Na Varanda

Tinder – Uma ferramenta para a união dos pecuaristas?

Na

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

N ão sabe o que é Tinder? Não importa. Eu também não sabia. E, para descobrir, sugiro consultar os filhos ou netos adolescentes, pois são eles que gostam dessas novidades tecnológicas para se divertir. Podemos encontrar uma definição mais técnica desse assunto no Google: um aplicativo de relacionamento que já conseguiu promover 20 milhões de encontros no Brasil – ou seja, quatro vezes mais do que o número total dos produtores rurais. Trata-se de promover encontros geolocalizados. Segue o convite padrão que consta na internet: “Conheça pessoas novas em busca de relacionamento sério. Faça o cadastro grátis!”. Provavelmente, trata-se de encontrar parceiros para a vida. Seja lá o que isso significa.

Mas o que isso tem a ver com o nosso boi? Recentemente, recebi uma mensagem no WhatsApp informando o seguinte: “Tinder para o boi é lançado na Inglaterra e já conta com 42 mil fazendas!”. Fiquei curioso e fucei para ver o que seria essa plataforma de namoro para vacas. Até a agência internacional de notícias econômicas Bloomberg comentou que o Tunder (o nome que foi criado para os bovinos para evitar confusão com o Tinder humano) serve para promover moo love entre touros e vacas interessados em se conhecer. Já que o gado anglo-saxônico não deve ser muito mais inteligente que os nossos, suponho que o mecanismo de busca otimizada de parceiros para o cruzamento seja manobrado por humanos – no caso, provavelmente pelo filho ou pela filha do produtor rural. Ao mexer com o mouse na tela, aparecem fotos, informações biográficas, peso, idade e localização da fazenda ou do pretendente. De repente, o pecuarista pode escolher entre milhares de opções para sofisticar seu processo de melhoramento genético. Tenho certeza de que, em breve, teremos algo semelhante no Brasil, que possui 20 vezes mais bovinos que a Inglaterra. E dizem que já existe, no País, um Tinder para pets. Isso é progresso!

Pensando um pouco mais no assunto, vejo uma perspectiva interessante além da facilitação de namoros entre animais. A maioria de nós já usa WhatsApp, Telegram, Facebook ou Instagram, inclusive para fazer circular informações profissionais. No entanto, uma plataforma por enquanto exclusivamente técnica, como o caso inglês, pode abrir outras frentes importantes para o nosso setor. Uma vez conectados, existe a possibilidade fácil e gratuita para ampliar a comunicação além do tema específico da cria.

Dentro de pouco tempo, teremos acesso a filtros de mensagens que permitirão identificar os diversos tipos temáticos e separar os mais úteis dos basicamente fúteis. Em uma próxima conversa, iremos refletir sobre como gerenciar melhor esse tsunami crescente de informações.

No entanto, uma vez conectados e escolhidas as redes construtivas de troca de ideias, teremos uma ferramenta eficiente para promover o alinhamento e melhorar o ambiente do negócio para a agropecuária. Há décadas, batemos na mesma tecla: “O produtor não se une”. Por isso, as forças antes e depois da porteira conseguem auferir lucros melhores do que o homem que trabalha sozinho no campo. Mas, com um aplicativo dessa natureza, teremos, finalmente, uma chance concreta para juntar vontade, pensamentos e ação de milhares de colegas para criar uma plataforma representativa dos diversos segmentos do agro e da pecuária.

Já temos as cooperativas e os sindicatos, e, também, contamos com as associações de raças. No entanto, uma nova plataforma on-line, instantânea, ampla e gratuita pode reforçar o movimento para uma maior união dos produtores. Esses poderiam ser pools de compra ou venda de animais ou insumos, formação de grupos locais para promover mecanismos de treinamento contínuo para as equipes das fazendas cada vez mais tecnificadas ou, por exemplo, condomínios financeiros ou de Uber para uso temporário de equipamentos e serviços.

Ou seja, além de melhorar a vida das vacas e dos touros, poderíamos usar a ferramenta Tunder para construir novas oportunidades de aproximar e, como consequência, unir os pecuaristas para fortalecerem sua voz e serem ouvidos. Mas, antes de embarcar numa solução importada da terra das raças nórdicas, vamos consultar os filhos ou netos para recebermos uma aula sobre o Tinder humano.

Mesmo se tudo isso não servir para nada concreto na sua fazenda, podemos usar o assunto para mostrar para a próxima geração que a tecnologia – e, com ela, as novas perspectivas de gestão e de ganhar dinheiro – chegou no campo. Isso nos proporciona mais um motivo para pensar sobre como construir uma gestão compartilhada na fazenda. Nas conversas após palestras, sinto que, cada vez mais, os jovens estão enxergando que o campo urbanizado (equipado com as principais vantagens das cidades próximas) representa uma das melhores opções para carreiras profissionais e empreendedoras que a Geração Y pode encontrar no mercado. Então: Tinder e Tunder para todos!