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Aprendizados na Bolívia

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Grupo Crea – Um modelo a ser seguido

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Olá, amigos do agro. Depois de um grande veranico no início de ano – que prejudicou o crescimento do capim e comprometeu o desenvolvimento da lavoura de grãos –, São Pedro mandou água com força na primeira quinzena de março, complicando colheitas e causando danos em muitas cidades. Na política, tivemos um golpe duro na Operação Lava Jato conferido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ao atribuir funções de combate à corrupção e à lavagem de dinheiro para o Supremo Tribunal Eleitoral (STE).

Falando em política, estou escrevendo esta coluna na Bolívia, país que vive um momento complicado em decorrência de um governo de esquerda que pensa ser o dono do país, mas que também traz exemplos de prosperidade muito interessantes por parte dos agropecuaristas locais. Por convite de meu amigo e sócio Eduardo Jordan, tive a oportunidade de participar de uma reunião do Crea (Consórcio Regional de Experimentação Agropecuária), uma metodologia fantástica criada na França e que vem crescendo muito na América do Sul, inicialmente adotada pela Argentina, depois pelo Uruguai e pela Bolívia, e, atualmente, entrando no Paraguai. O Crea consiste, basicamente, na troca de experiências entre grupos de produtores visando melhorar a eficiência produtiva e administrativa.

A dinâmica é caracterizada pela apresentação de informações fidedignas dos resultados da fazenda anfitriã, pela exposição de uma problemática da propriedade visitada e por propostas de soluções sugeridas pelos grupos de estudo formados pelos próprios participantes do projeto e, eventualmente, por técnicos ou produtores convidados.

Basicamente, a estrutura dos grupos Crea corresponde a um coordenador profissional contratado e um grupo formado por 11 a 20 produtores, que se organizam por alguma afinidade – desde confiança e amizade até regiões ou especialidades, como cria, confinamento ou agricultura – e se encontram mensalmente, alternando as propriedades anfitriãs.

As reuniões são bastante organizadas e contam com programação prévia e horários bem definidos. O encontro que participei foi na fazenda/empresa produtora de sementes de milho e do famoso sorgo gigante boliviano, que também atua na pecuária de ciclo completo.

Chegamos bem cedo para o café da manhã, e, às 8h30min, começou a reunião com a rodada de novidades, momento em que cada um dos participantes do grupo apresenta o que de mais significativo aconteceu no último mês. Na sequência, tivemos a apresentação atual da propriedade, seguida de uma volta com paradas pela fazenda – como um dia de campo. Após o almoço, dois grupos de trabalho foram formados e isolados por cerca de uma hora para estudar as soluções para a problemática apontada – sempre orientados pelo coordenador. Por fim, aconteceu a exposição das soluções elaboradas pelos dois grupos de estudo e as conclusões com participação de todos, depois mais um lanche e pegamos o caminho de volta a Santa Cruz.

A experiência foi muito boa. É muito importante ver a fazenda abrindo suas contas, falando de suas fortalezas e expondo suas fraquezas em busca de melhorar sua eficiência, com uma predisposição a ouvir as sugestões dos grupos de estudo, que discutem os temas e apresentam uma análise crítica sem filtro – ou seja, “na lata”.

O Crea não é uma disputa de egos, mas sim uma busca de melhorar os negócios. Depois dessa visita, saí convicto de que “o pior cego é aquele que não quer enxergar”, principalmente quando o capim do vizinho não só parece, mas é, de fato, bem mais verde.

É isso aí, vamos que vamos!