Feno & Silagem

RESERVA DE FORRAGEM: FENO OU SILAGEM?

Feno

Daniele Zago*, Luiz Antônio Vieira Queiroz Filho**, Everton Dezordi Sartori*** e Júlio Barcellos****

A conservação de forragens é uma importante estratégia tecnológica para o manejo alimentar dos bovinos e tem como objetivos complementar a escassez de alimentos em estações de menor produção natural das pastagens, , formar reservas para períodos de instabilidades climáticas, armazenar sobras de volumosos em períodos de abundância ou, na essência, aumentar a produtividade do sistema de produção.

O feno e a silagem constituem as formas mais comuns de conservação e armazenamento de forragens, e ambos apresentam características específicas. No processo de ensilagem, a forragem é fermentada na ausência de oxigênio e tem sua conservação assegurada pela redução do pH. Na fenação, a forragem é desidratada, e, pela redução da umidade, cessa o processo metabólico da planta. Com isso, o material é preservado. Esses processos demandam conhecimento, materiais forrageiros adequados, planejamento, mão de obra especializada, maquinários e instalações específicas. Além disso, cada um desses processos apresenta custos que são incorporados aos já existentes na propriedade, de forma que devem ser cuidadosamente avaliados em termos de respostas bioeconômicas.

Feno

Elaboração de silo de grão umido para fornecimento aos animais

Silagem

A silagem consiste na conservação da forrageira a partir da fermentação dos açúcares presentes na planta. Tal fermentação deve ocorrer em ambiente anaeróbico (sem a presença de oxigênio), com umidade máxima de 35% e com disponibilidade de substrato (açúcares) para o crescimento dos micro-organismos. Por isso, é primordial atentar- se ao ponto de colheita, picagem, compactação e vedação do silo, pois é no ponto de colheita que a quantidade de umidade e de açúcares presentes na planta será determinada. A picagem facilita o acesso dos micro-organismos a esses açúcares e está diretamente relacionada à facilidade de compactação da massa ensilada e ao consumo posterior. A compactação e a vedação visam criar esse ambiente anaeróbico.

Desse modo, embora qualquer planta forrageira possa ser ensilada, deve- -se dar preferência aos materiais que apresentam elevado potencial produtivo (rendimento de massa verde em toneladas/hectare) e valor nutricional, associado à facilidade nos processos de produção, conservação e distribuição aos animais. Nesse sentido, o milho e o sorgo são as espécies forrageiras mais utilizadas para ensilagem, pois são de fácil mecanização, têm alta produção de matéria seca por hectare, alto conteúdo de energia e elevado consumo pelos animais.

Na região tropical do Brasil, é possível produzir silagens de braquiárias, sorgo e coloniões, que são plantas que produzem em torno de 20 toneladas de matéria seca por hectare. Já no Sul do Brasil, as espécies subtropicais, do gênero Cynodon (Tiftton-85, Coast cross, estrelas), e de clima temperado – as leguminosas, como os trevos, alfafa, cornichão –, e as gramíneas, a exemplo do azevém e da aveia, podem ser conservadas na forma de silagens pré-secadas.

Em sistemas de confinamento, a silagem normalmente é utilizada como a única fonte de volumoso. Contudo, além de simplesmente atuar como fonte de fibra, os atuais híbridos de milho e sorgo disponíveis no mercado têm permitido a confecção de silagens com maiores proporções de grãos na sua composição e aportam, portanto, uma grande quantidade de energia, que reflete em redução na quantidade de ração concentrada a ser fornecida. As silagens podem, ainda, ser utilizadas nos sistemas extensivos como volumoso suplementar, em épocas de escassez de pasto ou quando se deseja aumentar a carga animal por hectare. Nesses casos, o nível de suplementação volumosa deve ser no mínimo 1,5% do peso corporal, para que os animais substituam o pasto por silagem e para que a lotação do pasto possa ser elevada.

Feno

A fenação consiste, basicamente, na desidratação da forrageira cortada para posterior armazenamento e utilização. Assim, a fenação deve ser realizada em dia seco e ensolarado para que o processo de perda de umidade da planta ocorra de maneira satisfatória. Após a secagem, a forrageira é recolhida e enfardada, podendo ser na forma de rolos ou blocos, dependo da máquina utilizada. O formato mais utilizado é de blocos retangulares com dimensões de, aproximadamente, 40 cm x 50 cm x 130 cm, para a confecção de fenos de tifton, aveia, alfafa etc. Enquanto que os formatos cilíndricos (rolos) são utilizados, principalmente, na fenação de palhas (arroz e trigo, entre outros). Nesses casos, há a necessidade de equipamentos apropriados para o transporte dos rolos, pois o peso individual é de, aproximadamente, 500 kg. As vantagens, nesse caso, são a redução de até 50% no tempo de enfardamento, a possibilidade de autoconsumo pelos animais e a facilidade de armazenagem a campo, geralmente próximo do local de fornecimento.

Feno

A armazenagem do feno deve ser em local seco, protegido do sol e sem a presença de roedores ou de outras espécies que prejudiquem a qualidade do mesmo. Ele deve apresentar baixa umidade (em torno de 12%), pois valores superiores a estes, seja por falhas na secagem ou no acondicionamento, podem favorecer a formação de mofos, como a aflatoxina, que, além de reduzir a qualidade e palatabilidade, apresentam efeitos nocivos à saúde do animal e, consequentemente, ao seu potencial produtivo. Os fenos de palha confeccionados em formato cilíndrico podem ser armazenados a campo, onde serão fornecidos aos animais, sem prejuízos à sua qualidade e sem a necessidade de cobertura.

Contudo, deve-se ter o cuidado para que estes sejam dispostos no sentido norte-sul, a fim de evitar a formação de áreas sombreadas nas laterais dos rolos e, por consequência, úmidas.

A qualidade nutricional do feno é variável e depende da forrageira utilizada (alfafa, tifton, palhas etc.). Normalmente, nas formulações de dietas para alto desempenho, o feno é utilizado como fonte de fibra, que precisa ser aliado a uma fonte de concentrado para atender às exigências nutricionais dos animais, a exemplo da utilização do feno de aveia ou tifton na dieta de vacas leiteiras como fonte de fibra efetiva. Por outro lado, em situações de escassez de pasto, o feno é utilizado como volumoso suplementar, e seu aproveitamento pode ser potencializado com o fornecimento de sal proteinado. Um exemplo desse manejo é o fornecimento do feno de palha de arroz para rebanhos de vacas de cria, que atua como fonte de fibra associado à suplementação com sais proteicos energéticos durante o inverno na Região Sul do Brasil.

Feno ou silagem: há diferenças para decidir qual o melhor?

Ambos os métodos de conservação demandam mão de obra e logística específica, tanto na fase de produção quanto no fornecimento aos animais, o que gera custos adicionais. Nos custos de produção da silagem, devemos considerar as etapas de produção e o maquinário associado a cada etapa. Assim, temos a semeadura e suas operações paralelas (calagem, adubação, aplicação de defensivos), a colheita com ensiladeira, a retirada do material do silo e a sua distribuição. Adicione-se, ainda, a necessidade de fornecimento diário, e a demanda de cochos e mão de obra. O feno, por sua vez, além da semeadura (no caso de forrageiras cultivadas), demanda uma operação de corte por uma ceifadeira ou roçadeira, ancinhos para o revolvimento durante a secagem e enleiramento para colheita e enfardo, e enfardadoura para a colheita e a produção de feno.

A qualidade nutricional e a viabilidade econômica, tanto do feno quanto da silagem, dependem da forrageira utilizada e das eventuais perdas que podem ocorrer durante a sua confecção, armazenamento e distribuição aos animais. As forrageiras utilizadas para a confecção de silagens, de um modo geral, são cultivares anuais, tendo, portanto, em cada ano, o custo da sua implementação. Ao passo que os fenos apresentam a possibilidade de confecção a partir de palhadas ou de forrageiras perenes ou nativas, sendo diluído o valor da implementação, que gira em torno de 70% dos custos totais de produção da forragem.

Fenos de baixa qualidade nutricional, como os de palhas, normalmente, são fornecidos para animais adultos de baixa exigência nutricional ou ainda como uma forma estratégica para aumento da taxa de lotação. Enquanto fenos produzidos a partir de materiais de maior qualidade nutricional, tais como de alfafa e trevos, são utilizados em categorias que apresentam maiores exigências, como bezerros e novilhos. Já as silagens, em função da necessidade de valores mínimos de açúcares e umidade para a sua fermentação, reduzem a possibilidade de utilização de materiais nutricionalmente menos nobres. Assim, as silagens, normalmente, apresentam valor energético elevado e são empregadas, principalmente, em dietas de recria e terminação em bovinos de corte, e nas fases de produção e pré-parto em vacas de leite.

Portanto, a escolha entre a utilização de feno ou da silagem, ou, ainda, de ambos, deverá ser pautada em considerações como: fatores edafoclimáticos da propriedade, categoria animal, objetivo da utilização, mão de obra, implementos disponíveis e custos de produção. Por fim, cabe destacar que a economia de um recurso é fundamental quando ele está à disposição. Portanto, reservar forragem é uma estratégia de economia daquilo que está sobrando ou que foi planejado ser guardado no momento em que não é necessário. Com esse princípio, é crível afirmar que, em uma pecuária a pasto, ambos os processos de conservação são recursos necessários para uma intensificação sustentável.

*Daniele é zootecnista e doutora do PPG-Agronegócios – NESPro/UFRGS **Luiz Antônio é engenheiro-agrônomo e doutorando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ***Everton é zootecnista e doutorando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ****Júlio é médico-veterinário e doutor NESPro/UFRGS [email protected]