Caindo na Braquiária

Espora de Prata

Caindo

Inicia-se o ano, e “caímos na braquiária” a fim de conhecer projetos pecuários interessantes e, quem sabe, poder colaborar no campo da genética com algumas sugestões relativas a raças e touros a serem usados em cada sistema.

Dessa vez, estava acompanhado pelos veterinários Ademir Ribeiro e Ruiter de Sousa Franco, além do agrônomo Sidson Guerra, os quais prestam serviço, respectivamente, na área de nutrição, reprodução bovina e pastagens na região de Porto Velho, cidade banhada pelo majestoso Rio Madeira, tornando-se a capital de Rondônia em 1943. Programamos algumas visitas a fim de conhecer importantes fazendas assistidas por eles.

Tão logo saímos do aeroporto de Porto Velho, rumamos para Ariquemes, cidade que dista 200 quilômetros da capital sentido Sul do estado. Após um cochilo de alguns minutos nos braços de Morfeu, acordei enquanto passávamos por mais uma das diversas pisciculturas instaladas na região. De um lado, observava uma fazenda de peixes, e, do lado oposto, uma inimaginável (até poucos anos atrás) lavoura de soja.

A fazenda escolhida pelos técnicos para que pudesse conhecer foi a Espora de Prata, localizada no pequeno município de Rio Crespo, sendo de propriedade da família do Ademir, o qual implantou, há dois anos, o programa “touro zero”. O próprio nome denota o sistema reprodutivo do rebanho, ou seja, 100% das fêmeas são inseminadas através da IATF (inseminação artificial em tempo fixo), sendo a totalidade das novilhas ressincronizadas até duas vezes com sêmen de touros Angus americanos provados.

O sistema de cruzamento adotado pela Espora de Prata foi o terminal com três raças e tem como particularidade a reposição de fêmeas do rebanho. Buscando eficiência máxima, Ademir garante a reposição de matrizes comprando novilhas Nelore na região, inseminando-as com 320 kg de peso vivo. Sua decisão foi pautada pela alta disponibilidade de fêmeas Nelore no mercado rondoniense.

Assim que as novilhas F1 Angus – Nelore entram em reprodução, Ademir usa sêmen de Brangus nessas futuras matrizes, destinando 100% desses animais tricross para o abate.

No campo nutricional, a Espora de Prata vem ministrando ração aos bezerros à vontade desde o primeiro mês de vida no sistema de creep-feeding, além de adotar a castração dos machinhos já no momento do nasnascimento, procedimento raramente adotado pela classe pecuarista, já que existem trabalhos que demonstram que animais castrados consomem mais ração para ganhar o mesmo peso que os animais inteiros.

Outra particularidade do sistema nutricional adotado pelos consultores Ademir e Sidson foi a implementação de pequenos silos para ração de uso diário no creep-feeding, ou seja, cada creep possui seu próprio silo com capacidade de até três toneladas, o qual é usado para suprir a necessidade nutricional do seu respectivo lote de bezerros por alguns dias.

Vimos esses animais castrados desmamados com sete para oito meses, pesando mais de 300 kg, os quais entram em piquetões de braquiarinha (b. ruziziensis), permanecendo nestes com suplementação de ração na quantidade de 2% do peso vivo em cochos cobertos muito bem construídos com telha galvanizada e cochos com borrachão de usina. Dessa forma, os machos são abatidos com até 13 meses, pesando, na média, 17 @.

Mesmo sabendo dessa teoria, saí da Espora de Prata questionando-me sobre alguns princípios que regem a área, tais como a prática da castração ao nascimento, a qual pode ser um manejo adequado para fazendas que adotam o ciclo pecuário completo (cria, recria e engorda), minimizando a chance de machos inteiros F1 cobrirem irmãs. Outrossim, sabemos que a diferença de peso entre irmãos e irmãs F1 Angus até a desmama, por vezes, deixa a desejar. Tal realidade pode ser causada pela libido dos machos antes da desmama, os quais permanecem atrás de alguma vaca que esteja no cio durante boa parte do dia, diminuindo muito a ingestão de leite e forragem.

Devo, também, explorar com mais profundidade a influência da testosterona no crescimento antes dos 13 meses, pois, no sistema nutricional da Espora de Prata, todo animal é abatido antes dessa idade, podendo, nesse caso, influenciar muito pouco na diferença positiva do peso dos animais inteiros em relação aos castrados.

Visitas como essa servem para quebrar paradigmas, mostrando-me que a pecuária brasileira possui sistemas e realidades diversas, demandando bom senso aos nutricionistas e geneticistas, os quais devem trabalhar conjuntamente a fim de supri-los.

Alexandre Zadra - Zootecnista
[email protected]genexbrasil.com.br