Na Varanda

Somos da carne. Uma nova visão para a pecuária

Na

Francisco Vila
é economista e consultor internacional [email protected]

H á milhares de anos, o boi acompanha os humanos. Juntamente com o cavalo e o cachorro, boi e vaca sempre fizeram parte da família. Porém, existia uma hierarquia clara. O cavalo era mais nobre, o cachorro protegia o lar, ao passo que os bovinos, no terceiro lugar da hierarquia, eram basicamente apenas úteis. A percepção era de que o cavalo servia como meio de transporte, arma de guerra e máquina de tração e o cachorro era companheiro dos pais na caça, amigo dos filhos e à noite servia como vigia. No entanto, analisando um pouco melhor, podemos constatar que boi e vaca, com sua maneira pouco barulhenta e invasiva, têm sido, na verdade, os animais mais importantes dessa comunidade rural.

Os bovinos, até recentemente, exerceram o papel de trator, constituem até hoje uma reserva de liquidez, providenciam leite para a alimentação diária e, no final da cadeia, se transformam em carne. Cachorro não se come (pelo menos não por aqui) e a carne de cavalo conta com poucos apreciadores. Ou seja, mercado garantido? Talvez não, pois, no domínio da proteína animal existem ainda os suínos e as aves. É verdade, mas esses, devido à sua vida mais curta, não se inserem de forma tão especial na convivência familiar.

Todavia, já que quase tudo mudou em nosso mundo moderno, o boi também entrou em uma nova fase ao longo dos últimos 30 anos. Deixou de ser considerado “reserva econômica”, foi substituído pelas máquinas no trabalho do campo e entrou, como todas as outras mercadorias, em um ambiente de maior especialização. Temos hoje uma clara divisão entre animais para carne e para leite.

Com essa caraterização, chegamos à nossa reflexão de hoje. Carne de boi passou a ser um produto de luxo! Se tiver alguma dúvida, veja apenas o preço por quilo na gôndola ou dos pratos sofisticados dos restaurantes. E isso é normal. Pois produzir peixe, aves ou suínos ocorre em ciclos muito mais curtos e com conversões alimentares mais econômicas. Porém, isso não deve nos preocupar, pois carne é carne! Todavia, por ser um produto caro, a carne bovina tem de ter qualidade caprichada e precisa mostrar melhor suas múltiplas funções como nutriente, objeto de prazer e facilitador social. Só com esses atributos o investimento em um quilo de carne de qualidade se justifica.

Desde o plano Real observamos um esforço coordenado para transformar o antigo boi multifuncional em um alimento de valor agregado. Genética, nutrição, manejo e bem-estar são as etapas que foram construídas ao longo de dezenas de eventos da prestigiada Feicorte, em São Paulo. Em seguida, essa nova estratégia do marketing do setor foi difundida regionalmente através de diversos modelos de circuitos, de nome Intercorte, que, no ano passado, mais uma vez inovou com a criação da BeefWeek. Com essa percepção, fechou-se o círculo que, definitivamente, deslocou o foco do “animal” para o “produto”, ou mais especificamente, da produção do boi para a carne.

Através da combinação dos efeitos de programas televisivos do tipo MasterChef com a divulgação nas revistas e nas redes de novos conceitos e receitas de múltiplas formas de preparo em pratos ornamentados com saladas e frutas, a carne bovina instalou-se de vez no radar do consumidor como “evento”. Mesmo com redução do consumo anual per capita, o brasileiro hoje aprecia (porque conhece melhor) a carne de boi e não se recusa a pagar um pouco mais por essa “experiência” culinária, cultural e social que valoriza seu final de semana. Seja na churrasqueira de sua “varanda gourmet” aplicando opções recém-aprendidas na TV ou nos restaurantes onde um bom vinho acompanha o prato e torna mais agradável a convivência, o consumidor entra no slogan “Somos da Carne”.

No mês de novembro, outra edição da Beefweek, ainda mais sofisticada, levará esse conceito do boi novamente ao centro do consumidor urbano em São Paulo. Reforçado por múltiplos eventos paralelos em dezenas de restaurantes da capital e através da divulgação multimídia, a carne será o centro de atenção durante uma semana. Palestras técnicas, bem como demonstrações sobre opções de preparo com shows de churrasqueiros famosos, informarão todos os elos da cadeia sobre o estado da arte desse produto. Iniciativas como o “Blog da Carne” ou “As Braseiras”, criados por jovens profissionais entusiastas do tema, complementarão o grande projeto de criar consciência que carne bovina é alimento saudável e se tornou parte indispensável de uma convivência familiar moderna. Nesse sentido, todos nós “Somos da Carne”!