O Confinador

CONFINAMENTO

Uma estratégia de lucratividade que precisa ser planejada

Luiz Henrique Dantas Carrij*

A demanda crescente por alimentos e a diminuição de áreas produtivas no Brasil evidenciam a necessidade de evolução e incremento de tecnologias que impulsionem a produtividade na pecuária. Se compararmos a criação de animais com a agricultura, a primeira já sairá na desvantagem pelo desequilíbrio entre os níveis tecnológicos com que são conduzidos na maioria dos projetos pecuários no País, já que a produção a pasto apresenta limites operacionais ou mesmo de área.

Isso, porém, não significa que a pecuária não avançou nos últimos anos. Segundo dados da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) de 1990 a 2017, a produtividade da pecuária nacional aumentou 146%, passando de 1,63 @/ha/ ano para 4,01 @/ha/ano. Nesse mesmo período, 235 milhões de hectares deixaram de ser desmatados, e a expectativa da entidade é de que, até 2027, a produtividade da pecuária deve crescer 45%, o que liberaria 10 milhões de hectares em área.

Esses dados reforçam que a tendência da pecuária é verticalizar, alcançando melhor aproveitamento em áreas cada vez menores. A técnica de confinar bois, por exemplo, pode ser usada de forma estratégica para aproveitar melhor os recursos disponíveis na propriedade, uma opção de manejo para aliviar os pastos na seca, aumentar o giro da fazenda, colocar no mercado uma carne de melhor qualidade e aumentar a produção do produto por área, além da possibilidade de o produtor conseguir preços melhores de venda dos bois.

Por meio da técnica, é possível, ainda, enviar animais para acabamento em confinamentos de terceiros nas modalidades de pagamento de diárias e/ou parcerias, estratégia muito interessante para aquele produtor que intensifica a recria de seus animais no período das águas, produzindo uma arroba com custo mais baixo e utilizando o confinamento para realizar o acabamento dos animais e liberar as áreas de pastagem da propriedade no período seco.

Mesmo com os avanços em termos de manejo de pastagens e estratégias de produção de carne a pasto, o confinamento não deixa de ser essencial quando falamos de rentabilidade e competitividade da pecuária de corte. Ainda com as evoluções tecnológicas na produção a pasto, essas apresentam limites operacionais ou mesmo de área, e que fazem do confinamento uma opção viável para aumento de produtividade.

No entanto, por ser uma estratégia de ciclo curto, de 80 a 120 dias, em média, deve ser muito bem planejada e conduzida para proporcionar o máximo retorno sobre o capital investido. Qualquer que seja a escolha do pecuarista, alguns pontos são fundamentais para o sucesso da atividade e a maximização dos lucros.

Manejo pré-confinamento
Com foco na fase final da engorda, muitas vezes, nos esquecemos que o manejo inadequado no pré-confinamento pode prejudicar os ganhos zootécnicos. É comum observarmos casos em que o ganho de peso dos animais nesta etapa serve apenas para recuperar algo que ele perdeu antes.

Um estudo recente, elaborado pelo pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), Gustavo Rezende Siqueira, apontou que o manejo inadequado pré-confinamento pode gerar queda de até 10% no desempenho animal.

Nesse sentido, é importante considerar a suplementação a pasto antes do confinamento. Pesquisas mostram que essa prática ocasiona desempenho superior, principalmente quando se avaliam índices de conversão alimentar, eficiência biológica, ganho em carcaça e quantidades de arrobas produzidas.

Com uma nutrição prévia adequada, mesmo que o animal viaje longas distâncias, as chances de resposta no confinamento são muito favoráveis. Sendo assim, o pecuarista pode trabalhar de 30 a 60 dias antes de esse animal ir para o cocho para a pré-adaptação na fazenda.

Qualidade genética dos animais
Outro fator importante que afeta a performance dos animais no confinamento é a genética. Gados geneticamente superiores têm melhor desempenho zootécnico, com maiores ganhos em peso, conversão alimentar e eficiência biológica.

Para isso, o pecuarista precisa avaliar as condições da fazenda e escolher os melhores animais para reprodução do rebanho, considerando as características de clima, de região e o tipo de mercado que deseja atingir com a produção final. Todos esses fatores influenciam no desempenho final do gado e, consequentemente, no do produto final.

Planejamento alimentar do confinamento
Assim como o manejo pré-confinamento, é fundamental que o pecuarista estabeleça uma estratégia de escolha e compra dos insumos que serão usados para composição das dietas. Essa prática facilita a programação do confinamento e pode garantir boas oportunidades de aquisição dos produtos a preços atrativos.

Nessa etapa, é importante considerar as opções de compra e os mecanismos de trava e segurança dos preços para que a rentabilidade desejada seja alcançada no final do ciclo produtivo.

Manejo de fornecimento da dieta
Mas como definir o fornecimento da dieta? Nessa fase, o produtor precisa considerar a estrutura física do confinamento, quantidade e qualidade dos equipamentos disponíveis, além da variação média da temperatura ambiente. Para isso, é preciso realizar a verificação regular do clima por uma equipe externa ao confinamento. Sem esses cuidados, a melhor genética e a melhor estratégia da dieta não terão o efeito esperado.

Avaliações constantes de desempenho
É fundamental, também, coletar e analisar regularmente os dados de desempenho dos animais, assim é possível verificar se o que foi programado está sendo alcançado e, o mais importante, se algo precisa ser corrigido. Sem essa atividade diária, toda a programação inicial pode se perder no meio do processo e o resultado final ficar comprometido.

Controle de fornecimento de dieta e custos do confinamento
O fornecimento das dietas e, consequentemente, o custo da atividade também devem ser controlados diariamente através do preenchimento de planilhas e/ou programas específicos, que emitirão relatórios diários para serem analisados pela equipe do confinamento e também por uma equipe externa. Atualmente, diversos programas realizam a análise dos dados e podem auxiliar durante todo o processo do confinamento, corrigindo as deficiências e apontando os avanços da estratégia.

Comercialização
Outro ponto fundamental para o alcance de bons resultados na estratégia do confinamento é pensar na etapa de comercialização, seja ela de insumos ou do gado. As políticas de trava de preço podem significar maior rentabilidade na conta final. Para isso, existem diversas opções que visam proteger contra sazonalidade da mercadoria, auxiliar nas tomadas de decisão sobre confinar ou não os animais e atenuar as ameaças de uma compra de reposição após a safra.

A vantagem dessa prática é ter a segurança de determinar o preço da produção produção em uma data futura e garantir a margem da operação de confinamento. Ou seja, não ficar à mercê de quem compra a sua matéria-prima ou do risco de mercado no momento da venda do boi gordo.

Uma opção é o mercado futuro, no qual é possível travar um preço de venda dos grãos e/ou das arrobas. Nele, o pecuarista define o preço de venda, ou seja, independentemente da oscilação do mercado, a soma dos resultados obtidos no mercado financeiro com o da venda dos bois no mercado físico será aquela feita no momento da “trava”. Isso funciona tanto no mercado em alta como em queda.

Luiz Henrique avalia que o pecuarista precisa estar atento a todas as variáveis da produção

Outra ferramenta de liquidação financeira é o mercado de opções, que podem servir tanto para fins especulativos – ou seja, apostar na alta ou na queda de preços do boi gordo – quanto para auxiliar o pecuarista a se proteger de riscos de oscilação de preços da sua produção no momento da comercialização. Basicamente, o produtor comprar uma opção de venda – ou put, no jargão do mercado – determina apenas o preço mínimo para sua produção, ou seja, é um seguro de preços – caso o mercado caia abaixo daquele valor, ele receberá tudo o que estiver abaixo do valor segurado. Mas, caso o mercado suba, você poderá aproveitar a alta do mercado. Essa alternativa não implica depósito de margem de garantia nem ajustes diários, o único desembolso ocorre no momento da compra da opção, e, por essas características, ela é a mais indicada para a maioria dos produtores.

Já o mercado a termo é, basicamente, um acordo entre duas partes para comprar ou vender uma mercadoria, ou um ativo, em data futura pré-estabelecida e por preço pré-determinado, com pagamento à vista ou a prazo. Esse tipo de comercialização, da mesma forma que os anteriores, valem tanto para o produto final – boi gordo – quanto para os insumos. A evolução do mercado a termo resultou no mercado futuro, que se caracteriza por uma maneira de tanto o vendedor como o comprador eliminarem o risco de flutuação indesejada no preço. Não é arriscado dizer que esse mecanismo é um dos mais utilizados atualmente nas negociações com boi gordo.

As atividades agropecuárias estão em constante mudança, e o pecuarista precisa estar atento a todas as variáveis da produção. Novas tecnologias de nutrição, manejo, genética, comercialização, saúde animal, entre outros, vêm colaborar com o avanço do setor produtivo. Do lado de dentro da porteira, o produtor deve aproveitar todas essas “novas” ferramentas, que, até poucos anos atrás, não existiam, para ter cada vez mais lucro na criação do gado.

Pensando na necessidade de toda programação e estratégia relacionada ao confinamento, a Integral/Nutron, marca de Nutrição da Cargill, realiza o trabalho de orientação a campo, auxiliando clientes no planejamento, na condução e na gestão dos negócios, sempre com o foco no lucro da atividade.

A empresa também realiza frequentes treinamentos com a equipe de técnicos e clientes, objetivando qualificar cada vez mais a mão de obra responsável pelo dia a dia das fazendas e que tem um papel fundamental para se alcançar os objetivos que foram traçados para o negócio.

Vale lembrar que o confinamento é uma ótima estratégia, mas o passo a passo da técnica precisa ser muito bem pensado e planejado, para que, no final do ciclo, o pecuarista tenha o retorno desejado, e o mercado, como um todo, a produção de carne de qualidade

* Luiz Henrique é gerente técnico da Integral/Cargill Nutrição Animal