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TOP 0,1%

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A faca de dois gumes da avaliação genética

Adilson Rodrigues
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O melhoramento genético de bovinos no Brasil – em especial, o das raças zebuínas – passou por transformações importantes que ajudaram a carne brasileira a ser uma das mais exportadas em todo o mundo.

Até 30 anos atrás, a grande vitrine de reprodutores eram as pistas de exposição. Antes, tinha o intuito de levar ao limite o potencial produtivo dos animais e, mais tarde, tornou-se uma forma de agregar valor venal aos animais ditos de elite.

Com o surgimento dos programas de avaliação genética – sendo alguns, desde o início, já vinculados ao Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip), selo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) a programas que na chancela da pasta são realmente melhoradores –, inaugurou-se uma nova era na pecuária brasileira.

A morfologia deu passagem aos – inicialmente complicados – números dos sumários de touros. As centrais de inseminação artificial, então, passariam a observar esse mercado mais de perto até o ponto de trocarem a roseta de Grande Campeão pelas diferenças esperadas na progênie (DEP) como fator decisório. Já não bastava ser robusto, ele precisava ser provado perante sua progênie.

Para tanto, passou-se a dar maior ênfase ao perímetro escrotal, peso à desmama, ao sobreano, e, mais tardiamente, rendimento de carcaça e outra infinidade de características que, hoje, somam 35 apenas no sumário da Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores (ANCP), sucessora natural dos ensinamentos de Arnaldo Zancaner, pesquisador que trouxe o conceito de avaliação genética para o Brasil.

Os programas encorparam, ganharam adeptos de Norte a Sul do Brasil, cresceram em número e melhoraram drasticamente a acurácia das DEPs monitoradas, contando, inclusive, com o apoio da tecnologia genômica, já consagrada em países como os Estados Unidos, a grande referência mundial em taxa de desfrute do rebanho e produtividade animal.

A avaliação genética caiu no gosto do pecuarista. A análise setorial do mercado de touros, publicada, anualmente, no Guia do Criador, bem como no levantamento Top 100 – Os maiores vendedores de touros do Brasil, aponta que as DEPs agregaram valor aos animais, e, sem elas, o reprodutor não se credencia para ser um doador de sêmen, como já antecipado na matéria de capa da Revista AG (maio/2012, nº 156).

Por esse motivo, o sumário de touros é a primeira consulta dos pecuaristas na estação de monta antes de irem às compras, e as DEPs também passaram a constar em muitos dos catálogos de leilões. O sumário nada mais é que uma forma de ranquear touros provados a partir de seu mérito genético.

O mérito genético, por sua vez, é calculado a partir da ponderação das características avaliadas, na qual cada uma delas recebe uma importância maior ou menor. Ainda hoje são relatadas diferenças entre os programas que valorizam mais o ganho de peso e aqueles que focam mais na qualidade de carcaça.

Desse ranqueamento, nasce o índice Top, no qual o indivíduo mais bem qualificado é o melhor em mil, ou Top 0,1%. O indicador também pode ser atribuído a características isoladas, como ser Top 0,1% em peso à desmama, por exemplo. Em suma, todos os programas de avaliação possuem esse índice econômico com o propósito de facilitar a análise e a ordenação dos touros com maior potencial de transmissão genética.

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Eduardo Coelho credita o aumento nas vendas de sêmen da Genética Aditiva à consolidação dos touros avaliados

“Os touros Top 0,1%, como o próprio nome diz, estão no topo dessa lista, sendo os que têm maiores DEPs para as características econômicas”, explica Eduardo Folley Coelho, um dos proprietários da Genética Aditiva. Segundo ele, a experiência de 30 anos de seleção da propriedade comprovou que os reprodutores mais valorizados detêm avaliação genética superior.

“É isso que o mercado procura. É uma comprovação de que touros bem avaliados trazem bons resultados, pois, se a progênie não agrada, o pecuarista troca o fornecedor de genética”, relata o criador. Aliás, a qualificação Top 0,1% tem sido o grande propulsor dos lances nos mais variados remates.

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“Top 0,1% é uma utopia. É um número legal, mas na minha fazenda não serve”, afirma Carlos Eduardo Novaes

Nos últimos anos, o mercado de produção presenciou muitas quebras de recordes na venda de touros, luxo antes comum apenas na pecuária seletiva. Talvez o melhor exemplo seja o reprodutor REM Caballero, cuja cota de 10% foi arrematada por nada menos que R$ 465 mil.

Onde começa o problema
A busca constante pela nata dos programas de melhoramento genético gerou uma corrida frenética pelo Top 0,1%, às vezes pouco importando se o animal é qualificado no índice geral, em apenas uma DEP ou pior ainda, se é negativo em outra, além de fatores alheios que boa parte dos sumários não consegue incorporar. É nesse ponto que nasce o perigo.

“Top 0,1% quer dizer que o indivíduo é bem avaliado na ponderação de características que formam determinado índice, mas ele pode ter alguma coisa que não seja interessante para um rebanho específico”, alerta o zootecnista e colunista da Revista AG William Koury Filho, que tratou do tema recentemente em “Brasil de A a Z”.

Ou seja, nem sempre o melhor touro para o plantel é o Top 0,1%. Ele pode esconder um problema grave de funcionalidade e ser tardio ao abate, o que nem sempre a régua de DEPs permite interpretar com facilidade. “Agora, se for um touro sem defeito morfológico e que possua o biótipo desejado pelo pecuarista, está ótimo. Não é defeito ser Top 0,1%, mas não é porque é Top 0,1% que é bom para tudo”, explica Koury Filho.

O médico-veterinário Fernando Velloso, também colunista da AG, em “Do pasto ao prato”, e especialista no assunto, compara o Top 0,1% a um Camaro amarelo: “o pecuarista, assim como o motorista, tem necessidades diferentes conforme o tipo de atividade que ele conduz, a estrada que ele percorre. Simplificando, é dizer que o mesmo modelo de carro, ou touro, serviria para todo mundo”.

Entretanto, há muito motorista “derrapando na curva” porque comprou o melhor carro sem conferir os desafios da estrada, denotando desinformação ou até falta de interesse no tema. “É importante lembrar que nunca se falou que basta ser Top 0,1% ou que somente os animais Top 0,1% são bons para o pecuarista. Por outro lado, desde que não haja defeitos desclassificatórios, é correto dizer que o Top 10% é melhor que o 20%, por exemplo”, lembra Argeu Silveira, diretor técnico da ANCP.

Apesar da lógica matemática, vem sendo difícil frear o ímpeto de compra dos consumidores que o tomam como referência, principalmente aqueles alheios às nuances do melhoramento genético, caso dos criadores recém-chegados à pecuária. “Veja o exemplo dos produtores de soja, que, hoje, produzem 90 sacos por hectare. Vamos tentar convencê-los a não usar as melhores sementes? Eles não vão aceitar. Com o touro é a mesma coisa”, compara Silveira.

Cuidado com peso ao nascer
Ainda assim, fica a dúvida se a melhor semente teria o melhor potencial de germinação em todo o tipo de solo. Na pecuária de corte, o equivalente seria a facilidade de parto, algo que grandes programas de avaliação genética deixaram de monitorar, na contramão daquilo realizado na DEP norte-americana, na qual ela é a primeira característica a ser observada.

“Os programas ponderam a característica de peso em diferentes idades, principalmente ao sobreano. Geralmente, por correlação, a gente tem um peso maior ao nascer também. Então, se selecionar só por Top 0,1% vai ter mais problema de parto futuramente. Basta observar os líderes de sumário”, alerta Koury Filho.

A observação do zootecnista reacende uma velha discussão, pois alto peso ao nascer era uma queixa frequente quando da utilização de genética oriunda dos grandes campeões das pistas de exposição. Requer planejamento no acasalamento para que o touro ou sêmen não seja destinado a novilhas primíparas ou àquelas de menor frame (tamanho).

O Gado Holandês sofreu quando a seleção caminhou apenas para performance. Os animais perderam funcionalidade, rusticidade e comprometeram os cascos e o aparelho reprodutivo, além de ficarem mais exigentes quanto ao aporte nutricional. O mesmo é visto no Nelore e pode ocorrer em qualquer outra raça.

Alguns programas de avaliação genética oferecem mecanismos interessantes para orientar os acasalamentos, como o MAXPAG, da ANCP, que, além do controle da consanguinidade futura, possui filtro por características. “Aplicamos filtros que entregam de três a quatro possíveis touros para cada vaca. Escolhemos o reprodutor que melhor corrige suas deficiências morfológicas”, comenta Eduardo Coelho.

Em resumo, a ferramenta facilita a gestão dos reprodutores, permitindo lidar com características fracas ou até negativas. Ainda assim, não exime o produtor de pesquisar sobre outras qualidades essenciais.

Há uma necessidade latente de analisar a curva de crescimento dos bovinos de produção criados a pasto no Brasil, os quais não podem ter peso adulto elevado e serem exigentes em termos de mantença.

O desequilíbrio dessa balança – entenda por uso do touro errado – compromete seriamente a performance reprodutiva da vaca zebuína, atributo responsável por fazer a raça Nelore galgar o atual patamar.

Mais leite significa bezerro mais pesado ao desmame, mas traz junto com a alta produção queda na fertilidade da vaca, em virtude do comprometimento do escore corporal. Já propriedades com boia farta podem investir pesado na prenhez aos 14 meses, podendo explorar todo o potencial da DEP stayability (longevidade), para que se multipliquem jovens matrizes capazes de gerar ao menos três partos até os 72 meses de idade.

Faca de dois gumes
Adquirir a nata dos programas de avaliação genética acarreta alta expectativa para correção dos defeitos genéticos de um rebanho. O pecuarista do ciclo de cria almeja desmamar um bezerro mais pesado, o invernista busca maior peso ao abate, o confinador deseja elevar o rendimento de carcaça dos novilhos e o selecionador trabalha de forma mais minuciosa, com o intuito de produzir um rebanho equilibrado.

Pelo menos, esse era o plano de Carlos Eduardo Novaes, conhecido entre os neloristas como Cadu, que, há 53 anos, dedica-se à raça zebuína. Para surpresa do experiente criador, os touros mais bem avaliados nos programas de avaliação genética trouxeram consigo graves problemas. “Esse negócio de Top 0,1% é uma utopia. É um número legal, mas, na minha fazenda, não serve”, contesta Cadu.

Segundo ele, o criador sem experiência em criação comercial de bovinos acredita que o Top 0,1% seja o melhor, mas acaba adquirindo um touro com defeito de aprumo, umbigo quase arrastando no chão, e ainda com exposição de mucosa, para soltar em pasto sujo ou em pastagem nativa do pantanal mato-grossense. Problema na certa.

Imputa no relato os partos distócicos causados pelo peso exagerado do bezerro ao nascer. “Se você pegar o sumário da ANCP ou da ABCZ para os 20 melhores touros para peso, eles registram peso ao nascer muito acima do normal, o que gera problema de parto e mortalidade de bezerros”, adverte Cadu.

O titular da Fazenda Crioula critica o problema da supervalorização dos touros Top 0,1% com autoridade e utiliza seus próprios reprodutores como exemplo. Ele diz que um animal dele, CEN 3348 Lambisco, liderou o sumário da ANCP por seis anos na DEP MP 120 (maternal), perdendo o posto para Quaraçá 10 da Baucuri, em 2018.

Explica que esse touro é ótimo para corrigir habilidade materna, mas quem utilizá-lo em vacas sem essa necessidade específica vai desmamar bezerros muito pesados, desgastando a vaca, que não reconceberá na próxima estação de monta. “Também tenho um touro em primeiro lugar na Alta Genetics em peso ao sobreano, só que ele é negativo em outras características, entre elas, habilidade materna”, informa Cadu. Ou seja, é preciso investigar como, quando e onde utilizar o touro Top 0,1%.

Depois de tantos imbróglios, Cadu ofertará 100 touros a menos em seu próximo leilão e também decidiu banir os índices Top dos catálogos dos seus remates. Ele destaca apenas como os touros estão em habilidade materna, peso ao sobreano, perímetro escrotal aos 450 dias, vigor do bezerro ao nascer, se o parto foi normal e atribui uma nota de morfologia.

“A diferença entre um Top 5% e um Top 0,1% é muito pequena. Se o Top 0,1% gerar perda de 3% dos bezerros ao nascimento, é melhor usar um reprodutor que não vá gerar esse problema, mesmo que apresente peso um pouco menor ao sobreano”, compara o experiente criador, que julga bons os animais com índices entre 10% e 15%, desde que sejam mais equilibrados em suas características.

Nem todos os programas possuem touros ranqueados entre os 0,1% e 0,9%, estando os melhores identificados próximos do percentual sugerido por Cadu. É o caso da Delta Gen. “A DeltaGen trabalha com decas, ou seja, faixas de 10%. Então, em média, os nossos associados não se preocupam com o Top 0,1%. Eles querem animais que sejam CEIP e estejam na cabeceira do sumário”, ressalta Rodrigo Dias, gerente técnico no programa.

Escolha o gume certo
De acordo com o gerente, todo o índice de qualificação genética de um programa de melhoramento é ponderado de forma empírica e representa aquilo que os criadores acreditam ser necessário à seleção de animais mais produtivos.

“É bom conhecer o índice, selecionar por ele, mas também pensar em outras características”, esclarece, enfatizando ser essencial o animal possuir boa avaliação, além de ser importante, do ponto de vista funcional, ter bons aprumos, boa ossatura, bom posicionamento de membros, prepúcio corrigido, linha de dorso forte, pigmentação firme e ser harmônico.

“Precisamos ficar com um olho no peixe e outro no gato. Não olhar para as deps é uma tremenda estupidez, e só focar nelas também. Devemos interpretar os números, mas não podemos deixar de ir para o curral”, emenda o colunista da AG, William Koury .

E até qual posição um touro é confiável no programa de avaliação genética? Os especialistas, e até mesmo o Ministério da Agricultura, aconselham um Top máximo de 40% (na escala, quanto mais próximo dos 100%, pior é).

Com o CEIP acontece um pouco diferente, pois as propriedades podem vender como reprodutores, no máximo, os 28% melhores touros da safra, o que, segundo Dias, equivaleria a um Top 20%. Já pensando no repasse da vacada ou na inseminação artificial, ele indicaria o Deca 1 (Top 10%).

Por fim, se há problema ou não em se valer do Top 0,1%, é a configuração feita pelo usuário que vai dizer. Touros bem ranqueados em características isoladas podem ser empregados com sabedoria na correção de imperfeições, desde que não influenciem negativamente outras características de grande impacto econômico, ou, ainda, pode-se trocar o melhor em mil por um reprodutor com classificação inferior, mas harmônico em sua régua de deps e acima da média da propriedade.

“Um ponto difícil, mas necessário, é que as pessoas deveriam dedicar mais tempo para compreender como esses índices de qualificação são formados, além de investigar se eles são compatíveis com o sistema de produção do usuário”, conclui o médico-veterinário e também colunista da AG, Fernando Velloso.


Opiniões de outros especialistas sobre a supervalorização dos touros Top 0,1%

Arnaldo Manoel Machado Borges/ABCZ

AG 200 (Setembro/2016)

“Temos um touro que é considerado o melhor touro de avaliação da raça Nelore. Ele é aleijado! Aos oito anos de idade, ele já não produzia mais sêmen, porque não conseguia ficar de pé. Tinha defeitos gravíssimos de ligamento, de estrutura. Nele, vemos que não é só através do computador que se faz melhoramento genético... O fenótipo é necessário. Os criadores que se focaram apenas em produzir avaliação genética, a cada geração, dão um passo para trás. Aliás, o próprio Raysildo Lobo (ANCP) mostra-se preocupado com a supervalorização do Top 0,1%; 1%; 2% ou 3%. Há touros Top 15%, 20% ou 30% com qualidades produtivas importantes.”


José Bento Sterman Ferraz/USP

AG 202 (Novembro/2016)

“Isso é um problema sério... Alguns índices genéticos incluem características em demasia. Quem tem focos demais não tem foco algum. Para piorar, os animais top são comparados com toda a população. Porém é injusto confrontar um animal nascido na safra 2014 com um da safra 1994. A cada safra, a média da população selecionada muda, e, portanto, o nível de corte de animais top também sobe. E top para quem tem pastagem oriunda de ILP é diferente do top para quem possui pastos de 25 anos em terreno superarenoso.”