieta de bovinos de corte. O milho e o sorgo são plantas que fornecem alta energia na forma de silagem de grão úmido ou silagem da planta inteira, além de apresentar grande volume de produção por área, possibilitar longo período de armazenagem, ser de fácil oferta e ter ampla aceitação entre os bovinos devido à sua alta palatabilidade. Além disso, a principal vantagem é a grande disponibilidade de energia que proporciona aos bovinos ao ser digerida, o que permite altos ganhos de peso diários.

Como qualquer outro alimento, o volume consumido por dia define o quanto o animal pode ganhar de peso. Portanto, como o nosso foco é abordar os ganhos da suplementação com silagem, discutiremos a oferta de 1% de silagem na alimentação de novilhas e novilhos na fase de recria. Antes de tudo, é importante lembrar que o desempenho de ganho de peso dos bovinos com a ingestão de silagem depende da qualidade e dos cuidados com o fornecimento do alimento, como já abordado por nossa equipe em outras edições da Revista AG, na seção Feno & Silagem.

São comuns os sistemas de produção em que, no outono, no inverno ou na estação das secas, os animais da recria apenas mantêm ou até mesmo perdem peso devido à baixa qualidade de forragem que recebem. No entanto, essa realidade pode ser facilmente modificada com o uso da adição de 1% de silagem de milho ou sorgo. Vamos utilizar o exemplo anterior, em que, do desmame (180 kg) até o final da recria, a novilha ou o novilho precisa ganhar 0,600 kg por dia para atingir 270 kg, mas estão recebendo uma alimentação apenas para manter o peso vivo. A partir dessas informações, sabemos que, ao longo dos 150 dias de recria, o peso médio dos animais será de 225 kg, pois é a média entre o peso de entrada e saída. Dito isso, apresentamos as possibilidades do uso de silagem com 1% do peso vivo – média de oferta de 2,25 kg de matéria seca no período – e seus respectivos ganhos médios diários: milho grão úmido = 0,455 kg; milho planta inteira = 0,316 kg; sorgo grão úmido = 0,393 kg; e sorgo planta inteira = 0,310 kg. Na Tabela 1 é possível observar outros níveis de suplementação e ganhos de peso.

É possível perceber que a silagem de milho ou sorgo é uma excelente alternativa para períodos de alimentos de baixa qualidade nutricional. Pois, mesmo que nesse exemplo os índices desejados não tenham sido atingidos, é preciso lembrar que foi calculado apenas o fornecimento de 1% de peso vivo de silagem, e, em todos os casos, houve mais da metade do ganho esperado. Então, se aumentarmos a proporção de silagem seria possível atingir os índices desejados? A resposta é não, porque, apesar da silagem ser uma ótima opção, ela não é nutricionalmente completa, assim como os outros alimentos alimentos. Então, mesmo com o fornecimento de volumes diários maiores aos animais, ainda assim é necessário um suplemento proteico para suprir a necessidade de proteínas dessa fase de desenvolvimento e garantir o crescimento adequado.

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Para finalizar, as potencialidades da suplementação com silagem, vamos lembrar da novilha que, para acasalar aos 24 meses, precisaria de um ganho de 0,176 kg/dia. Caso a decisão fosse de suplementá-la com 1% de silagem de sorgo planta inteira (ganho de 0,310 kg/ dia), ela estaria apta à reprodução próximo aos 18 meses de idade, criando mais uma possibilidade para o sistema de cria.

Poderíamos continuar discutindo diversas formas e situações em que o uso da silagem de milho e sorgo proporciona vantagem ao sistema de bovinos de corte. Porém nossa intenção é que fique claro que, para cada sistema, condição e objetivo, há uma possibilidade diferente do uso da silagem como suplementação. Portanto, é necessário que o produtor conheça muito bem sua realidade e trabalhe de forma planejada para usufruir ao máximo de uma ferramenta versátil como a silagem.

Produção de silagem

Depois de discutirmos a importância dos ganhos de peso dos animais de recria e as possibilidades do uso de silagens, é pertinente falarmos sobre o planejamento da produção da silagem que será utilizada. Usando o exemplo anterior, em que um animal tem peso médio de 225 kg no período de suplementação, ao ganhar 0,600 kg por dia, calcularemos a produção necessária para um rebanho de 100 cabeças durante 150 dias recebendo 1% do peso vivo em silagem. Reforçamos que, nesse exemplo, a silagem é representada como suplemento alimentar e não permitirá o ganho diário de 0,600 kg com apenas 1% de oferta, havendo necessidade de outros alimentos. Com essas informações, sabe-se que o volume total de matéria seca de silagem a ser fornecida aos animais é de 33.750 kg, enquanto que o volume de matéria verde de silagem grão úmido será 48.150 kg, e de planta inteira, 112.500 kg.

Como já abordado em outros textos nesta seção, é muito importante que as perdas no processo de produção, ensilagem e oferta sejam contabilizadas. Portanto, para que o volume de silagem produzida satisfaça as necessidades de alimentação dos animais, consideraremos uma perda média de 12,5%. Com isso, o novo volume para produção de matéria seca será de 37.969 kg, e de matéria verde grão úmido e planta inteira, de 54.169 kg e de 126.563 kg, respectivamente.

Após o conhecimento do total de silagem a ser produzida, agora basta dimensionar a área que servirá para o plantio das cultivares. Para facilitar nosso exemplo, usaremos como produção por hectare oito toneladas de silagem grão úmido e 50 toneladas de planta inteira. Dessa forma, o total de área a ser cultivada com silagem de milho e sorgo grão úmido para alimentar 100 animais com 225 kg de média por 150 dias será de 6,77 hectares, enquanto para cultivar silagem de milho e sorgo planta inteira será de 2,3 hectares.

Para finalizar, lembramos que, quando se deseja obter um sistema de produção de bovinos de corte com ciclo curto, deve-se pensar em reduzir a idade ao primeiro parto e idade ao abate. Porém, para atingir esse propósito, é preciso atender às necessidades nutricionais de categorias em crescimento na fase de recria que são naturalmente muito exigentes. Portanto, caso as silagens de milho ou sorgo sejam escolhidas para atingir esse objetivo, basta utilizar de forma adequada e, quando preciso, incluir suplementação proteica para atingir os ganhos de peso necessários.

*Amir é veterinário, MSc. e doutorando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS **Yago é zootecnista e mestrando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ***Vanessa é graduanda em Veterinária e PIBIC/CNPq – NESPro/UFRGS ****Júlio Barcellos é veterinário e doutor NESPro/UFRGS – [email protected]