Genômica

A genômica e o mercado internacional de genética bovina

Genômica

JOSÉ FERNANDO GARCIA Médico-veterinário, professor, pesquisador e consultor (UNESP e AgroPartners) [email protected]

Como pesquisador e professor, passei os meus últimos 30 anos tentando desenvolver e aplicar biotecnologias para o aumento da produtividade na pecuária. Passei pelas etapas da biotecnologia reprodutiva, da biologia molecular e, mais precisamente, nos últimos dez anos, da genômica.

Aprendi muito nesses anos e ensinei um outro tanto, tendo essa experiência me permitido entender melhor o intrincado mundo da genética bovina, de seus processos de melhoramento e disseminação. Hoje em dia, é fácil mapear a cadeia que começa nos criadores de bovinos de genética selecionada, passa pelas empresas de multiplicação (centrais de inseminação artificial e laboratórios de fertilização in vitro) e termina nos rebanhos multiplicadores comerciais.

Há que se destacar a fundamental importância da subcadeia dos insumos (medicamentos, vacinas, hormônios, nutrição, manejo, diagnósticos, receptoras, avaliações genéticas, ultrassonografia, escores visuais etc.) e também da subsequente, que começa quando o bovino terminado ou o leite produzido deixam a fazenda, e que engloba toda a força logística e industrial frigorífica e dos laticínios, respectivamente

O Brasil fez muitos experimentos práticos com a tentativa de introduzir diversas fontes genéticas ao longo dos últimos 100 anos. Ao que tudo indica, no que diz respeito aos bovinos de corte e leite, parece que o País, finalmente, encontrou as melhores combinações raciais para o enfrentamento do ambiente multifacetado de um país continental e de clara desigualdade quanto ao acesso a tecnologias agropecuárias.

Se, do lado da produção intensiva de leite, as raças leiteiras Holandesa e Jersey são opções naturais, nas situações menos intensificadas tecnicamente, o Girolando assumiu papel de destaque permanente, o qual vem sendo seguido por outras fórmulas de cruzamentos taurinos x zebuínos. No caso da pecuária de corte, o blend entre raças taurinas e zebuínas também parece ter encontrado seu máximo resultado. Raças compostas, como Braford, Brangus e Senepol, assumiram um papel importante na disseminação de genética taurina de qualidade em zonas tropicais, onde animais puros não teriam chance. Tudo isso nos ventres indiscutíveis da raça Nelore e suas irmãs zebuínas (em especial, Brahman e Guzerá). Existem outras opções interessantes de raças de corte que também são utilizadas para conferir detalhes importantes na formação de um animal que atenda ao público da atualidade demandante de produtos sofisticados (por exemplo, a raça de origem japonesa Wagyu).

Esse cenário atual tem despertado o interesse de outros países, que veem no Brasil não somente um celeiro de produtos commodity, mas também uma fonte de genética tropical(izada) para a produção de carne e leite. Naturalmente, devido à proximidade geográfica, os países latino-americanos têm sido os primeiros interessados nessa “nova” genética, o que tem determinado um aumento no fluxo de animais, embriões e sêmen nos últimos 20 anos para essas regiões. Agora, a África, o Oriente Médio e a Ásia demonstram cada vez mais interesse em nossa genética. Trata-se de um momento único e novo. O Brasil precisa se preparar para atender a essa demanda e, para isso, deve demonstrar sua proficiência na seleção dos melhores animais, e isso se faz com associações de criadores fortes e atuantes, uso de tecnologias inovadoras para a coleta de dados e sua transformação em informações úteis e interpretáveis internacionalmente. A genômica é uma das peças fundamentais desse jogo.

Trata-se de um grande desafio que precisa ser enfrentado com toda a inteligência possível. Cada real investido em tecnologia nesse âmbito tem o potencial de gerar dez vezes mais quando se trata do mercado internacional de genética. Porém isso não se faz com conversa, mas sim com informações técnicas relevantes e auditadas.

Precisamos que o governo brasileiro (por meio dos órgãos competentes do Mapa) seja o maior facilitador desse processo, com ajuda de um trabalho ativo na formulação e na validação de protocolos zoosanitários internacionais atualizados e funcionais, com cada um dos países que possam ter interesse em nossa genética.

Já é tempo de trabalharmos para construir essas pontes.