Caprinovicultura

Incentivo para o crescimento

Caprinovicultura

Programa desenvolvido em Santa Catarina desde 2016 presta assistência a criadores de ovinos e promove melhorias no desempenho das propriedades.

Denise Saueressig
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A organização tão necessária para um maior desenvolvimento da ovinocultura no Brasil pode iniciar com a adoção de práticas simples nas propriedades. Em Santa Catarina, o Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) em Ovinocultura de Corte vem auxiliando produtores que buscam melhoria dos resultados obtidos com seus rebanhos.

Promovida desde 2016 pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Faesc) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC), a iniciativa inclui atendimento gratuito a 180 produtores divididos em seis grupos liderados pelos sindicatos rurais de Canoinhas, Fraiburgo, Mafra, Ponte Alta, Videira e São Bento do Sul. Para ilustrar a importância da ação junto aos criadores, o coordenador do programa e vice-presidente de Finanças da Faesc, Antônio Marcos Pagani de Souza, cita números que impactam diretamente nas contas dos criadores.

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Em diferentes regiões do estado, 180 criadores são atendidos gratuitamente. Entre os resultados observados nas propriedades está a redução dos custos de produção

“Observamos, no grupo de Mafra, um aumento na taxa de prenhez de 96%, em 2017, para 98% em 2018. Outro resultado importante foi com relação ao custo de produção, que reduziu de R$ 5,29 para R$ 4,85 por quilo do animal”, enumera.

O trabalho realizado nas propriedades se inicia com uma conversa entre os produtores e os técnicos que são responsáveis pelo atendimento. É o momento de analisar o fator gerencial e as planilhas que indicam despesas e receitas. “Partimos da avaliação da viabilidade e do ponto de equilíbrio econômico da atividade para examinarmos se os investimentos estão retornando para o criador”, explica o médico-veterinário Cesar Henrique Peschel Júnior, técnico de campo do programa ATeG em Mafra, na região Norte do estado.

Em uma segunda etapa, são considerados aspectos mais práticos, como manejos nutricional, reprodutivo e sanitário do rebanho. “Notamos que muitos produtores têm problemas relacionados à alimentação dos animais, que é justamente a base de uma pecuária sustentável”, detalha o técnico.

A partir do cultivo de forrageiras de qualidade e, consequentemente, de uma base alimentar sólida, outros gargalos, como a ocorrência de verminoses, passam a ser administrados com maior facilidade pela melhoria do estado geral de saúde dos animais. “Essa situação evoluiu bastante, e uma boa parte dos produtores, hoje, têm pastagens implantadas, alguns até com irrigação”, conta Peschel Júnior.

Outro desafio percebido entre os criadores é a escassez de anotações de informações relacionadas à gestão da propriedade. “Quando puxamos o fluxo de caixa, concluímos, por exemplo, um gasto importante com mão de obra. E, aí, podemos dar como sugestão: será que não é indicado aumentar o número de animais para buscar o equilíbrio financeiro?”, exemplifica o veterinário.

Avanços evidentes

Em 2016, quando o programa teve início, era comum perceber, entre as principais despesas das propriedades, gastos com medicação e alimentação concentrada, revela o técnico, que atende um total de 43 produtores em Mafra e Itaiópolis. Hoje, no entanto, esses dois itens não estão no topo da lista dos custos mais importantes. “Isso demonstra que o manejo está sendo bem feito. A rentabilidade por hectare mais do que duplicou, mesmo com variação entre os produtores. Alguns tinham custo muito próximo ao valor de venda, e, agora, esse cenário mudou. A ovinocultura passou a ser altamente rentável e ocupa o lugar de atividade principal ou, no máximo, secundária nessas propriedades”, destaca.

O rebanho de matrizes dos 30 primeiros ovinocultores assistidos por Peschel desde 2016 passou de 1.440 naquele ano para 2.100 animais em 2018. Os criadores que procuram pela atividade de qualificação trabalham com a produção de cordeiros para o abate. Por meio de núcleos regionais da Associação Catarinense de Ovinos (Acco), a comercialização é realizada, na maior parte das vezes, de forma conjunta, o que ajuda no escoamento da produção. “São pequenos criadores, com uma média de 65 matrizes por propriedade, o que faz com que associações e cooperativas tenham grande valor para o sucesso das negociações”, constata o técnico.

Em Santa Catarina, a demanda pela carne ovina é grande, e o preço do quilo do cordeiro vivo está entre R$ 8 e R$ 8,50. A ovinocultura está em crescimento no estado e, assim como ocorre em todas as regiões do Brasil, carece de organização para um maior desenvolvimento. “Precisamos continuar trabalhando pela profissionalização do produtor e pela formalização dos abates”, salienta Peschel.

Investimento

Um dos produtores atendidos em Mafra é Ernani Kvitschal, que tem histórico de dez anos dedicados à ovinocultura. Ele participa das ações do ATeG desde agosto de 2016 e conta que aperfeiçoou as instalações, o manejo, o trato sanitário e a alimentação dos animais. “Fizemos o loteamento adequado, implantamos pastagens perenes, fizemos uma adubação equilibrada e investimos em irrigação para termos a garantia da produção sem nos preocuparmos com o clima”, ressalta.

Em dois anos participando do programa, o criador revela que conquistou resultados expressivos. O custo do quilo do cordeiro vivo, que, anteriormente, ficava entre R$ 6 e R$ 7, agora, baixou para menos de R$ 5. “Isso foi possível com gastos menores em medicação e em suplementação”, assinala.

Atualmente com 60 matrizes em produção, Kvitschal diz que pretende expandir o número para 70 ou 80 nos próximos anos. “Já selecionamos novas borregas e avaliamos o descarte de fêmeas que não são tão produtivas. Queremos crescer gradativamente, com os pés no chão e sem euforia”, acrescenta. O trabalho também continua na organização da propriedade, com aumento da área irrigada e melhorias nas estruturas físicas. Além da ovinocultura, o produtor tem implantados 700 pés de uva, dos quais extrai suco e vinho, e cultiva 14 hectares com soja e milho. No período do inverno, essa área de grãos é utilizada para o plantio de pastagens, num sistema de integração lavoura-pecuária.