Especial Avaliação Genética

Referência internacional

ANCP é uma das herdeiras naturais dos trabalhos pioneiros do nelorista Arnaldo Zancaner e do professor Warwick Kerr

Adilson Rodrigues [email protected]

Esta edição da Revista AG que o leitor tem em mãos é especial, não só pelo destacado conteúdo selecionado para seu deleite no mês de março, mas também pelo fato de estrear um novo espaço, no qual serão apresentados os principais programas de avaliação genética do Brasil. Tais programas gozam de um crescimento robusto nos últimos 20 anos e passaram a ser referência na valorização de preços na comercialização de touros.

O primeiro da série é a Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP). Como a própria nomenclatura sugere, é assim chamada em virtude de abrigar tanto membros do corpo acadêmico quanto pecuaristas, desde a sua origem. A história da ANCP confunde-se com o surgimento da avaliação genética no País.

Isso porque, nos idos de 1968, o geneticista de renome internacional, o professor doutor Warwick Kerr, então chefe do departamento de Genética da Universidade de São Paulo (USP), iniciava os trabalhos de análises estatísticas para Arnaldo Zancaner, criador pioneiro nas pesagens de animais Nelore PO para análise de Diferenças Esperadas na Progênie (DEP), uma experiência que ele havia conhecido nos Estados Unidos.

O maior fruto dessa parceria foi a criação, em 1988, do Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore (PMGRN), ainda hoje existente, mas rebatizado de Nelore Brasil; entretanto, alguns o conhecem pelo nome antigo. Em 1995, nasce, oficialmente, a ANCP, fundada pelos professores Raysildo Barbosa Lobo, estagiário na Fazenda Bonsucesso, de Zancaner, na década de 1980; Luís Bezerra; Francisco Duarte; e Cláudio Magnabosco, pesquisador da Embrapa Cerrados.

Esse era apenas o time de pesquisadores, os quais ainda formavam parceria com o fundadores-criadores Cláudio Sabino de Carvalho, velho conhecido pelas seleções das raças Nelore, Brahman e Guzerá; Newton Araújo e os herdeiros de Arnaldo Zancaner (Patrícia Zancaner e o marido Michel Caro, Adriana Zancaner e o cônjuge Flávio Aranha, além de Roberto Zancaner).

Em seus primeiros dez anos de existência (1988-1998), considerando o período de PMGRN, a Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores apresentou inovações, como a criação da fertilidade real, descoberta de grande impacto na seleção para fertilidade de fêmeas e amplamente utilizada no País. A ANCP também é o primeiro programa a aplicar o Modelo Animal nas avaliações genéticas, gerando DEPs para efeito direto e materno com base na progênie dos reprodutores.

É importante ressaltar a participação do professor doutor da USP José Bento Stermann Ferraz na descoberta dessas DEPs. No decênio em questão, o programa sagrou-se delegado da emissão do Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP), e, logo em seguida, lançava o teste de progênie oficial de sua avaliação genética – a Reprodução Programada –, cujos resultados são impressos anualmente em agosto, durante a realização da ExpoGenética, em Uberaba/MG.

Publicou as primeiras DEPs para habilidade materna no País, com inclusão dessas no índice de qualificação geral, que, na ANCP, chama-se Mérito Genético Total (MGT), indicador responsável por ranquear os touros no sumário. Em sua segunda década de existência, que abrange os anos de 1998 a 2007, a entidade incluiu em seu programa as DEPs de Idade ao Primeiro Parto (IPP), Peso ao Nascer (PN) e Produtividade Acumulada (PAC), que indica a produtividade da vaca em quilos de bezerros desmamados por cabeça/ano.

Inovou ao criar o ANCPWeb, sendo o primeiro programa de avaliação genética a disponibilizar DEPs na internet. Ainda incluiu o atributo de Stayabillity (Stay) e as de carcaça, com apoio do professor doutor Roberto Sainz e do mestre e jurado de raças zebuínas Fabiano Araújo, proprietário da AVAL Serviços Tecnológicos. Adiante, agregou as DEPs de Probabilidade de Parto Precoce (3P) e criou o ANCPNet, sistema de gerenciamento on-line de recursos genéticos.

Os anos de 2008 a 2018, sua terceira década de existência, marcaram o período de maior inovação dentro da ANCP, com a chegada dos marcadores moleculares que culminaram na criação da DEP-AG (DEP Auxiliadas pela Genômica), em 2011, na Raça Nelore, e DEP Genômica, em 2014. Marmoreio (MAR), Peso da Carcaça Quente (PCQ) e Peso da Porção Comestível (PPC) foram incorporadas também nesse período. Destaque à inclusão da DEP Genômica no processo de seleção dos candidatos à Reprodução Programada, ferramenta que objetiva facilitar a avaliação de touros jovens.

Outros grandes méritos da ANCP são o desenvolvimento de um índice bioeconômico para mostrar quanto um touro pode retornar em reais em cada uma das características avaliadas – o MGTe – e o Max Pag, que é um sistema on-line de gestão genética e acasalamento. O programa mostra para o produtor qual é a melhor matriz e o melhor touro que, se acasalados, irão gerar o bezerro desejado, assim como oferecer pistas de suas DEPs futuras.

O diferencial do MaxPag dos demais programas de acasalamentos otimizados é que ele permite a seleção de taxas reprodutivas que modificam a frequência gênica, maximizando o progresso genético. Com esse recurso, ele minimiza a consanguinidade, pois leva em conta as propriedades genéticas da população à qual o animal está inserido. Entre outros benefícios, ele permite criar um índice TOP interno da fazenda.

Especial

O professor Raysildo Lobo ajudou a escrever a história da avaliação genética no Brasil

Mais tarde, engrossaram a régua de DEPs a pioneira DMC (DEP de Maciez da Carne), desenvolvida em parceria com a Embrapa Cerrados e duas de eficiência alimentar: Consumo Alimentar Residual (DCAR) e Ingestão de Matéria Seca (DIMS). Todas as três são estimadas utilizando a metodologia de passo único genômico BLUP (ssGBLUP).

A ANCP projetou um aplicativo para tablets e smartphones da entidade e criou a DEP genômica para precocidade de machos (DIPM- DEP para Idade à Puberdade em Machos), construída em parceria com o Grupo de Pesquisas em Reprodução Animal do Mato Grosso do Sul (Gera/UFMS).

Já em 2019, a ANCP prepara- se para entrar em mais uma década de inovações. Neste ano, comemora os 20 anos do Programa Guzerá Brasil, e novidades exclusivas para a raça devem surgir – a entidade, responsável pelos programas de melhoramento genético oficiais das raças Guzerá, Nelore, Brahman e Tabapuã, lança, em 2019, uma avaliação para o Senepol, além de conduzir outro programa voltado à pecuária comercial (Melhoramento Genético de Gado Comercial – PMGC).

“O tripé dos grandes diferenciais da ANCP é composto pela qualidade dos dados, inovação tecnológica e disseminação de conhecimento. Por ser uma associação comandada conjuntamente por criadores e pesquisadores, a única do País a seguir essa linha, a ANCP mantém-se fiel à qualidade científica e ao pioneirismo nas pesquisas e tendências de mercado”, afirma o presidente da ANCP Raysildo Barbosa Lobo.

Segundo ele, com uma equipe de pesquisadores das mais respeitadas instituições nacionais e internacionais, a ANCP tem a capacidade técnica de transferir para o campo as mais recentes descobertas científicas. E, ao mesmo tempo, não fecha os olhos para as tendências do mercado pecuário.

“Todas as inovações promovidas pela ANCP ao longo dos anos foram de indiscutível importância e definiram o cenário da pecuária nacional”, assinala Lobo, que informa que a ANCP é presente no Brasil, na Bolívia e no Paraguai.

Certificação

A instituição possui um programa de certificação interno chamado Global G para auditar fazendas que apresentam máxima qualidade dos dados (G1), que aplicam de forma eficiente as técnicas de melhoramento genético animal (G2) e que contribuem com o meio ambiente (G3).

O G2, em especial, certifica fazendas que utilizam efetivamente as ferramentas de melhoramento genético na seleção do rebanho, contribuindo para a evolução genética da raça. Para receber a certificação, o criador tem de participar do programa há, pelo menos, quatro anos, estar certificado G1 e possuir evolução genética em relação à média do próprio rebanho. A auditoria é feita a cada três anos.


Muda interpretação da 3P e da Stayabillity

A alteração já vale a partir da 1ª Avaliação Genética de 2019. Agora, na escala limiar, os resultados das duas DEPs devem ser interpretados como probabilidade de sucesso. Exemplo: em um touro com DEP de 70% para 3P, significa que ele tem 70% de chance de ter filhas mais precoces.

Antes, era utilizado o modelo linear, que considerava a média de 50% como divisor entre o touro positivo e o negativo. Dessa forma, se um animal tinha uma DEP de 60% para 3P ou Stay, isso acarretava que esse animal tinha 10% de probabilidade de gerar o resultado esperado. Nas validações realizadas pela equipe de pesquisadores da ANCP, não se observou grande impacto no ranqueamento dos animais após a troca.

O valor da DEP pode, sim, sofrer modificações, mas essa alteração não será de grande escala e não afetará de forma ampla o ranqueamento, sobretudo, de animais com muitas progênies, segundo comunicado da ANCP. Vale lembrar que as DEPs continuam sendo um valor comparativo. Se um “Touro A” tem uma DEP de 80% para 3P e o “Touro B”, de 60%, quer dizer que o “Touro A” tem 20% a mais de probabilidade de ter filhas precoces do que o “Touro B”.

Outras mudanças importantes vão acontecer e podem ser consultadas na aba “Notícias” do site www.ancp. org.br.