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Afecções podais

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Problema afeta a produtividade das fazendas leiteiras brasileiras

Bruna Martins Guerreiro* e Janielen da Silva**

A tualmente, os problemas de cascos em bovinos tornaram-se uma enfermidade de destaque no cenário da pecuária leiteira mundial, devido ao grande impacto econômico que acarretam. Os prejuízos desencadeados são atribuídos, principalmente, ao descarte prematuro, à redução dos índices produtivos e aos altos custos com tratamentos dos animais acometidos. Por conta da elevada incidência dos problemas de casco em animais criados em sistemas intensivos, é importante estabelecer medidas eficazes de tratamento e de controle para minimizar as perdas produtivas.

Afecções dos cascos comprometem severamente a produção leiteira e a eficiência reprodutiva das fêmeas. Os animais acometidos apresentam dor intensa, o que provoca dificuldade de locomoção (claudicação) e de alcançar o cocho de alimentação, dessa forma, passam a permanecer deitados por longos períodos. Esse quadro inflamatório pode comprometer a fertilidade das fêmeas, promovendo aparecimento de folículos ovarianos persistentes, pouca demonstração de estro e elevado intervalo entre partos.

As afecções podais podem influenciar negativamente na produção e na reprodução dos bovinos. Com relação à reprodução, a claudicação e a dor dificultam a chegada do animal no cocho e a ingestão de alimentos, o que pode levar ao anestro das fêmeas. Esses sinais clínicos também causam estresse nos animais, reduzindo as taxas de fertilidade e prenhez, devido à redução na secreção de LH, concentração elevada de progesterona, baixos níveis de estradiol, inibição da dominância folicular e, consequentemente, redução da ovulação.

Diversos fatores podem ser responsáveis pelo aparecimento dos problemas de cascos em bovinos. Entre eles estão excesso de umidade, higiene deficiente, ausência de uso do pedilúvio, pisos abrasivos, traumas, falta de conforto nas instalações, problemas nutricionais, ocorrência de doenças sistêmicas e predisposição genética (defeitos de aprumos). É importante destacar, ainda, que o manejo dos animais pode ser associado às afecções dos cascos, principalmente quando os animais permanecem por longos períodos em estação reprodutiva.

Com relação à nutrição, a dieta dos animais pode ser um fator predisponente para a ocorrência de lesões de casco. Isso porque a deficiência de nutrientes pode levar a alterações de queratinização, dureza e alterações morfológicas. Vacas leiteiras de alta produção consumindo grandes quantidades de concentrado podem sofrer com acidose subclínica e, consequentemente, ter aumento das concentrações dos ácidos graxos, produzidos no rúmen e na corrente circulatória. Estudos indicam que esses ácidos, principalmente o butirato, podem levar ao problema de formação dos epitélios, predispondo a ocorrência de laminite, por exemplo.

Animais confinados, normalmente, apresentam maior porcentagem de afecções podais do que animais de pasto. O ambiente do confinamento é mais desafiador para os cascos, pois, além de existir pisos abrasivos, há maior concentração de umidade, urina e fezes, que pode levar ao amolecimento do casco, a lesões e a infecções bacterianas. Por isso que uma das medidas profiláticas para evitar esse tipo de lesão é o uso do pedilúvio, que tem a função de remover sujidades e materiais irritantes, desinfetar e fortalecer os cascos.

As afecções podais podem ser classificadas em inflamatórias ou infecciosas. Nas infecciosas, o contato frequente dos cascos com matéria orgânica possibilita que bactérias invadam os tecidos e instalem um processo infeccioso. Em processos infecciosos agudos, é necessário tratamento imediato, para evitar que ocorram lesões irreversíveis nos cascos e até mesmo nas articulações. Já nas afecções podais, que são somente inflamatórias, não existem bactérias associadas à sua ocorrência, sendo, muitas vezes, causadas por traumas e lesões. No entanto, o progresso destas pode levar a infecções bacterianas secundárias.

Escore 1 (Saudável): observa-se a linha do dorso do animal reta quando parado e em movimento. Membros bem apoiados no solo.

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Qualquer lesão nos cascos possibilita que bactérias invadam os tecidos e provoquem infecção. Os quadros podem variar de áreas restritas ou até mesmo acometer estruturas profundas. Os animais apresentam claudicação (manqueira) e sensibilidade ao toque, podendo ou não apresentar edema (inchaço) e hiperemia da região (vermelhidão). Em casos mais graves, pode ser observada a presença de secreção sanguinolenta, com odor pútrido fluindo pela lesão.

Escore 2 (Leve): observa-se que a linha do dorso do animal é reta quando parado, mas, durante a locomoção, apresenta-se levemente arqueada. Marcha pouco alterada.

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É imprescindível identificar as afecções podais para evitar grandes prejuízos econômicos na propriedade. Diante disso, o escore de locomoção é uma ferramenta de manejo que auxilia no levantamento da prevalência dos problemas de cascos no rebanho, na interpretação da severidade e na duração dos casos da propriedade. Essa avaliação é realizada por meio da observação dos animais se locomovendo sob uma superfície plana e classificada em graus:

Escore 3 (Moderado): observa-se a linha do dorso do animal levemente arqueada quando parado e em movimento. Marcha comprometida.

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Além do escore de locomoção, um programa eficiente de controle de lesões nos cascos deve identificar o tipo de lesão que está ocorrendo, para, assim, determinar os protocolos de tratamento e prevenção ideais. Os problemas de casco podem ser separados em primários ou secundários, sendo os últimos causados, normalmente, por agravamento das lesões primárias. Entre as afecções primárias estão: dermatite digital, dermatite interdigital, penarício e laminite. Já as afecções secundárias incluem úlceras de sola, abcessos, erosão do talão, tiloma, fissura vertical e horizontal.

Escore 4 (Severo): observa-se a linha do dorso do animal arqueada quando parado e em movimento. O animal procura retirar o peso do membro afetado. Marcha muito comprometida.

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As dermatites digital e interdigital, caracterizadas por feridas ou ulcerações superficiais na pele, são, normalmente, causadas por bactérias, sendo contagiosas. A afecção digital está localizada entre os talões ou na região de contato direto com a coroa do casco. Já a dermatite interdigital é uma inflamação superficial na pele localizada entre os dois dígitos (interdigital). Nesses casos, como se trata de uma doença infecciosa dos cascos, é importante o tratamento com antibióticos, além de anti-inflamatórios.

Escore 5 (Muito Severo): observa-se a linha do dorso do animal muito arqueada quando parado e em movimento. Nesses casos, o animal reluta em se movimentar e não apoia sobre o membro acometido. Marcha totalmente comprometida.

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O panarício, também conhecido popularmente como podridão de cascos, é uma afecção causada por agentes infecciosos, principalmente Fusobacterium necrophorum e o Bacteroides melaninogenicus, e também por outras bactérias, como Streptococcus sp, Staphylococcus sp, Corynebacterium sp e fungos. Essa doença está distribuída em todo o mundo e ocorre, principalmente, em ambientes sujos, úmidos e de alta densidade animal. A lesão inicia-se, comumente, com um trauma que provoca a invasão dos tecidos por essas bactérias.

A pododermatite asséptica difusa, ou laminite, está entre os problemas podais mais comuns em bovinos leiteiros e se caracteriza por ser um processo inflamatório das estruturas sensíveis da parede do casco. A laminite pode se manifestar de forma clínica ou subclínica. Na clínica, sinais evidentes estão relacionados à claudicação, ao aumento de temperatura no casco, à relutância em se movimentar, à congestão, ao edema e à dor na banda coronária do casco. A forma subclínica, que é a mais comum entre os bovinos, normalmente, não apresenta sinais clínicos evidentes, podendo evoluir para hemorragias de sola, talão e linha branca, além de úlceras, abcessos e outras patologias.

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Segundo Bruna, qualquer lesão nos cascos possibilita que bactérias invadam os tecidos e provoquem infecção

As lesões de casco primárias (dermatite digital, dermatite interdigital, penarício e laminite) levam à ocorrência das lesões secundárias (úlceras de sola, abcessos, erosão do talão, tiloma, fissura vertical e horizontal). Com relação às mais comuns, a erosão do talão, ou podridão, é definida como uma perda irregular do tecido córneo que pode evoluir para fissuras profundas e destruição do talão. Os animais com essa lesão apresentam dor, claudicação e dificuldade de locomoção, o que compromete a produtividade do mesmo. A erosão, normalmente, está relacionada a uma bactéria chamada Dichelobacter nodosus, que tem uma ação importante na destruição dos tecidos córneos devido à produção de proteases.

A úlcera de sola ou pododermatite circunscrita se caracteriza por lesão na derme na junção da sola/bulbo dos bovinos, com presença de hemorragia e necrose. Entre as possíveis causas dessa doença estão laminite subclínica, excesso de umidade e compostos químicos que causam o amolecimento das estruturas do casco e danos ao tecido córneo. Um inadequado casqueamento também está relacionado à ocorrência de úlcera, já que o animal começa a pisar de maneira incorreta, ocasionando excesso de pressão em uma única área.

Todas essas afecções causam enormes prejuízos aos produtores, e, por isso, a identificação precoce do animal acometido é importante para a evolução do caso. Dependendo do tipo de afecção, podem ocorrer lesões irreversíveis em ligamentos e articulações do casco (flegmão digital). Diante da severidade de alguns tipos de lesões, é importante estabelecer um protocolo de tratamento dessas afecções para evitar o agravamento das feridas.

*Bruna é técnica em Reprodução e Saúde Animal da Ourofino Saúde Animal **Dra. Janielen é analista técnica na Ourofino Saúde Animal