Sobrevoando

Retrabalho

Toninho Carancho
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Só quem trabalha no campo sabe o real significado de retrabalho.

Fui olhar no dicionário: trabalhar novamente, fazer novamente o trabalho.

É isso. Fazer de novo ou refazer.

No campo, esse problema fica muito evidente, principalmente em grandes extensões de áreas, toma outras dimensões e agrega, ainda, outro problema: o de chegar ao local do serviço e faltar algum equipamento para realizá-lo. Isso é mortal!

O sujeito vai até o fundo do campo, a cavalo, demora um tempão e, ao chegar lá, vê que não levou a torquês e que não vai conseguir fazer a arrumação da cerca de forma adequada. Então, tenta fazer com a mão. O arame fica frouxo, o cara machuca a mão (porque usar luva não é coisa de homem) e nunca mais volta lá para fazer o serviço como deveria ser feito.

Esse é apenas um exemplo do que acontece diariamente quando temos uma equipe mal preparada ou mal selecionada.

A falta de planejamento do dia a dia; a cobrança frouxa do gerente, capataz ou dono da fazenda; e a dificuldade em executar com eficiência tarefas simples é o que aflige muitas fazendas hoje e ontem.

O retrabalho é uma constante, e acho que é um dos maiores problemas em fazendas “normais” do Brasil. Não existe disciplina nem do dono da fazenda, nem da sua equipe para vencer essa rotina. Parece que está no nosso DNA fazer as coisas meio que pela metade, malfeitas, de forma demorada, precária. Claro que existem exceções – acredito que até muitas –, porém a grande maioria das fazendas e seus donos e equipe atuam de forma bastante precária nesse sentido. São boas pessoas, até gostam do que fazem, mas a desorganização impera. E aqui não falo de softwares de gestão, de brincos e balanças eletrônicas, de IATF etc. Falo do dia a dia, de cuidar das cercas adequadamente, de arrumar o entorno das casas, de não jogar lixo, de fechar portas e porteiras, de apagar a luz, de não deixar a torneira pingando ou aberta. De levar o equipamento necessário para fazer o serviço, seja ele qual for. De estar preparado para as necessidades normais de um dia de serviço. Vou sair a cavalo? Vejo se estou levando meu laço, minha sacola (mala de garupa, saco etc.) completa com mata bicheira, chave de cerca, faca, grampo, martelo, brincador, brincos, torquês. Vou sair de moto ou quadriciclo, trator ou picape? Já penso o que posso levar. Sal, palanque, tramas e tudo mais.

Cada saída nossa para o campo pode e deve ser bem aproveitada. O tempo é escasso, a gasolina e o diesel estão caros. Temos que fazer render o nosso trabalho, fazer bem feito na hora, não deixar para depois.

Muitas vezes, temos de fazer grandes serviços ou empreitadas, inclusive chamando terceiros (e pagando um extra) para fazer aquele trabalho do dia a dia que não foi feito.

Em muitas fazendas, percebemos que as coisas não estão indo bem e que, ao mesmo tempo, o pessoal parece que está sempre atarefado, com trabalho de mais. Muitas vezes, o que está faltando é organização do dia a dia.

Espero que você não esteja numa fazenda assim.

Se estiver, não acredite em fórmula mágica, arregace as mangas, ponha um objetivo na cabeça e comece a mudar essa situação:

1) Organize o que fazer em cada dia. Não acumule muita coisa para fazer. Vai na manha.

2) Repasse as tarefas para todos explicando exatamente o que quer que todos façam.

3) Faça uma pequena e rápida checagem do que todos devem levar.

4) Dê um giro rápido e veja se tudo andou a contento. Lembre-se da frase do Reagan, “confie, mas cheque”.

5) No outro dia, converse com o pessoal sobre como andaram as coisas e vá de novo.

Você verá que vai começar a sobrar tempo para fazer coisas que não conseguia fazer e também vai identificar quem são os bons e maus da turma. A equipe precisa ser formada por gente boa, que sempre foi escassa, mas existe por aí. Vá atrás deles.

Desculpe, mas vou ter que sair agora para fazer uma nova divisão com a cerca elétrica. Fui!