Sanidade

Mosca-dos-estábulos

Estado de São Paulo deve seguir exemplo do Mato Grosso do Sul para controlar infestação

Alessandro Pelegrine Minho*

A intensificação dos sistemas de produção, tanto para a produção de carne quanto para a de leite, aumentou a importância e a prevalência das doenças parasitárias – em particular, dos ectoparasitos –, acarretando prejuízos bilionários à pecuária. Infelizmente, a produção de açúcar e álcool não está livre dessa praga, uma vez que essa cadeia produtiva está relacionada com o aumento dos surtos de moscas hematófagas, após a proibição da queima das plantações de cana-de-açúcar para colheita, agravada pela prática da fertirrigação com vinhaça.

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O pesquisador Alessandro Minho reforça que a resposta para o controle dos surtos está na prevenção

A Stomoxys calcitrans, também conhecida como mosca-dos-estábulos, causa danos diretos na produtividade, com redução de até 50% na produção leiteira e 20% na de carne. Uma mesma mosca pode picar diferentes animais em curtos períodos de tempo, aumentando a chance de veiculação de doenças infecciosas no rebanho. Os potenciais prejuízos aos rebanhos nacionais chegam a US$ 335,5 milhões, entretanto, as perdas do agronegócio nacional são maiores, pois devemos considerar, ainda, os gastos das usinas sucroalcooleiras com o controle de surtos.

Machos e fêmeas alimentam-se de sangue e vivem, em média, duas a quatro semanas. Após a cópula, a fêmea deposita ovos (de 25 a 50/dia), preferencialmente, em matéria vegetal em fermentação. A umidade é um fator crucial, por esse fato as poças de vinhaça, os canais abertos de fertirrigação e as áreas com drenagem inadequada em confinamentos são importantes no aumento populacional da espécie.

A Resolução nº 38, publicada em julho de 2017, e a portaria que a regulamentou e criou o Programa de Controle e Prevenção de Surtos da Mosca-dos-Estábulos no Estado de São Paulo, caracteriza surto por: (i) propriedades pecuárias com número superior a dez moscas por pata/animal, e/ou na existência de monitoramento com armadilhas, identificação de mais de 270 moscas/armadilha/semana; (ii) em usinas sucroalcooleiras o relato de, pelo menos, 70 moscas/armadilha/semana.

Como a resistência aos produtos comerciais para controle de moscas é mais recente, propostas de projetos da Embrapa, unindo as unidades de pesquisa de São Paulo (Embrapa Pecuária Sudeste) e Mato Grosso do Sul (Embrapa Gado de Corte), preveem o desenvolvimento de testes moleculares para detecção de genes (alelos) relacionados a essa característica, assim como um levantamento de prevalência desses marcadores nas populações de moscas nos estados de MS e SP, ou seja, verificar se os piretroides ainda são uma boa alternativa para prevenção e controle.

A utilização exclusiva de controle químico tem várias restrições. As moscas- dos-estábulos passam pouco tempo de vida nos animais, o uso indiscriminado causa danos ambientais e risco de resíduos na carne e no leite, além de selecionar para resistência.

Linhas de pesquisa na Embrapa, em conjunto com universidades e parceiros da iniciativa privada, buscam avaliar uma miríade de substâncias, micro-organismos, armadilhas e equipamentos com potencial pesticida.

No MS, foi realizado, pela Embrapa Gado de Corte e parceiros, o 9º Workshop sobre moscas-dos-estábulos, no qual dez anos de prevenção de surtos foram discutidos. É isso que pretendemos implantar em SP, com o apoio da Embrapa Pecuária Sudeste. Além do papel crucial da pesquisa científica, a articulação entre instituições governamentais, usinas sucroalcooleiras e pecuaristas é fundamental.

*Alessandro Minho é médico-veterinário e pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos/SP)