Sobrevoando

Turquia

Toninho Carancho
[email protected]

Esses dias, sem nada muito interessante para fazer, resolvi acompanhar um embarque de gado vivo para a Turquia, coisa que tinha vontade de ver e curiosidade para saber como funciona toda a logística, além de entrar no navio para conhecer as instalações por dentro. E foi o que fiz. Posso dizer que valeu a pena.

Muita gente fala sobre esse assunto de gado vivo para o exterior, mas poucos realmente já acompanharam o embarque. Como eu não queria escrever sobre algo contado por terceiros, resolvi olhar com os meus próprios olhos e dar uma boa “sobrevoada” em todo o processo.

Primeiro, fui no confinamento onde recebem os novilhos e é feito o agrupamento de animais aos poucos. Conforme vão chegando das fazendas, entram em uma primeira etapa de adaptação alimentar e também são divididos por tamanhos, com todo o cuidado para não perderem peso e, ao contrário, ganharem. No caso desse confinamento que visitei, os embarques são praticamente mensais, então a movimentação é intensa, sempre chegando novas cargas de novilhos (inteiros) e também a mudança de alimentação conforme a adaptação e o embarque em si, que é uma operação bastante complexa.

Os novilhos que vi eram todos Angus e Hereford e suas cruzas, com raras exceções. E o embarque que acompanhei tinha como destino a Turquia, em uma viagem estimada em 30 dias no mar. Os compradores turcos vêm olhar os animais e selecionam no confinamento os que irão embarcar, e a informação que tive é que estão ficando cada vez mais exigentes. Chifre, não. Brazino (araçá), não. Mais azebuado, não. Muito barbeludo, com cupim ou umbigo maior, está fora. Preferência por pretos e vermelhos (e caras brancas, é claro). Peso abaixo de 300 quilos. Esse é o perfil do embarque que acompanhei.

Na saída do confinamento para o porto, a operação também é bastante interessante e muito profissional. Nesse caso, foram 5 mil novilhos embarcados. Todos com chip na orelha e devidamente contados e embarcados em carretas Romeu e Julieta. As carretas têm o seu horário de saída marcado com exatidão, e o seu percurso é acompanhado em toda a extensão, com chegadas previstas no porto, tudo muito cronometrado e gerenciado. Os animais são revisados por veterinários na saída do confinamento, na chegada, no porto, e também durante toda a viagem.

No porto, uma empresa especializada faz toda a montagem dos bretes e embarcadouro para o navio. Tudo pré-montado em grandes partes como se fosse um “Lego gigante”, manobrado e construído por empilhadeiras de grande porte. Tudo se encaixa com perfeição e fica pronto para o embarque em poucos minutos.

O navio que visitei era muito bacana, apesar de não ser dos maiores, nem dos mais modernos, conforme os turcos me disseram. Com seis decks e várias divisões para colocar o gado, tudo muito limpo e organizado, totalmente preparado para o transporte de animais. Grandes estoques de feno e ração compõem a alimentação do gado durante a viagem, e uma equipe de 40 pessoas garante total gerência e conforto desses animais.

Conversei um pouco com o veterinário que iria acompanhar o gado até a Turquia, era a sua primeira viagem de navio e também para a Europa e a Ásia. Aposto que foi uma grande aventura, ainda mais para alguém que não fala turco e com um inglês bem rudimentar. Espero reencontrá-lo, para que ele me conte com detalhes como foi essa jornada. Confesso que fiquei com inveja dele.

Ainda esses dias ouvi relatos de que outros países estão iniciando ou vão iniciar suas compras de gado vivo aqui no Brasil: Malásia, Vietnã e Emirados Árabes, entre outros.

Acho isso ótimo. Estimula a criação de gado, valoriza e baliza os preços para cima, retira um excesso de gado que está pressionando o valor para baixo, visto o ainda fraco desempenho de nossa economia e, por consequência, menor consumo interno, e também cria uma cadeia mais profissional de compradores de gado, de vendedores de bezerros e novilhos, de “freteiros” com caminhões adequados, de venda de brincos, chips, balanças eletrônicas, venda de touros, sêmen, serviços veterinários, equipamentos de confinamento, feno, silagem... enfim, tudo que envolve a pecuária.

Que venham os navios! Vamos fazer esta bezerrada que o mundo precisa. Fui!