Entrevista do Mês

O poder da informação!

Entrevista

Em apenas um minuto, o pecuarista pode mudar o mercado do boi gordo no Brasil. É esse patamar que o Grupo Pecuária Bauru (GPB) – que, praticamente, trocou “Bauru” por “Brasil” em sua sigla – deseja alcançar em breve. Para conhecer a história do grupo e apresentar o balizador de preços GPB, ouvimos o pecuarista, coordenador e presidente Oswaldo Furlan Júnior.

Adilson Rodrigues
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Revista AG – A classe pecuarista tem a fama de ser desunida. O GPB tenta provar o contrário?

Oswaldo Furlan Júnior – Sentíamos falta de um grupo voltado exclusivamente para a pecuária, e assim foi feito o GPB, em 2014. Começamos aqui em Bauru/SP e, hoje, estamos com 58 grupos de WhatsApp e três outros no Telegram, totalizando 10 mil produtores. Fizemos muito trabalho em prol da pecuária no decorrer desses quatro anos, o que vai muito além de promover a união da classe. Sentimos necessidade de alguém para nos representar. Entidades de agricultura e pecuária, sindicatos rurais e até a própria CNA não têm feito esse trabalho tão importante de levar ao produtor informações técnicas, novos mercados, e, principalmente, de apoiar o pecuarista no momento de comercializar seus animais. As principais bandeiras do GPB são acompanhar os negócios realizados da arroba do boi gordo, vaca e novilha em tempo real, por meio do balizador de preços; levar o máximo possível de conhecimento ao produtor, trabalho que funciona com ajuda de um comitê técnico pelo qual convidamos pecuaristas a participarem de eventos técnicos gratuitos; e também vamos lançar, em São Paulo, a balança do produtor. Isso é algo que existe só em Goiás e no Mato Grosso por enquanto, e vai garantir o peso de abate real dentro dos frigoríficos. Também tem um projeto que envolve OAB, Receita Federal, Polícia Federal, Inmetro, Ministério Público, imprensa e produtores, no qual faremos denúncias dos donos de frigoríficos que manipulam a balança. Vamos lançar um projeto-piloto pelo qual faremos uma blitz em um desses frigoríficos, aqui em primeira mão para a Revista AG.

Revista AG – Quantos pecuaristas fazem parte da iniciativa? E, juntos, representam um rebanho de quantas cabeças?

Oswaldo Furlan – Há dois anos, fazíamos um inventário dos animais abatidos, mas crescemos muito, cerca de cinco vezes. Então esses valores, hoje, estão defasados. O que posso dizer é que temos um grupo específico de confinadores do estado de São Paulo, com 110 propriedades das quais já devemos ultrapassar a marca de 500 mil cabeçadas abatidas por ano. Exclusivo também para a AG, estamos sendo assediados por uma grande cooperativa do estado do Paraná, a Maria Márcia.

Revista AG – Na sua visão, qual o real valor da informação para os pecuaristas atualmente?

Oswaldo Furlan – Replico, aqui, o depoimento de alguns produtores do grupo: “eu estava prestes a largar a atividade e, com o GPB, me sinto seguro e próximo dos demais criadores”. E o GPB não é só mais um grupo de pecuaristas, tem médicos-veterinários, zootecnistas e agrônomos, os profissionais que dão todo o amparo técnico necessário. As pessoas dizem que trocaram a novela e o jornal para acompanhar o grupo mais de perto. Existe um carinho pelo GPB, porque ele possui muitas regras; não aceita bobagem. Mulheres também participam pelo “GPB Rosa”, que ainda vai unir forças ao NFA (Núcleo Feminino do Agronegócio).

Revista AG – Esse contato mais próximo permite alguns benefícios extras. Você poderia falar um pouco sobre isso?

Oswaldo Furlan – Um dos benefícios é a venda em grupo. A venda coletiva está em sua 19ª edição. Este é ainda um projeto-piloto desenvolvido pelo GPB da região de Bauru, que abrange apenas animais do estado de São Paulo. Alguns pontos importantes são que as vendas acontecem sempre com pagamento à vista, e o objetivo não é só preço, e sim a busca por melhores rendimentos de carcaça. Os inscritos que optarem pela comercialização no peso vivo precisam combinar diretamente com a indústria. Os direciopagamentos são creditados diretamente na conta-corrente do pecuarista. O GPB dispõe de assessoria de abate, mas, para tanto, faz-se necessário agendar o serviço.

Revista AG – A informação gerada pelo grupo tem ajudado o pecuarista a vender melhor o gado e no momento mais oportuno?

Oswaldo Furlan – Esse aí é o nosso carro-chefe. Antigamente, para o pecuarista saber se a arroba subiu, demorava até uma semana. Ele precisava ir até a padaria tomar um café com os amigos, ir a um leilão, ligar para muitas pessoas, inclusive ao frigorífico. Hoje, quando se lança uma informação de um negócio fechado em alta, cinco segundos depois o Brasil inteiro está sabendo. Com essa agilidade na comunicação, o boi sobe mais rápido e cai mais devagar, porque o pecuarista planeja a venda. Conseguimos trocar informação com muita facilidade. Fica fácil ligar para o gerente e suspender a venda, porque o mercado está em alta, por exemplo. A informação é o insumo da nova pecuária, e o planejamento é o fator que traz rentabilidade ao produtor.

Revista AG – Funciona igual para confinadores e invernistas?

Oswaldo Furlan – A diferença está apenas na sazonalidade em cada um deles. A venda forte de animais confinados ocorre de agosto a dezembro, já para os animais em semiconfinamento ocorre o inverso. A metodologia é mesma nos dois.

Revista AG – Mas todos os participantes estão dispostos a compartilhar a informação das praças que estão pagando mais?

Oswaldo Furlan – Esse é o equívoco da maioria dos produtores no Brasil. O pecuarista poderia ser mais participativo e colaborar mais com iniciativas como essa do GPB. Alguns deixam de participar por falta de conhecimento; outros, porque não sabem utilizar as redes sociais; um outro grupo, porque não tem acesso à internet ou está sem tempo. Mas aquele produtor que não estiver antenado no mercado vai ficar para trás. Já a pessoa que está no nosso grupo tem acesso a muita informação.

Revista AG – Como anda o comportamento do mercado?

Oswaldo Furlan – São Paulo vem com um preço de balcão de R$ 153,00 e registra negócios pontuais na ordem de R$ 155,00. O mercado segue firme. É a escala curta que define o preço de boi e ela já indica recuperação até este momento (18 de setembro). Acreditamos que, no final do ano, os preços voltem aos patamares de três anos atrás, quando a arroba do boi gordo atingia R$ 158,00. Vemos que ainda não superamos os efeitos negativos da Operação Carne Fraca e das delações premiadas de Joesley Batista.

Revista AG – Aproveitando o gancho, como essa proximidade entre os pecuaristas do GPB tem impactado a relação com os frigoríficos?

Oswaldo Furlan – Para nossa surpresa, os frigoríficos têm nos tratado bem. Abrimos canais que os produtores sequer imaginariam no passado, com acesso direto à diretoria de várias indústrias. Existe um ambiente saudável para negociar. A balança do produtor é um bom exemplo desse relacionamento, pois quatro empresas já autorizaram a instalação. Também ajudamos a melhorar as negociações do pecuarista, com pagamento à vista e melhoraria do rendimento de carcaça nos abates. Conseguimos, com o GPB, fazer que as indústrias fizessem um tipo de concorrência entre elas, o que, em São Paulo, resultou em um aumento de 1,3% no rendimento de carcaça porque conseguimos direcionar a produção às indústrias que oferecem melhor toalete.

Revista AG – O que é o balizador de preços do GPB?

Oswaldo Furlan – O balizador é uma reivindicação antiga de todos os produtores de gado porque há necessidade de mudança na metodologia de capitação dos preços da Esalq (Cepea). Reunimo- nos com os mais notáveis técnicos, estivemos em Piracicaba/SP e, por várias vezes, tentamos propor melhorias, só que não conseguimos mobilizar a empresa que coordena o indicador da Esalq – a B3. Então chegamos à conclusão de que iríamos lançar um índice próprio. Como nosso índice não serve, por enquanto, para firmar bases contratuais, demos o nome de Balizador GPB, de forma que viesse a ser um comparativo com o da Esalq. Com apoio dos pecuaristas, estamos conseguindo levar essa informação com seriedade e qualidade a todo o País. O balizador é um indicador no qual a indústria não tem influência. Além disso, os frigoríficos estaduais também passam a compor o indicador. Também mudamos a metodologia para que os pecuaristas saibam exatamente como o índice é feito, do preço-base ao final. Apontamos se entra certificação, cota Hilton, remuneração por acabamento, precocidade ou castração dos machos, informamos a distância entre comprador e vendedor, a escala da venda, se o animal é confinado ou semiconfinado, mostramos os inúmeros negócios realizados durante o dia e por estado. Isso é uma inovação, porque não permite barrigas de preço. Na Esalq, isso é uma verdadeira “caixa-preta”, porque o frigorífico informa apenas as negociações que lhe convém. O diferencial principal do balizador GPB é que as negociações são auditadas por nota fiscal. Temos mil produtores cadastrados no balizador e precisamos chegar, no mínimo, a 7 mil amostras para ter uma boa representatividade.

Revista AG – Mas como é possível os frigoríficos estaduais, que têm o SISP, pagarem melhor que os nacionais, donos do SIF e exportadores?

Oswaldo Furlan – Os grandes frigoríficos têm um volume forte de compra, exportam e possuem uma lucratividade maior que os estaduais. Por isso, nunca pagam acima do valor de referência (SP). Já os pequenos, para sobreviverem, têm de pagar mais ao pecuarista. E, justamente por pagarem mais, ficam fora do indicador da Esalq.

Revista AG – Na verdade, este não seria apenas mais um reflexo negativo do monopólio da JBS no mercado de abate do que uma diferença entre os selos de inspeção?

Oswaldo Furlan – Também não podemos excluir essa influência, porque, em alguns estados, ela têm 80% de monopólio, a exemplo de Pará, Rondônia, Goiás e Mato Grosso do Sul. Em São Paulo, não conseguiu monopolizar, porque existem mais de 40 indústrias.

Revista AG – O grupo esteve envolvido, recentemente, em discussões sobre a exportação de animais vivos. Isso mostra que o GPB está evoluindo do âmbito virtual para o institucional?

Oswaldo Furlan – Isso é uma prova irrefutável. Somos mentores em promover essa união de classes. A Sociedade Rural Brasileira e a Associação Brasileira dos Exportadores de Animais Vivos, sozinhas, não conseguiriam mobilizar tanta gente. O GPB é protagonista, porque proporciona um bom ambiente para negociações. Não tem passado, não tem vícios, o que permite reunir entidades em prol de um mesmo objetivo. Conseguimos segurar o projeto de lei, fizemos outdoors, engajamos nas redes sociais e ligamos para os amigos que tinham algum representante na câmara legislativa para que fizessem pressão. Na verdade, houve muita falta de conhecimento por parte dos pecuaristas nesse assunto, e a frase que mais ouvia na assembleia, em São Paulo, era: “vocês, que são os interessados, não vêm aqui se defender e acham que nós vamos bater de frente com essa gente”. Ainda bem que conseguimos mobilizar os produtores a tempo. O governador de São Paulo foi um pouco infeliz ao deixar de avaliar a questão como um todo. As exportações de gado vivo no estado estão sendo feitas a partir do porto de São Sebastião.

Revista AG – Já vemos praças pagando R$ 150,00 na arroba do boi inteiro. Como devemos terminar o ano?

Oswaldo Furlan – Neste mês (setembro), identificamos uma escassez de produto. Os frigoríficos estão fazendo de tudo para segurar o preço do boi gordo, às vezes até matando um pouco mais de fêmeas. Outras indústrias que detêm 70% ou 80% do mercado preferem já abater porque conseguem um preço melhor e fazem a desossa em São Paulo, evitando que o valor de referência suba. Temos exemplos de frigoríficos grandes aqui que procuram segurar as escalas. O mercado segue firme, a exportação de carne bovina vai muito bem e tende a subir ainda mais porque os chineses estão só começando a comprar. Devemos caminhar para uma normalidade a partir de 7 de outubro, com a demanda interna dando sinais de recuperação. Ela é o carro-chefe da valorização da arroba.

Revista AG – Como os interessados fazem para ingressar no GPB?

Oswaldo Furlan – Basta ser pecuarista e fazer contato com o zootecnista Luís Roberto Zillo por WhatsApp ou, especialmente, Telegram pelo número (14) 9 9762- 8515, que ele faz o cadastro e libera o acesso à planilha do Balizador GPB. Ele é o diretor-executivo do grupo. Também temos um grupo de lideranças do agro, no qual adicionamos apenas o presidente, o vice e o secretário. Já estamos com 42 entidades de todo o Brasil. Além desse, temos o grupo GPB Indicador, formado apenas por pessoas que entendem de metodologia econômica, estatística e que sejam operadores do mercado ou que trabalhem em bolsa de valores.