O Confinador

QUANDO DEVO ABATER O BOI? A PERGUNTA QUE VALE OURO

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O confinamento não pode ultrapassar 90 dias: talvez essa seja uma das maiores falácias da produção animal

Adriano Jorge Possamai*

A linha de produção de carne em um confinamento poderia ser encarada como um mapa do tesouro, que se inicia na compra e entrada dos animais, passando por todas as etapas e eventuais desafios operacionais, finalizando a produção com a comercialização, o abate e o recebimento dos animais.

A margem de lucro é dependente, na ordem de 70 a 75% do preço dos bois magros (@ de entrada), 20 a 25% dos custos nutricionais e 5 a 10% dos custos operacionais e sanitários, entre outros. Nesse sentido, o confinador vivencia de fato, nos últimos anos, um achatamento das margens de lucro na operação, que são ditadas pelo aumento nos custos operacionais, cerca de duas vezes maior que o aumento no valor do boi gordo nos últimos 12 anos (Carvalho e Zen, 2017) e incremento no ágio pago no boi magro.

Dessa maneira, ferramentas de gestão dos dados permitem maior precisão no planejamento e na execução das atividades no confinamento, sendo de extrema importância pontuar que toda informação só é útil se pudermos utilizá- la para auxiliar ou dar suporte a uma tomada de decisão.

É necessário cautela, no entanto, pois, ao trabalharmos com muitos indicadores, incidimos no risco de possuirmos muitos dados nas mãos, mas com baixa expectativa de usá-los de forma eficiente, além de que essas informações podem apresentar, em alguns casos, confiabilidade reduzida. Porém, por que falar de dados, quando a temática proposta no artigo é ponto ótimo de abate dos animais?

Tabela 1 - Diferença entre custo de @ produzida e lucratividade em função do prolongamento dos dias de cocho, com bonificação de R$ 4/@

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Porque justamente o elo fraco desse questionamento está, em quase todos os casos, na carência de dados confiáveis e sólidos que suportem a decisão do ponto ótimo de abate, tornando-a totalmente empírica, mas com várias teorias sobre qual deveria ser o dia, ou melhor, o último dia de um lote de gado no confinamento.

Figura 1 - Efeito do prolongamento do período de confinamento sobre rendimento de carcaça (colunas verdes), ganho de peso diário (linha azul), ganho de carcaça (linha vermelha) e rendimento de ganho (linha preta)

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Alguns pecuaristas e técnicos falam que o confinamento não pode ter mais que 80 a 90 dias. Essa talvez seja uma das maiores falácias da produção animal. A duração do confinamento não pode ser fixa, já que temos animais com perfil de entrada diferente, cada dia mais jovens e leves, sendo natural a tendência de prolongarmos o período de cocho em busca de indivíduos com melhores acabamentos, carcaças mais pesadas e maiores margens de lucro por cabeça. Porque esse é o “ponto” em que o pecuarista será remunerado, nas arrobas de qualidade das carcaças produzidas.

Outra questão é a visualização dos escores de acabamento dos animais. A carcaça é composta pela porção muscular, óssea e lipídica (gordura). A avaliação das características de carcaça e de sua composição é fundamental para complementar os dados de engorda dos animais durante seu desenvolvimento, pois as diferentes taxas de síntese dos tecidos alteram a sua composição física e química.

Figura 2- Ponto de maturidade ou término do pronunciado crescimento muscular em animais de diferentes frames corporais (tamanhos). Quanto maior o frame maior será o peso à maturidade

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Ao buscarmos na literatura, vários autores afirmam que a proporção dos tecidos na carcaça no momento do abate é o aspecto de maior importância na composição do animal, e determina grande parte de seu valor econômico, influenciando diretamente na eficiência e no custo de produção da carne. À medida que aumenta o peso de abate, reduz o percentual de músculo e a gordura é aumentada na carcaça, desde que o consumo de energia exceda o requerimento do animal para mantença e crescimento.

A menor deposição de massa gorda por unidade de alimento ingerido se dá pela menor quantidade de água na gordura, quando comparado ao músculo, caracterizando um tecido muito mais “denso” energeticamente. Dessa maneira, a mesma unidade de energia ingerida deposita cerca de quatro vezes menos gordura quando comparada à massa muscular.

A produção de carcaças com maior proporção de gordura pode ser interessante economicamente, mesmo quando o animal tem menor ganho de peso diário. Isso ocorre normalmente quando alcançamos planos de bonificações de acabamento e uniformidade de carcaças, mesmo onerando o custo das arrobas produzidas (Tabela 1).

Nesse sentido, alguns autores brasileiros como Costa et al., (2002) e Pazdiora et al., (2013) descrevem que, somando-se melhor acabamento de carcaça há melhoria no rendimento da própria, em função da menor participação de crescimento dos componentes não carcaças, como couro, vísceras e cabeça à medida que elevamos o peso de abate dos animais, ou seja, partes que o produtor normalmente não é remunerado. Dessa maneira, a pronunciada redução no ganho de peso vivo diário, atinge com menor proeminência o ganho de carcaça diário, já que ocorre um aumento no rendimento de ganho (Figura 1).

Assim, o confinamento no Brasil, que dura em média 87 dias, de acordo com levantamento realizado por Carvalho e Millen (2014), e 93 dias, pelo Benchmarking Confinamento Cargill (2016), não poderiam ir além, visando explorar ao máximo o potencial do animal, diluindo de forma mais concisa o custo de entrada do mesmo?

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Adriano Jorge diz que a decisão do ponto ótimo de abate começa no planejamento dos animais a confinar

Simulação do autor

Para responder a esse questionamento devemos considerar a genética, o biótipo, o sexo, o peso, a idade e a nutrição dos animais. Haja vista que diferentes raças apresentam pesos e idades à maturidade distintas, assim, animais como Abeerden Angus alcançam adequado grau de terminação antes do Nelore, e este por sua vez alcança antes do Charolês. Assim, animais com maior potencial de peso, a maturidade devem ser abatidos mais pesados (Figura 2).

A redução na curva de consumo é usada por muitos confinadores e técnicos para determinar o ponto de abate quando observam a tendência de queda, que ocorre ao prolongarmos o período de cocho e, em função da atuação de hormônios, como a leptina, concede maior concentração de glicose circulante e maior produção de propionato, que sinalizam ao animal para reduzir o consumo.

De fato, a menor ingestão de nutrientes aliados à maior exigência de mantença dos animais determina menores ganhos de peso. No entanto, o custo da dieta pode influenciar de maneira proeminente o ponto no qual o consumo se torna insuficiente para agregar lucratividade ao boi confinado.

Por mais que pareça obvio, a resposta da pergunta “Quando devo abater meu boi?”, sem dúvida é: o dia que o boi deixar mais lucro!

No entanto, talvez, não seja tão simples, posto que precisam ser considerados os vários pontos discutidos neste texto, tornando a resposta multifatorial e de caráter econômico. E, por agregar fatores biológicos, não pode ser respondida sem que se debruce sobre os dados de cada lote do confinamento para análises criteriosas e, assim, chegar-se à resposta mais adequada em todos os lotes e sistemas.

Acreditamos que a resposta se inicia já no planejamento da operação ao avaliarmos as informações iniciais, como custo de entrada dos animais, frete, quebra de peso, mortalidade, custo operacional, custo de dieta, projetando a evolução de consumo com base em dados sólidos e confiáveis, além de considerar ainda preço de venda, balcão ou preços futuros previamente negociados, tendo esses dados analisados em ferramentas específicas para Ponto Ótimo de Abate, como é o caso do “modelo para fazer mais dinheiro” (4 M - Make More Money Model).

Com dados confiáveis e ferramentas como essa, podemos auxiliar o confinador a planejar a operação como um todo, com possibilidade de negociação futura e estabelecimento de fluxo de caixa.

O planejamento prévio é fundamental, mas não se pode esquecer a execução e o monitoramento de rotinas no confinamento, como realizar avaliações lote a lote, periodicamente, considerando o potencial de ganho de cada ingrediente dentro da dieta, correlacionado ao consumo e ao custo. Dessa maneira, podemos antecipar ou prolongar o período de cocho previamente planejado no início da operação, visando sempre atingir as metas econômicas previamente estabelecidas e aproveitar eventuais oportunidades de mercado.

Em síntese, a determinação do ponto de abate é iniciada antes do confinamento, durante o planejamento e checada ao longo do período de cocho na busca de maximizar a margem de lucro por animal e lote.

*Adriano Jorge é assistente técnico comercial de Bovinos de Corte da Cargill Nutrição Animal