Manejo

Criando conexões

Manejo

Manejo a distância e calmo melhora produtividade. Fêmeas Nelore submetidas à IATF que caminham no curral emprenham mais que aquelas que marcham ou correm

Antony Paulo Luenenberg*

Os primeiros relatos sobre bovinos datam de 30.000 anos a.C. Esses ruminantes foram uns dos primeiros animais a serem domesticados pelos seres humanos, entre 5.000 a 6.000 anos a.C. À medida que se intensificaram os sistemas de produção, houve perda da relação de confiança entre homem e bovinos, gerando novos desafios.

A crescente preocupação mundial de consumidores, cada vez mais exigentes com segurança alimentar, a falta de informação sobre os sistemas de produção dos bovinos e o estreitamento das margens de lucro têm exigido dos pecuaristas novas maneiras de gerir seu negócio. Nesse contexto, o bem-estar animal torna-se uma excelente oportunidade para abrir novos mercados, agregar valor ao produto final, por meio da redução das perdas causadas pelo mau manejo, e aumentar a lucratividade das fazendas.

Há três anos, chegou ao Brasil o programa de bem-estar animal denominado Criando Conexões. Essa iniciativa tem como missão despertar o interesse da cadeia pecuária para o potencial que uma comunicação efetiva entre pessoas e animais possui na melhoria do ambiente de trabalho, na segurança das pessoas e no bem-estar animal. Esse programa foi desenhado para expandir a compreensão de como a interação entre os humanos e o gado afeta sua saúde e o conforto do rebanho. Através de movimentos calmos, confiantes e sem a utilização de objetos, cria-se uma experiência positiva para o animal, elevando sua confiança.

A técnica aplicada no programa baseia-se no manejo dos bovinos através da linguagem corporal, na visão e na confiança mútua entre o manejador e o bovino. No Brasil, também é conhecida como manejo “nada nas mãos”. Foi desenvolvida nos EUA pelo vaqueiro Bud Williams e sofreu o aperfeiçoamento do Dr. Tom Noffsinger, veterinário norte-americano. A técnica é baseada em dez princípios:

1 O gado quer ver o manejador;

2 O gado observa melhor quem está em movimento;

3 O gado responde ao olhar do manejador;

4 O gado gosta de passar ao redor do manejador;

5 O gado gosta de retornar por onde veio;

6 O gado processa uma informação de cada vez;

7 O manejador deve trabalhar com pressão e alívio;

8 Os bovinos vivem em grupo;

9 Deve-se respeitar a hierarquia do rebanho;

10 O gado sente a energia do manejador.

Manejo

Manejo requer, inclusive, cuidado com a vocalização dos vaqueiros

Um dos maiores desafios da pecuária nacional é a escassez de mão de obra qualificada para um manejo adequado, já que o aprendizado de trabalho dos vaqueiros foi obtido de modo tradicional, passado de geração para geração e, muitas vezes, com agressividade, sendo praticado há 50 anos.

A falta de observação e de conhecimento sobre o comportamento animal faz com que os vaqueiros “empurrem” e não guiem os animais para onde se é pretendido. Na grande maioria das vezes, os vaqueiros posicionam-se na zona cega (atrás da garupa dos bovinos), e, com isso, os animais tendem a se virar para enxergar os manejadores. Outro ponto que se tem observado é a utilização de “falsas bandeiras”, que, em vez de serem utilizadas para facilitar o manejo, tornam-se instrumentos de agressão aos animais.

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Segundo Antony Paulo, a conexão com os animais possibilita reduzir lesões de carcaça, entre muitos outros benefícios

Na natureza, os bovinos são presas e, nesse sentido, “escondem” a manifestação dos sinais clínicos de doenças para evitarem se tornar vulneráveis aos predadores. Dessa maneira, o programa Criando Conexões permite que o manejador seja um cuidador do gado, facilitando a identificação precoce e a prevenção de doenças, pois, nesse novo cenário, o vaqueiro não será mais um agressor na ótica dos bovinos.

Alguns estudos demonstram que o manejo com baixo estresse melhora a imunidade, a resposta à vacinação e o desempenho dos animais. Sabe- -se, também, que animais confinados classificados como nervosos comem menos frequentemente, crescem mais lentamente, têm menor ganho de peso, propensão a doenças e maior proporção de cortes de carne escuros.

Na reprodução, a interação positiva entre os manejadores e os animais também pode influenciar as taxas de prenhez. Manejando as matrizes de forma calma e confiante, teremos influência na velocidade de saída do brete de contenção. Neto et al. (2016) avaliou o efeito do temperamento na taxa de prenhez de fêmeas da raça Nelore submetidas à IATF e concluiu que as matrizes que saem caminhando tiveram taxa de prenhez de 61,65%, marchando 58,96% e correndo 54,34%.

Quando comparados um grupo de vacas de leite com medo de seres humanos humanos (comportamento de evitação) com outro que recebeu manejo gentil, observou-se uma queda de 13% na produção de leite (Stoebel; Moberg, 1982). A interação intensiva negativa entre homem e animal gerou uma queda de 19% na viabilidade embrionária em um programa de superovulação, e o estresse e seu resultado em resposta hormonal pôde interromper ou gerar problemas na ovulação e no fluxo de hormônio luteinizante (LH), reduzindo a taxa de concepção (Macedo et al., 2011).

Um dos pontos críticos na criação de bovinos de corte é a fase do manejo pré-abate. A qualificação dos manejadores pode ter influência positiva, reduzindo ou até zerando o número de hematomas nos animais abatidos. Segundo Paranhos da Costa (2002), no Brasil, não se dá muita atenção ao manejo pré-abate, e os reflexos são negativos na rentabilidade do pecuarista e da indústria. Diversos fatores influenciam o tamanho, a localização e o número de lesões nas carcaças, como tempo de transporte, densidade de animais nos caminhões, condições das estradas e manejo no carregamento e descarregamento dos animais.

Polizel Neto (2015) avaliou as perdas econômicas ocasionadas por lesões em carcaças de bovinos abatidos em frigorífico do Norte de Mato Grosso e concluiu que o tempo de transporte acima de duas horas eleva o percentual de carcaças lesionadas, com maior ocorrência de lesões de 11 a 15 cm na região do lombo, e que as perdas com essas contusões de carcaça bovinas decorrentes de transporte e manejo pré -abate em um frigorífico de porte médio podem superar R$ 200 mil por ano.

Renner (2005) constatou a incidência de 49% das 20 mil carcaças avaliadas, e, indiferentemente, os cortes nobres foram os mais atingidos: 52% das contusões localizavam-se no quarto traseiro, no vazio (19%), nas costelas (13%), na paleta (9%) e no lombo (7%).

Pellecchia (2014) avaliou 22.324 carcaças de animais abatidos no estado de São Paulo, e as porcentagens de carcaças com hematomas foram altas para todas as categorias dos animais avaliados, variando de 62,24% (observada em machos não castrados) a 83,8% (em vacas). Os hematomas ocorreram mais frequentemente nas costelas (49,02%) e no traseiro (36,15%), seguidos pelo dianteiro (23,82%) e pelo lombo (14,59%). Houve maior risco de ocorrência de hematomas na categoria de vacas e nas classes de distâncias de 300 a 400 km e de 400 a 500 km. Conclui- se que a categoria animal “vaca” merece cuidado redobrado no momento do manejo pré-abate, já que são animais mais propensos a terem hematomas nas suas carcaças.

Desde seu lançamento, o programa Criando Conexões democratiza o conhecimento e fortalece o relacionamento com os pecuaristas, visto que o desenvolvimento dos vaqueiros proporciona um manejo mais humanizado do gado, melhorando a segurança no ambiente de trabalho, além de melhorias dos ganhos de peso, de taxa de concepção, de qualidade de carcaça e de redução da taxa de mortalidade. O programa já foi introduzido em mais de 1,8 milhão de cabeças de gado em fazendas de Norte a Sul do Brasil.

*Antony Paulo é coordenador técnico – Bem-Estar Animal da MSD Saúde Animal