Feno & Silagen

SUPLEMENTAÇÃO A CAMPO

Feno

Ao inserir 1% de suplementação via silagem, pode-se aumentar o número de animais por área em 33%

Odilene S. Teixeira*, Telis Adolfo Cumbe**, Eduardo Lisbinski*, Júlio Barcellos***

A estratégia alimentar complementar mais utilizada na produção de bovinos é a adição de concentrados na dieta, a qual pode ser proteica e/ou energética. No entanto, dependendo da região, pode haver instabilidade na produção de grãos devido a intempéries climáticas ou acréscimos dos custos para produção e, consequentemente, a elevação no preço dos grãos.

Nesse contexto, para complementar a alimentação, existe a alternativa da suplementação volumosa, como as forragens verdes (capineiras), as silagens ou fenos, os quais se diferenciam no momento de corte pelo teor de matéria seca (MS) da planta, tipo de armazenamento, assim como na qualidade bromatológica do material utilizado.

Entre elas destaca-se a silagem de milho ou sorgo, pois, além de apresentar custo de produção relativamente baixo, apresenta alta produtividade por área, boa qualidade nutricional e com elevados teores de energia. Além de ser uma complementação para o bovino em situações que a oferta de forragem está reduzida, permite também constância no seu desenvolvimento produtivo, intensificando a produção de carne e/ou leite.

Contudo, a economicidade do sistema será dependente da fonte de aquisição da silagem ou da produtividade por área. Se esta for produzida na propriedade, os custos podem ser reduzidos pela metade. Se for comprada, deve-se fazer levantamento de preço, da logística para o transporte e, sobretudo, da qualidade do material ensilado.

Para isso, recomenda-se fazer uma listagem de quem são os fornecedores mais próximos, os preços praticados no mercado e o custo do transporte da silagem até a propriedade. Com essa relação em mãos, a efetivação da compra se dá por meio da análise de dois aspectos: 1) preço final da matéria seca e 2) qualidade nutricional da silagem. Essas mesmas simulações devem ser feitas com os grãos a fim de compará-los (suplementação volumosa ou concentrada) e para identificar o alimento que irá proporcionar maior eficiência produtiva e econômica no sistema de produção.

Nesse sentido, um bom planejamento financeiro é essencial, para a escolha da melhor suplementação a ser inserida na alimentação animal. E, também, o gerenciamento dos recursos humanos, pois, ao adicionar a silagem como fonte de suplementação, essa requer maquinários específicos (desensiladeira) para agilizar o processo e otimizar a mão de obra, como citado no texto publicado na Revista AG (setembro/2018, nº 220).

As estratégias de adição da suplementação com silagem a campo vão depender do propósito do produtor, podendo ser ofertada para manutenção do desempenho dos bovinos, incremento no ganho de peso, melhora na condição corporal ou, ainda, para aumento na taxa de lotação que leva à intensificação do sistema de produção. Assim, a silagem pode ser empregada para manter a produtividade e/ou a intensificação do sistema.

Aspectos de manejo no uso de silagem
É importante ressaltar que a silagem é o carro-chefe de dietas para terminação de bovinos em semiconfinamento ou confinamento em conjunto com concentrado. Portanto, o uso na suplementação a campo se dá de forma estratégica.

No Sul do Brasil, a pastagem natural diminui o seu crescimento no período de inverno, devido às características climáticas dessa região, com predomínio de baixas temperaturas e geadas. Consequentemente, nessa estação, haverá menor disponibilidade de pasto para os bovinos.

Até mesmo o produtor que insere pastagem cultivada no sistema terá de dois a três meses de vazio forrageiro até o estabelecimento dessa pastagem. Já no Sudeste e no Centro-Oeste do Brasil, o período de inverno se caracteriza por apresentar longo período de seca, sendo um clima que dificulta o desenvolvimento das pastagens. A partir desses dois exemplos, percebe-se que a oferta de silagem passa a ser uma opção para bovinos, como forma de compensação alimentar em sistema de produção suscetível à sazonalidade de produção de pastagens.

Nesse contexto de escassez de alimentação volumosa, a prioridade de suplementação com silagem vai depender dos objetivos do produtor e do sistema de produção. Dessa forma, em propriedades de ciclo completo, a preferência é dada para bovinos em crescimento (bezerros e novilhos), seguido de vacas em gestação, touros e, por último, vacas vazias. Essa ordem corresponde à maior exigência nutricional dos animais, por isso, bovinos em crescimento devem receber cuidados imediatos para não comprometer o seu desenvolvimento e retardar a idade ao entoure (fêmeas) ou abate (machos).

Nesse sentido, a inserção da silagem para bezerros pode ser uma possibilidade. Por exemplo, na recria de bezerros, com 250 kg, estes apresentam um consumo de 2,7% do peso vivo, assim, se houver suplementação com silagem na proporção de 1% do peso vivo, os animais apresentarão um consumo de 7,6 kg de matéria verde/cab/dia de silagem e 12,90 kg de matéria verde/dia de pastagem.

Essa estratégia de manejo disponibiliza ao animal maior consumo de nutrientes, que pode manter o ganho de peso ou melhorá-lo. A utilização de silagens, em bovinos jovens, geralmente deve estar associada à complementação proteica, visto que, nesse momento, os animais estão em desenvolvimento muscular

Por outro lado, se o sistema de produção não está pautado em baixo recurso forrageiro, a prioridade do fornecimento da silagem pode ser diferente da apresentada anteriormente, como uso da silagem para a terminação de matrizes vazias e aumento do escore de condição corporal das matrizes de cria e reprodutores do rebanho.

A terminação de matrizes de descarte a campo com suplementação volumosa é possível, pois são animais com menores exigências nutricionais, por isso, conseguem responder rapidamente (ganho de peso). Dessa forma, o fornecimento de 1% do peso vivo de silagem de milho em pastagem natural pode aumentar em 300 gramas o ganho médio diário, refletindo em antecipação do abate. Consequentemente, é possível aproveitar os períodos de baixa oferta de animais para a comercialização e aumentar o retorno financeiro dentro do ciclo pecuário.

No rebanho de cria, o aumento da energia da dieta de matrizes de corte, por meio da suplementação, pode melhorar o desempenho reprodutivo. Desse modo, a suplementação no pré-parto pode aumentar o peso, manter o escore de condição corporal e diminuir o intervalo entre partos. A suplementação no pós-parto pode aumentar a taxa de concepção e a produção de leite das matrizes, acarretando bezerros mais pesados ao desmame. Além disso, o fornecimento de silagem para os touros 60 dias antes do período reprodutivo, ou seja, no pré-entoure, melhora a capacidade de serviço.

Outro benefício do fornecimento da silagem para animais mantidos a campo é a intensificação do sistema de produção, pois, à medida que se oferta silagem, o consumo da pastagem pelos bovinos diminuirá, desse modo, aumentará o número de animais que poderão ser alimentados na mesma área. Por exemplo, ao inserir 1% de suplementação via silagem, pode-se aumentar o número de animais por área em 33%, já que ocorre um efeito substitutivo no consumo por existirem similaridade nas características da pastagem e da silagem.

Não apenas em sistemas de produção extensivo, mas em sistema mais intensivo, no qual o produtor possui pastagem cultivada para o rebanho, a oferta de silagem pode ser adicionada ao final do ciclo vegetativo dessa pastagem. Nessas condições, a pastagem apresenta qualidade e quantidade inferiores ao início do ciclo, sendo assim, a silagem entra no sistema para complementar esse déficit.

Apesar de se mencionarem alguns exemplos da utilização da silagem a campo, adverte-se que o fornecimento, assim como qualquer outro alimento, deve-se fazer somente após se determinar: 1) a categoria animal; 2) os requerimentos nutricionais; 3) os ganhos esperados; 4) o estado nutricional; 5) o custo econômico; e 6) a disponibilidade do ingrediente.

Fornecimento da silagem
Embora se tenha em mente os benefícios da suplementação dos animais com silagem, é preciso lembrar que seu fornecimento poderá aumentar a operacionalização na propriedade, visto que a desensilagem e a distribuição devem ocorrer diariamente. No entanto, tem-se maquinários automatizados que facilitam o trabalho com economia de tempo e recursos humanos.

O fornecimento da silagem pode ser feito por meio do uso de cochos na pastagem. Nesse caso, deve-se calcular a área de cocho por animal, para evitar brigas e exclusão de animais mais frágeis e menos dominantes. Essa suplementação deve ser calculada para evitar sobras, pois o material que permanecer para o dia posterior, provavelmente, estragará, e os bovinos não irão consumir.

Além disso, pode-se optar pelo autoconsumo. Se o silo for do tipo superfície ou bolsa, coloca-se uma proteção física (estrutura de ferro, por exemplo) na abertura do silo e proteção lateral (fio de choque), dessa forma, os animais terão acesso restrito e podem se alimentar diretamente no silo. Para mais informações a respeito de autoconsumo com silagem, consulte esta seção na Revista AG (setembro/ 2018, nº 220).

*Odilene Teixeira e Eduardo Lisbinski são zootecnistas e doutorandos do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS

**Telis Cumbe é engenheiro- -agrônomo-pecuário e mestrando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS

***Júlio Barcellos é veterinário e doutor – NESPro/UFRGS [email protected]