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Deixe a cria desmamarDeixe a cria desmamar

Reduzir a mortalidade de bezerros é uma medida essencial para garantir a saúde financeira da propriedade

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Erick Henrique
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Pouco tem se falado a respeito da taxa de mortalidade de bezerros no Brasil. Muitos pecuaristas e até pesquisadores mostram-se mais preocupados em emprenhar a vaca, pouco importando se o bezerro vai sobreviver ou não, resultando em prejuízos que passam despercebidos aos olhos do criador. “Dados de vários trabalhos e algumas estatísticas demonstram que a taxa de mortalidade neonatal decorrentes do manejo durante a parição está em torno de 5% a 7%, sendo realmente alta”, comprova Júlio Barcellos, médico-veterinário e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Barcellos levanta uma provocação sobre qual indústria tolera perder 5% da produção e quanto se gastou para produzir? “É um estrago enorme que precisa ser reduzido, e existem muitos caminhos para isso. Capacitar os colaboradores é uma das principais medidas. Não podemos aceitar que seja considerada irrelevante a morte de um bezerro que custou, no mínimo, R$ 500 e R$ 600 para ser produzido na maioria das fazendas de cria do País.”

Cuidados com as fêmeas

Aprofundando no assunto, o sistema de cria na pecuária de corte funciona como um cultivo agrícola, com épocas para semear, manejar e, o mais importante, colher. A vaca de cria passa por um período curto de reprodução, entre 60 e 90 dias, momento em que é realizado um alto investimento em infraestrutura e insumos.

“Nesse momento, é feita a semeadura e 35 a 60 dias após concluída a estação de monta, é realizado o diagnóstico de gestação. De um modo geral, aqui, o pecuarista já começa a contar vitória, especialmente se a taxa de prenhez estiver próxima dos 90%”, explica a médica-veterinária do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro/UFRGS), Marcela Kuczynski da Rocha.

Segundo a especialista, no entanto, não há nada para comemorar porque o bezerro nascerá somente 282 dias após a cobertura. “Portanto, o concreto é ter um bezerro que sobreviva ao nascimento e esteja apto para crescer e se desenvolver. Para cada bezerro não colhido, há um aumento de 50% no custo daquele nascido.

Conforme se aproxima o parto, a pesquisadora do NESPro informa que a apartação de fêmeas deve ocorrer em piquetes- maternidade, para garantir a sanidade preventiva, com “materneiros” treinados promovendo todos os cuidados necessários no momento do nascimento, com cura adequada do umbigo com iodo e revisão diária das vacas no período de parição. Essas são práticas fundamentais para assegurar que as mortes perinatais não escapem dos indicadores de benchmarking, que apontam para perdas entre 1% e 3% nessa fase.

“Entretanto, esses números podem aumentar facilmente, alcançando índices que ultrapassam os 5% e, em alguns casos, atingindo até 12% a 15% de mortalidade. Com isso, há um prejuízo elevadíssimo para o sistema e um aumento de custo extraordinário, uma vez que o custo do bezerro nascido ou que morreu é o mesmo”, explica Marcela.

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A relação materno-filiar é mais forte à medida em que o bezerro fica mais tempo com a vaca

Além disso, a pesquisadora afirma que, muitas vezes, a mortalidade pode ser evitada com um manejo nutricional adequado da fêmea após a cobertura, tendo efeito residual na qualidade do bezerro ao parto. “A vaca de cria, em situações de deficiência mineral, em particular, cálcio e fósforo, tem o desempenho reprodutivo e problema no parto, com o bezerro também sofrendo consequências.”

Segundo a médica-veterinária da UFRGS, casos de hipocalcemia em vaca de corte são mais raros, mas sempre é preciso ter cuidado com a condição corporal da fêmea ao parto, evitando que ocorra emagrecimento. Normalmente, uma suplementação mineral durante a gestação com níveis entre 60 e 90 gramas de fósforo e de 140 a 180 gramas de cálcio por quilo de produto são adequados para uma boa nutrição de macroelementos.

De acordo com Barcellos, atualmente, fala-se muito em programação fetal, e a equipe do NESPro conduziu uma tese sobre a importância da nutrição durante toda a gestação, não apenas no terço final, tradicionalmente apontado como prioritário pela maioria dos pesquisadores. Para ele, ocorre que, desde os primeiros 60 dias de gestação, parte dos alicerces do futuro bezerro são construídos.

“Assim, uma vaca bem nutrida terá um bezerro mais vigoroso e com capacidade de resistir a alguma adversidade no momento da concepção. Aliás, atualmente, é reconhecido que preparar o bezerro na vida intrauterina precoce é um caminho para reduzir a taxa de mortalidade perinatal. Muitas vezes, o criador atribui essas perdas à falta de adaptação do gado, de problemas infecciosos ou até mesmo de manejo. Isso não deixa de ser verdade, mas, agora, ela vem carregada desses elementos de natureza alimentar da fêmea.”

Outro ponto mencionado pelo professor é a respeito de superalimentar uma vaca, pois pode ocorrer riscos de distocia no parto. Contudo, é uma prática que, por razões econômicas, dificilmente ocorre. “Ressalvas devem ser feitas às falhas de manejo, quando os pecuaristas com receio de que suas fêmeas estejam muito fracas para parir, alocam numa pastagem de alta qualidade nos últimos 60 dias antes da parição. Isso promove um crescimento fetal acelerado e, quando se trata de novilhas, aumenta sobremaneira a dificuldade de parto e mortes ao nascimento.”

Ademais, os criadores precisam ficar atentos com a sanidade das vacas no pós- -parto para evitar a retenção de placenta. Em fêmeas bovinas, as membranas fetais são eliminadas fisiologicamente até 12 horas após o parto ou abortamento. A retenção parcial ou total da placenta, por período mais prolongado, deve ser considerada como patológica.

Entre as causas mais comuns para essa síndrome estão parto induzido, placentite, hipocalcemia, abortamento, natimortos, distocia e duração anormal da gestação. Alguns outros fatores podem desencadear o problema, tais como placentomas, torção uterina, cesarianas, ganho de peso excessivo, atonia uterina, deficiência de PGF2α, de selênio, vitamina A e E ou idade avançada. Por isso, o tratamento à base de antibióticos e prostaglandina devem ser adotados tão logo se perceba que a vaca não eliminou a placenta no tempo devido.

A rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR), causada por um herpesvírus do tipo I, pode provocar em fêmeas prenhes reabsorções embrionárias, repetição de cio com intervalos irregulares, abortos e morte de bezerros recém-nascidos. É característico as fêmeas infectadas apresentarem vulvovaginites (pequenos pontos de inflamação na vulva, como ‘‘bolhas’’). Em animais jovens, podemos observar problemas respiratórios, como traqueítes, pneumonias e também conjuntivites que acabarão prejudicando o desenvolvimento desses animais.

A transmissão ocorre pelo contato de secreções nasais, oculares, descargas vaginais e também de fetos abortados, além do coito e sêmen congelado contaminado. Frequentemente, outros agentes infecciosos (bactérias e fungos) estão associados a esse vírus, devido à depressão do sistema imunológico dos animais.

Calibrando o manejo

Quem sofreu, em 2003, com a mortalidade de suas crias de corte foi a pecuarista Sônia Bonato, da Fazenda Palmeiras, em Ipamerim/GO. Com um rebanho de 70 fêmeas Nelore e três touros, ela e o marido Nilton Cesar perderam toda a nova safra, em oito meses, o que significou 26 bezerros.

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“Com ajuda de nosso vizinho médico-veterinário, descobrimos que a mortalidade das crias foi por causa da alimentação inadequada das vacas”, recorda a criadora Sônia Bonato ao lado de seu esposo Nilton César

“Esse fato foi determinante para estudar a bovinocultura. Na época, com a graça de Deus, não foi detectada nenhuma doença no rebanho. Com ajuda de nosso vizinho, médico-veterinário, descobrimos que a mortalidade foi por causa da alimentação inadequada das vacas. Com essa informação, aprendemos que as fêmeas necessitam de uma boa alimentação e bom escore corporal, assim, o bezerro nasce forte, saudável, e a mãe não sente nenhum tipo de desconforto”, diz a pecuarista de Goiás.

Conforme a criadora, ela fez um curso de cria, que contribui – e muito – no manejo dos animais, pois, ao nascer, a primeira coisa que verifica é se mamaram o colostro. “No pasto-maternidade, curamos também o umbigo e pesamos os animais com dois meses, realizamos vermifugação e os cuidados seguem até a desmama dos bezerros meio-sangue Nelore x Brahman.

“Para manter o escore corporal das fêmeas e das crias, sobretudo no período seco do ano, começamos, em 2011, a produzir silagem. Fora isso, sempre busco conhecimento através de cursos de gestão e produção lucrativa. Com essas ferramentas, resolvemos aumentar a produção, e, hoje, a criação é uma fonte de renda, assim como a lavoura de soja.”

Sanidade, nutrição e bem-estar

É sabido que infecções como a diarreia viral bovina (BVD) causam perdas econômicas, principalmente aquelas relacionadas ao domínio da reprodução, como abortos, diminuição das taxas de fertilidade e morte de neonatos. Logo, estratégias de controle e prevenção devem ser consideradas.

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A primeira defesa com imunoglobulinas específicas para várias doenças vem por meio do colostro, o qual deve ser ingerido nas primeiras 12 horas pós-nascimento

“Como zootecnista especialista em bem-estar animal, digo que a grande aliada na prevenção e no controle da infecção por BVD é a adoção das boas práticas de manejo, as quais envolvem programas de biossegurança”, descreve Lívia Carolina Magalhães Silva, coordenadora do curso de zootecnia da Fazu.

Ela também integra o time de pesquisadores do Grupo Etco e ressalta, em referência à biossegurança, que o cuidado deve ser redobrado nos casos de aquisição de animais novos. Nesses casos, é de suma importância a adoção de protocolos de testes e quarentena.

Outra boa prática de manejo, segundo a coordenadora da Fazu, é a identificação e a eliminação dos animais persistentemente infectados (PI). “É importante salientar que, muitas vezes, estes animais PI não desenvolvem a doença e persistem infectados por toda a vida em um estado de viremia constante, eliminando continuamente o vírus para o meio ambiente, mesmo sem nenhuma sintomatologia clínica, o que dificulta o controle da doença na fazenda.”

Os protocolos vacinais também devem ser considerados. Nesse sentido, é importante uma boa orientação técnica para definir em quem e quando aplicar, além de analisar se a prática de vacinação será eficiente para o rebanho. De acordo com estudos da FMVZ-USP, em inquérito sorológico em diversos estados do Brasil, foi observado que 73,23% dos animais analisados eram soropositivos para o vírus da BVD.

Para o professor da UFRGS, fechar de forma adequada a primeira porta de entrada para qualquer enfermidade é o primeiro passo logo após o nascimento, e isso significa curar o umbigo com produtos desinfetantes, cicatrizantes e repelentes de moscas. O álcool iodado ainda é produto de boa eficácia e deve ser aplicado no coto umbilical logo após o nascimento, mas, de um modo geral, existem muitos produtos veterinários específicos para isso.

“Sendo assim, o importante, não é estar discutindo sobre o tipo de medicamento, se é mais ou menos eficaz. O correto é curar o umbigo para que ele cicatrize o mais rápido possível, evitando o surgimento de processos infecciosos e inflamatórios. Esses processos comprometem a evolução normal do bezerro e podem conduzir à morte”, sublinha Barcellos.

Nutrição é vida

Quando o assunto é nutrição de bezerros, a primeira defesa com imunoglobulinas específicas para várias doenças vem por meio do colostro, o qual deve ser ingerido nas primeiras 12 horas pós-nascimento, quando a absorção é máxima, embora ocorra transferência até 24 horas.

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Marcela explica que uma vaca bem nutrida e exposta aos principais agentes infecciosos gera imunoglobulinas que darão a proteção ao bezerro nas primeiras semanas de vida. Assim, é fundamental monitorar se, após o parto, o bezerro mama na mãe. “Em muitas fazendas existem até mesmo bancos de colostros para situações em que a vaca morre ou produz pouco colostro ou o bezerro não consegue mamar.”

Já na desmama, o processo está associado à idade em que é feito o aparte do bezerro e da técnica que será utilizada. Quanto mais jovem o bezerro, nas desmamas antecipadas, 90 dias, por exemplo, o grau de dependência deste em relação à sua mãe é menor do que quando desmamamos com 180 dias. Todavia, o gado mais jovem é mais dependente da alimentação suplementar pós-desmama.

A relação materno-filiar é mais forte na medida em que o bezerro fica mais tempo com a vaca. Porém, em qualquer situação, a busca por uma apartação na qual a quebra desse vínculo seja mais natural possível tem sido muito útil para o desenvolvimento futuro do bezerro.

Logo, desmame em currais nos quais os bezerros permanecem com feno, ração e uma boa água minimiza o estresse da ausência da mãe; desmamas lado a lado, nos quais as vacas ficam num piquete visualizando os bezerros em outro também é indicado; o uso do tabique nasal (tabuleta), interrompendo a lactação talvez seja o sistema menos estressante, pois o bezerro fica ao lado da mãe sem mamar e, depois de 10 ou 15 dias, é feito o aparte definitivo.

“Já o uso do creep auxilia o crescimento do bezerro, o torna menos dependente da vaca e, ainda, produz aprendizados muito importantes para a suplementação pós-desmama. Bezerros manejados ao pé da vaca com creep, além de serem mais pesados ao desmame, aprendem a consumir ração tanto na recria quanto no confinamento de forma mais rápida e, com isso, já entram nesses sistemas ganhando peso”, completa professor do NESpro/UFRGS.

A escolha do reprodutor

Um fato louvável entre os pecuaristas preocupados com as crias é acerca do melhoramento genético, mediante o uso das Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs). Esses estão selecionando os touros que possuem possuem melhores indicadores de facilidade de parto. Isto é, reprodutores com DEPs baixas ou mesmo negativas para peso ao nascer são desejáveis.

É o caso do produtor de ciclo completo e seleção de animais da raça Nelore Cássío Yule, da Fazenda Campo Limpo, em Bandeirantes/ MS, que, atualmente, trabalha pautado em desempenho: “Acreditamos que o bezerro tem de nascer pequeno, mas ter um bom GMD (ganho médio diário) de peso. Um exemplo de sucesso da Nelore Yule foi a escolha do touro REM Embargo para acasalar as novilhas superprecoces (expostas a reprodução aos 14 meses), que era Top 0,1% para PN (peso ao nascer) e também Top 0,1% para GPD (ganho de peso pós-desmama). Todas as novilhas prenhes dele pariram normalmente, e seus produtos estão registrando excelente desempenho”.

O selecionador sul-mato-grossense enfatiza que a raça Nelore passa por um processo de transição. “Isso aconteceu com a DEP peso ao nascimento, pois a busca incessante por colocar peso na raça na década de 1990 fez com que essa característica se desenvolvesse de forma errada, tendo até relatos de bezerros nascendo com 70 kg. Imagine uma novilha tendo de parir isso.”

Yule lembra que, antes, a fazenda tinha um sistema mais extensivo de produção de bezerros, as áreas e lotes eram grandes, com perdas também elevadas. “Com a ajuda de empresas de consultoria, passamos a ter os números da fazenda nas mãos. Foi quando identificamos as falhas e resolvemos tomar providências. De início, reduzimos o número de animais por lote, corrigimos o que estava errado e estabelecemos metas e bonificações para os envolvidos no processo”, finaliza o criador.

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