Caindo na Braquiária

Seguro a tricross Brangus para reposição de plantel?

Caindo

Alexandre Zadra – Zootecnista
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É incrível como nosso povo é conversador. Dias atrás, encontrava-me na fila do embarque no aeroporto de Barra do Garças/MT batendo um papo descontraído com outro passageiro, enquanto nos preparávamos para pegar o voo, quando surgiu a curiosidade mútua sobre nossas atividades profissionais. Foi aí que descobrimos a pecuária de cria como ponto em comum, além de descobrir que era um parente de um grande amigo.

Assim que passamos pela revista normal, já na sala de embarque, João Lucas, sabendo da minha paixão e interesse pelo cruzamento entre raças, inquiriu-me de pronto: “Minha fazenda fica em Cocalinho. Como sabe bem, é uma região muito quente. Minhas vacas são Nelore e F1 Angus. Usei Brangus nas F1 Angus, nas quais abati os filhos desse cruzamento (tricross Brangus), após serem confinados, ganhando muito peso. Pergunto para você, Zadra: devo segurar as fêmeas Brangus para reprodução? Caso venha segurar, qual raça recomenda para continuar aproveitando as filhas da Brangus na reprodução? Ou acha que devo matar todas, fazendo um cruzamento terminal?”.

É muito comum, no meio pecuário, “consultores” de plantão sem experiência na área fazerem recomendações de raças e cruzamentos sem conhecerem a fundo os resultados desses e suas consequências, suscitando equívocos que devem ser mitigados através de fundamentos sólidos.

Após João informar seus objetivos e condições de manejo, detalhei que, naquele clima quente da região, o tricross Brangus demonstra seu potencial produtivo quando recebe uma suplementação alimentar condizente com seu metabolismo, ou seja, deve receber ração e dispor de pastos bem divididos e sombreados, pois, como é composto por 56% de sangue europeu, apresenta me nor apetite pelo seu alto metabolismo.

Sabemos que a diferença entre touros dentro de uma raça é maior que entre as raças para certas características. Uma delas é o comprimento de pelo, e uma das maneiras de avaliar essa característica é analisando quantidade de pelo na parte interna da orelha no momento da desmama, pois, nessa fase, os bezerros demonstram se terão pelagem curta ou não para o resto da vida. Caso seus tricross Brangus tenham pelo maior que seus animais F1 Angus, significa que terão menor eficiência reprodutiva no calor da sua região, ou, então, caso queira utilizá-las para reprodução, capriche na suplementação alimentar quando parirem.

No tocante à raça a ser utilizada sobre essas fêmeas tricross Brangus para ficarem como matrizes na reprodução, recomendo uma raça tropical, seja um taurino adaptado como o Senepol ou o Caracu nessas novilhas, ou mesmo uma raça zebuína, quando essas tricross Brangus forem adultas, para evitar distocias.

Dessa forma, agregará heterose aliada à adaptabilidade.

Quando você estiver com o rebanho com maior percentual de animais cruzados, sugiro que lance mão do cruzamento rotacional-terminal, no qual 50% das vacas do rebanho recebam sêmen de uma raça para se aproveitar as fêmeas na reposição, tais como as citadas acima (Senepol ou Caracu). Já nas 50% matrizes restantes inseminadas no final da estação de monta, pode-se usar sêmen de uma raça com metabolismo ideal para ganho em peso alto no cocho, vendendo machos e fêmeas, tais como Braford, Bonsmara, Canchim.

Costumo dizer aos pecuaristas criadores que nosso futuro mais próximo é daqui a três anos, quando poderemos, na melhor das hipóteses de precocidade, abater animais superprecoces (zero dente), confinados logo após a desmama. Caso o produtor esteja vislumbrando esse sistema, pode, ainda, utilizar nessas tricross Brangus sêmen de raças europeias continentais, como Simental e Charolês.

Com um pôr do sol dourado de inverno, pousamos tranquilos no nosso destino, já marcando uma visita in loco na fazenda do João.

Alexandre Zadra – Zootecnista [email protected]