Feno & Silagem

AUTOCONSUMO

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Sistema de oferta constante de alimento reduz a concorrência e a disputa dos animais na suplementação a pasto

Danielle Dias Brutti*, Júlio Barcellos**, Maria Eugência A. Canozzi***

A produção de bovinos no Brasil parte de práticas alimentares bastante variáveis em função do solo e do clima, especialmente entre os diferentes biomas em que a atividade é desenvolvida. Os sistemas de produção desenvolvidos em pastagens representam a forma mais sustentável e de baixo custo que existe, em virtude da utilização de forma equilibrada de recursos já existentes na propriedade. Contudo, devido aos efeitos climáticos como secas, excesso de chuvas, frio e calor, as pastagens não mantêm a disponibilidade e a qualidade durante todo o ano. Com isso, invariavelmente, ocorre uma diminuição no desempenho animal e baixa produtividade no sistema. Assim, a suplementação a pasto tem sido amplamente utilizada pelos pecuaristas.

Figura 1 - Consumo esperado de bovinos em pastejo, suplementado com e sem limitador de autoconsumo

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A obtenção de altos rendimentos de bovinos em pastejo não é tarefa fácil, pois depende do consumo e do valor nutritivo do alimento disponível. Dessa forma, para garantir maior produtividade nos sistemas a pasto, a redução no ciclo produtivo só será alcançada com um aporte nutricional extra entre as lacunas sazonais da produção das pastagens. Assim, as estratégias de suplementação constituem a principal tecnologia para implementar os índices zootécnicos e econômicos do sistema. Portanto, nos sistemas de produção já bem estabelecidos, a suplementação é o adicional que auxilia o recurso forrageiro, visando desempenho compatível à carga genética dos animais. Entretanto, vale salientar que o sistema deve estar estruturado conforme a categoria animal, época do ano e tipo de sistema para que não comprometa a eficiência econômica da propriedade.

A suplementação tem sido utilizada basicamente nas fases de recria e engorda, pois maximiza o potencial de crescimento de animais mais jovens resultando em maiores ganhos de peso e, na engorda, agrega mais energia no sistema, melhorando a deposição de gordura. Entretanto, para obter-se um sistema produtivo de máxima eficiência econômica e biológica, é essencial a implementação de tecnologias que possibilitem redução nos custos com suplementos, bem como na sua distribuição.

A logística da suplementação a pasto, em particular o fornecimento diário de ração, tem sido o grande limitante para o uso mais generalizado na pecuária de corte. Essa operação envolve o transporte e a distribuição diária do suplemento e isso representa custos e envolvimentos diretos dos recursos humanos. Na realidade, a mão de obra ainda é o principal limitante, pois é uma atividade que deve ser realizada diariamente, independentemente das dificuldades do clima, do horário de fornecimento e do dia da semana. Para minimizar esses problemas, surgiu nos últimos cinco anos a possibilidade de usar suplementos cujo consumo é restringido por algum limitante na sua ingestão. Nesse sistema, o suplemento é depositado em um comedouro tipo “autoconsumo”, em uma quantidade suficiente para vários dias, em geral uma semana, com livre acesso dos animais.

tecnologia do autoconsumo, também denominada de consumo autorregulável, permite otimizar a operacionalização, pois evita-se que a equipe da fazenda forneça todos os dias o suplemento aos animais, o que, consequentemente economiza tempo e dinheiro com mão de obra, gerando um melhor custo-benefício ao pecuarista. Nesse sistema, a oferta constante de alimento reduz a concorrência e a disputa do suplemento pelos animais, aumentando o número de ingestas diárias sem interferir significativamente no ciclo de pastejo. Com isso, a participação do suplemento e do pasto são mais equilibradas, maximizando o ambiente ruminal, portanto, favorece o desempenho dos animais quando comparado ao sistema de fornecimento diário.

Figura 2 - Fatores que influenciam a taxa de consumo de suplementos de autoconsumo

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Na prática, a tecnologia de suplementação de autoconsumo consiste em regular o consumo dos animais adicionando ao suplemento um elemento limitante. Regular, nesse sentido, significa restringir a um limite em que o animal se sinta saciado, até novamente retornar a se alimentar. Nesse caso, utiliza-se, basicamente, NaCl (sal comum) em níveis moderados (cerca de 8-15% na ração) para ingestões entre 1,2 a 0,8% do peso vivo. Dessa forma, o aumento dos níveis de sal no suplemento atingem um limiar de tolerância pelo animal, o que funciona como um limitador na ingestão dessa mistura “salgada”. Assim, se reduz a vontade de os animais permanecerem mais tempo nos cochos ingerindo o suplemento, minimizando a questão da dominância entre eles e permitindo que praticamente todos os animais acessem o alimento de forma mais uniforme do que no fornecimento diário.

É evidente que esses valores podem variar em função da forragem, do clima, do solo, da categoria animal e do manejo da propriedade, como a proximidade dos cochos em relação à fonte de água, quando o limitador é o sal. Vale dizer que o sistema é eficiente até níveis de ingestões em torno de 1,0-1,2% do peso vivo, pois fornecimentos superiores necessitam que a concentração do limitador seja muito baixa e, com isso, a capacidade de regulação é parcialmente perdida. Isso gera um consumo de suplemento em quantidades muito variadas entre os animais, o que pode influenciar o ganho de peso. Isso explica o fato de que se o sistema de autoconsumo não está bem equilibrado (suplemento:restritor), é comum observar animais que até mesmo perdem peso.

A disponibilidade de pasto não deve ser o limitante, pois ela contribui com aproximadamente dois terços das exigências nutricionais do animal e ainda provê a fibra para manter a saúde ruminal. A quantidade de pasto (massa de forragem) deve ser adequada mesmo em épocas em que ocorrem vazios forrageiros. Práticas de manejo como o diferimento do pasto são alternativas viáveis para garantir a fonte de fibra. Basicamente, veda-se um piquete antes das épocas com maiores vazios forrageiros para aumentar a massa de forragem e ofertá-la em período posterior.

A maioria dos suplementos com limitação de consumo são elaborados na fazenda, mas também já existem produtos comerciais à disposição no mercado. Quando a mistura é feita no local, prática muito frequente para aproveitar resíduos da agroindústria, resíduos de colheitas agrícolas ou o uso de grãos e seus farelos, é fundamental que ela seja uniforme entre o alimento e o limitador. Para tanto, o tamanho das partículas deve ser o mais homogêneo possível. Por exemplo, misturar sal comum com milho grão inteiro não produz uma homogeneização do produto final e a presença de sal deposita-se no fundo do cocho, sem produzir o efeito esperado, pois o milho não ficou adequadamente “salgado”. Além disso, outros aspectos também precisam ser considerados para um bom manejo da suplementação autoconsumo. Animais adultos tem um limiar de ingestão de sal superior a animais jovens, portanto, a sua inclusão como limitador é maior. Além disso, é necessário que os animais sejam adaptados previamente à mistura, geralmente com um nível mais baixo de sal (5%), para que eles adquiram o hábito de ir aos cochos. Sendo o suplemento mais “salgado”, é fundamental que a água seja abundante e de boa qualidade, com livre acesso, pois a necessidade de ingeri-la será naturalmente maior. No piquete, também é importante preocupar-se com a escolha do local onde serão alocados os cochos, facilitando o manuseio e a chegada com o suplemento.

Outro aspecto a ser considerado é o dimensionamento dos cochos. A área de cocho deve ser ajustada conforme a categoria animal e o tipo de suplemento a ser fornecido. Na prática, o que se vê são cochos subestimados, com difícil acesso e com metragens inadequadas à categoria e ao tipo de suplemento. No caso de a suplementação ser para diferentes categorias, o cálculo deve ser feito baseado no animal de maior porte. O tipo de suplemento conta, pois, no caso de fornecimento de grãos e seus farelos em sistemas de autoconsumo, o adequado é 10 cm/ cabeça na linha do cocho (considerando a chegada somente por um dos lados). Lembre-se que a falta de espaço pode estimular competição, o que inevitavelmente estressará os animais, podendo reduzir o consumo e diminuir o desempenho final do lote. É muito importante que os animais estejam confortáveis no momento de ingestão.

Comumente, o sal é utilizado no sistema de autoconsumo, mas demais ingredientes podem ser utilizados para limitar o consumo, como a casca de arroz (cerca de 4 a 8% da ração) e ionóforos (monensina sódica). Entretanto, quando se opta por incluir esse tipo de ingrediente, os suplementos perdem em energia ou proteína, devido à baixa qualidade da casca de arroz. Isso se deve à diluição dos nutrientes em um veículo sem valor nutricional, portanto, a complexidade na formulação do suplemento será bem maior comparada ao uso de sal como limitador. A inclusão de ionóforos como a monensina possibilita maior maleabilidade com o uso do sal, pois este reduz o consumo do suplemento naturalmente. A monensina, além de funcionar como limitador do consumo, pode ajudar na prevenção de distúrbios metabólicos. Ela age no ambiente ruminal e impede que o pH reduza a níveis ácidos, impedindo o aparecimento da acidose.

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Segundo o professor Júlio Barcellos, quando a suplementação envolve diferentes categorias animais, o cálculo deve ser feito conforme o animal de maior porte

A estratégia de suplementação de autoconsumo é uma nova opção aos pecuaristas que buscam um diferencial em sua propriedade porque cada vez mais há consciência de que o caminho da lucratividade passa pela intensificação do sistema produtivo e inevitavelmente pela alimentação. Para tanto, o produtor dispõe, hoje, de diversas tecnologias no mercado. Mas, estas tecnologias só terão efeito positivo se os produtores, juntamente com os técnicos, as adotarem de forma criteriosa e, claro, sempre, buscando as que trarão o melhor custo-benefício. A suplementação com autoconsumo pode viabilizar a complementação nutricional em muitos sistemas de produção que têm dificuldades de mão de obra, maquinária especializada e cochos suficientes para um determinado número de animais. Contudo, ela também possui suas limitações e não basta simplesmente colocar um suplemento de autoconsumo nos cochos e esperar para ver os resultados. É necessário um acompanhamento diário, observar se todos os animais acessam o suplemento. Acompanhar a atividade regularmente e controlar e supervisionar o sistema fazem parte de todo o processo de implementação da suplementação de autoconsumo. Portanto, a gestão do processo, como em qualquer outra tecnologia, é a base para alcançar bons resultados e aumentar a produtividade do sistema pecuário.

*Danielle Brutti é zootecnista, mestre e doutoranda do PPGZootecnia- Nespro/UFRGS ** Júlio Barcellos é médicoveterinário e Doutor - Nespro/ UFRGS - Contato: julio. [email protected] ***Maria Eugênia é médicasveterinária e doutora - PosDoc- Capes/PNPD - Nespro/UFRGS