Escolha do Leitor

Creep-feeding

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Estratégia para aumentar o peso dos bezerros no desmame

Marcela Kuczynski da Rocha*, Odilene de Souza Teixeira**, Julia Abud Lima***, Júlio Barcellos****

O creep-feeding é a suplementação alimentar livre e exclusiva para os bezerros lactantes, restringindo o acesso da vaca ao cocho. Essa prática de manejo visa fornecer fonte suplementar de nutrientes, complementando o leite materno, com objetivo de produzir bezerros mais pesados na desmama. Isso ocorre devido ao fato de que a quantidade de leite produzido, com o avanço da curva de lactação, ou por deficiência alimentar da vaca, não é suficiente para altos desempenhos do bezerro. Assim, o leite materno consegue suprir as exigências nutricionais do bezerro até 90 dias de idade. A partir dessa fase, o bezerro necessita de alimento adicional, com provisão de energia e proteína adequada, geralmente oriundo do pasto, quando inicia a transição para ruminante.

No sistema de cria, pode-se destacar alguns fatores cruciais para os bezerros expressarem o máximo de seu potencial de crescimento, como a disponibilidade e a qualidade do pasto onde permanecem as matrizes, a produção de leite, além de raça, sexo e idade à desmama do bezerro. Porém, em sistemas exclusivamente a pasto, como a maioria dos sistemas de criação no Brasil, torna-se um desafio aliar as condições ideais para maximizar o desempenho dos bezerros. Nesse sentido, o creep-feeding para o bezerro no período pré-desmama potencializa o crescimento muscular, além de proporcionar maior evolução de peso e ganhos durante a recria, contribuindo para a intensificação do sistema produtivo.

De um modo geral, nos sistemas de cria a pasto, a partir do terceiro mês de lactação, a contribuição do leite para o crescimento do bezerro é em torno de 60%. Portanto, esse déficit de 40% dificilmente é neutralizado pelo pasto, pois a capacidade digestiva e de aproveitamento da forragem ainda é limitada. Portanto, o fornecimento de ração exclusiva ao bezerro (creep-feeding) contribui de forma positiva para objetivos de maior peso no desmame. Portanto, essa é uma tecnologia que pode contribuir muito para o aumento da produtividade dos sistemas de cria no Brasil, cujas características ainda são marcadas por baixos pesos da bezerrada no desmame. Evidências experimentais e de sistemas de produção comerciais têm comprovado ganhos adicionais de até 30% no desenvolvimento e no crescimento dos bezerros. Esses benefícios dependem do nível alimentar em que o par vaca:bezerro está submetido. Em regra geral, as melhores respostas ocorrem em níveis de produção nos quais a vaca tem baixa produção de leite ou em que a pastagem é limitada em qualidade e quantidade.

Gráfico 1 - Relação entre peso e custo de produção do bezerro

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Em termos econômicos, a adição da suplementação para os bezerros não sobrecarrega o sistema de produção, já que o consumo de concentrado é relativamente baixo, pois a oferta do alimento é decorrente do peso corporal dos bezerros. Por exemplo, ao desmamar um bezerro com 180 kg, sem utilização de creep, e um bezerro com 234 kg com creep, a um custo de venda do bezerro de R$ 6,00 por kg de peso vivo, o retorno do bezerro advindo de sistema de creep-feeding será de R$ 324. No entanto, deve-se adicionar o custo com a ração, sendo o consumo total estimado de 150 kg por animal. Dessa forma, a decisão da utilização do creep deve passar por um planejamento estratégico, para que a técnica apresente uma economicidade relevante frente ao sistema produtivo.

Além do retorno direto, o maior peso ao desmame pode antecipar as idades ao acasalamento e/ou abate. Nesse sentido, uma maneira de reduzir o custo em uma propriedade rural é intensificando o sistema produtivo com incremento na produtividade por área. Pois, quanto maior o peso ao desmame, menor será o custo por quilograma do bezerro produzido. Além da redução do custo, um animal desmamado com 240 kg atinge a condição para a atividade reprodutiva mais cedo (60% a 65% do peso adulto) e mais cedo vai atingir condição de abate (75% do peso adulto), por exemplo. Além disso, durante a fase de crescimento e desenvolvimento muscular, os animais apresentam melhor eficiência alimentar, gastando menos alimento por kg de peso ganho.

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Além de incrementar a produtividade, a técnica do creep-feeding possibilita uma redução no estresse durante o desmame, pois estarão habituados ao consumo de alimentos concentrados ao pé da mãe, diminuindo a dependência da matriz para se alimentar de forma exclusiva. Além disso, nesse momento, os bezerros terão o ambiente ruminal mais desenvolvido e adaptado para degradar os alimentos concentrados, portanto, mais adaptados para uma suplementação no pós-desmame. Existe um benefício indireto do creep-feeding relacionado à diminuição do número de mamadas na vaca, a qual minimiza os reflexos da mamada, podendo auxiliar no reestabelecimento da função reprodutiva. Adicionalmente, também pode contribuir para a recuperação do escore corporal da vaca, portanto, contribuindo para maior prenhez. Nesse contexto, a suplementação de bezerros ao pé da matriz consegue atingir os dois principais fatores que influenciam na produtividade do rebanho de cria: a taxa de prenhez e o peso à desmama dos bezerros.

Estratégia alimentar

O início da suplementação, por meio da técnica de creep-feeding, depende da idade que se pretende desmamar os bezerros. Quando a intenção é 180 dias de idade, inicia-se a suplementação a partir dos 60 dias, e, quando se pretende efetuar outra estratégia de desmama, como o desmame precoce, a suplementação deverá ter início logo após o nascimento dos bezerros. O sucesso depende do consumo do suplemento fornecido, e isso está relacionado com a atratividade da ração e com o tipo de instalação. O suplemento concentrado é o mais recomendado (rações comerciais ou elaborado na fazenda), devendo ser, em primeiro lugar, palatável e atraente (presença de bons aromas), de preferência peletizado, com boa digestibilidade, rico em proteína (18% a 22%) e energia (NDT = 75% a 80%). O fornecimento é à vontade, e o consumo, nos primeiros 30 dias, deve ser em torno de 0,500 kg/ cabeça/dia, podendo alcançar até 1,2 kg quando o bezerro está com, aproximadamente, 100-120 dias de idade. Um alimento alternativo, que não é classificado como ração, é o suplemento proteico- -energético, da linha do sal mineral, o qual pode produzir bons ganhos adicionais. Contudo, o seu consumo é inferior ao das rações especializadas, pois contém maiores níveis de cloreto de sódio.

Instalações e manejo

As instalações do creep-feeding devem ser planejadas em um local de fácil acesso pelas vacas de cria, como o local de descanso dos animais, sombras, cochos de sal e fonte de água. O dimensionamento de acesso ao cocho do creep deve ser efetuado de acordo com o número de bezerros, respeitando a área cercada de 0,3 metros quadrados por animal e de 10 centímetros lineares/ bezerro. O acesso a essa área é exclusivo do bezerro, portanto a cerca deve ter aberturas que permitam o seu ingresso, evitando a entrada da vaca. Além disso, essas aberturas devem ter um sistema de regulagem, pois, à medida que os bezerros vão crescendo, pode ser necessário algum ajuste na largura ou na altura. Dentro do cercado externo, devem estar dispostos os cochos cobertos, confeccionados com altura de 40 cm do solo.

Para que os bezerros aprendam a entrar no cercado, o lote das matrizes com cria ao pé deverá ser aproximado das instalações do creep-feeding diariamente, e, se possível, manter os animais fechados por um ou dois dias para que aprendam a consumir o alimento. Além disso, também se pode fornecer aos bezerros o alimento que será usado no creep, por ocasião de alguma prática com o gado no centro de manejo. Para isso, aparta-se os bezerros das vacas e coloca-se num cocho a ração junto com feno para que eles comecem a experimentar. Isso auxilia a chegada no cocho quando voltarem para o pasto.

A suplementação do bezerro durante a fase de lactação ainda é pouco utilizada no Brasil, mas iniciativas dessa natureza têm demonstrado o grande potencial para melhorar a produtividade na cria. Essa é a fase de maior eficiência alimentar do bovino de corte e que melhor potencializa os resultados produtivos e econômicos. Portanto, introduzir técnicas como o creep-feeding, associadas a outras práticas de manejo já consolidadas são tarefas básicas que o pecuarista precisa executar. Uma nova fase de valorização da cria se avizinha nos próximos três anos. A pecuária brasileira deve aproveitar essa oportunidade.

* Marcela é médica-veterinária e doutoranda do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS **Odilene é zootecnista e doutoranda do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ***Julia é graduanda em Medicina Veterinária, BIC-CNPq – NESPro/UFRGS ****Júlio Barcellos é médico-veterinário e doutor – NESPro/UFRGS [email protected]

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