Confinador

 

ATENÇÃO NOS CUSTOS DE PRODUÇÃO

Os níveis de concentrado e os preços dos principais insumos utilizados nos confinamentos de bovinos no Brasil

Gustavo Lineu Sartorello1 e Augusto Hauber Gameiro

A utilização de grãos nas dietas serve para melhorar o desempenho e a eficiência de terminação com o aumento da densidade energética. Essa prática se caracteriza pela melhora do ganho de peso, eficiência alimentar e, consequentemente, proporciona adequada uniformidade no produto final.

O teor de concentrado na alimentação dos animais em confinamentos, em geral, tem alta proporção de grãos, conforme descreveram Oliveira e Millen (2014) em levantamento feito com nutricionistas no Brasil. A maioria dos respondentes relatou que o teor de inclusão de grãos nas dietas ficava entre 51% e 65%.

Quando se comparam os levantamentos realizados por Millen et al. (2009) e Oliveira e Millen (2014), observa-se que aumentou o nível de inclusão de grãos. No levantamento de 2009, aproximadamente 6,5% dos nutricionistas relataram inclusão entre 65% e 80% na dieta e nenhum deles utilizava níveis acima de 81%. Em 2014, o cenário foi diferente, pois 18,2% deles passaram a utilizar níveis entre 65% e 80% de grãos na dieta, e 6,1% dos respondentes, níveis acima de 81%.

As inclusões dessas proporções de grãos resultam em dietas com média de 73,9% de nutrientes digestíveis totais (NDT), sendo o milho o ingrediente energético mais utilizado. Nesse contexto, geralmente, os animais permanecem no sistema de engorda em torno de 87 dias, com ganho de peso médio diário de aproximadamente 1,5 quilograma, e são enviados ao abate ao atingirem, ao menos, 500 kg de peso vivo (OLIVEIRA; MILLEN, 2014).

Os índices obtidos em 2014 não foram sempre assim. Salomani et al. (1980) trabalhando com animais zebuínos castrados, testaram níveis de NDT de 54%, 59%, 65% e 70% e mensuraram os ganhos de peso médio diário, rendimento de carcaça e a diferença entre a receita e o custo para cada dieta. Os resultados para ganho de peso foram, respectivamente, de 688 gramas, 804 gramas, 881 gramas e 784 gramas, não sendo diferentes estatisticamente.

Augusto Gameiro lembra que a formulação de dietas foi e deve estar baseada na relação de custo-benefício

Outros trabalhos, como o de Cesar et al. (1981), descreveram que o peso de abate desejado era em torno de 450 kg. Os dias de ocupação dos animais em confinamento variavam entre 100 e 150 dias, com mais frequência em torno de 126 dias, como foi obtido por Thiago et al. (1984).

Apesar de os conceitos nutricionais terem avançado ao longo do tempo, o aspecto da formulação de dietas foi e deve estar baseado na relação de custo-benefício, conforme afirma Martin (1987, p. 93):

“Tendo em vista o papel da alimentação nos custos de produção em confinamento de bovinos de corte, o aspecto balanceamento de dietas torna-se um fator dos mais delicados. Assim, de nada valerão os altos conhecimentos teóricos sobre nutrição de ruminantes e uma dieta perfeitamente equilibrada ao ganho de peso proposto se a resposta não for econômica. Todo aspecto de formulação deve basear-se na relação custo- benefício”.

Portanto, no gerenciamento produtivo da atividade de confinamento, dentre os outros itens, é preciso preocupar- se tanto com os ingredientes utilizados, quanto com os custos da alimentação dos animais. Nem sempre os insumos de menor preço retornam os melhores desempenhos e, por isso, maiores lucros, uma vez que as flutuações sazonais nos preços dos produtos agropecuários provocam instabilidade na renda do produtor.

Segundo Gustavo Sartorello, apesar de haver anos atípicos no comportamento de preços, em média, eles são favoráveis para o confinador tradicional

Tendo em vista a instabilidade de preços e renda do produtor, Mark et al. (2000) estudaram os itens de custo de produção que mais impactavam na atividade de confinamento. Os autores afirmaram que os itens de custo eram o preço de venda do animal gordo para o abate, o valor de compra do animal magro para engorda e os insumos alimentares. Alinhar esses itens de custo com um bom planejamento estratégico parece ser relevante para aumentar os lucros e continuar desenvolvendo a atividade no longo prazo.

Como as flutuações de preços impactam na lucratividade de confinamento, são apresentados nas figuras a seguir os preços médios de janeiro de 2006 a dezembro de 2015, do boi gordo, boi magro e do milho grão, e a relação de troca de arrobas de boi gordo por uma unidade de animal magro. Para efeito de comparação, todos os valores utilizados foram do Estado de São Paulo e foram corrigidos para o mês de setembro de 2016, segundo o INPC-IBGE.

Na Figura 1, verifica-se que, historicamente, entre os meses de agosto e dezembro houve maiores preços médios para a arroba de boi gordo em relação aos demais meses do ano. No entanto, no ano de 2016 observou-se comportamento atípico, quando os preços aumentaram de janeiro a abril e, a partir de então, têm apresentado queda gradativa.

Cabe ao confinador avaliar as estratégias de gerenciamento produtivo para aproveitar as melhores oportunidades de venda do produto final, e também de compra dos insumos. O próprio animal magro se constitui como insumo e representa o maior custo, sendo importante entender o comportamento de seus preços ao longo do ano, como demonstrado na Figura 2.

Os dados indicam que há uma tendência de aumento de preço do boi magro ao longo do ano. Os preços dos animais magros no segundo semestre se elevam, como os observados para o boi gordo. No entanto, esses aumentos são desproporcionais e levam a uma menor relação de troca de arrobas de boi gordo por um animal magro nesse período.

Apesar de haver anos atípicos no comportamento de preços, em média, os preços são favoráveis para o confinador tradicional, pois ele comercializa os animais para abate em meados do segundo semestre e adquire os animais para entrarem no sistema de confinamento no primeiro trimestre do ano.

Segundo a figura 3, historicamente, entre os meses de abril e agosto os preços do milho atingem os menores valores, ficando abaixo do preço médio do ano. Portanto, os confinadores poderiam aproveitar esse intervalo para adquirir quantidades suficientes para a utilização na dieta de animais, protegendo- se de variações.

Estratégias devem ser avaliadas conforme o ano corrente. No ano de 2016, os preços do milho e o seu comportamento não reagiram conforme os dados médios, pois, entre janeiro e junho o insumo aumentou gradativamente. Entretanto, destaca-se que essas análises devem ser feitas cautelosamente, já que os atuais preços não são os maiores da série histórica considerada. Entre outubro de 2007 e março 2008 os valores do milho superaram os preços registrados do ano atual.

A atividade de engorda dos animais em confinamentos passa por constantes alterações e exige que os agentes da cadeia produtiva as acompanhem para continuarem cobrindo os custos de produção e se manterem na atividade produtiva no longo prazo. Portanto, o gerenciamento de custos se torna prática necessária para conduzir a atividade de forma competitiva e duradoura.

O texto apresentado é parte do projeto de pesquisa de Mestrado do primeiro autor, intitulado: Desenvolvimento de modelo de cálculo e de indicador de custos de produção para bovinos de corte em confinamento. O conteúdo completo encontra-se disponível no banco de teses da USP (www. teses.usp.br). Assim como a planilha elaborada para cálculo de custo de produção. Aos interessados em receber a planilha e/ou o informativo de custos que será divulgado mensalmente a partir de 2017, por gentileza, contate-nos pelos endereços de e-mail.

1Gustavo Sartorello é zootecnista e mestre pelo Programa de Nutrição e Produção Animal, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo.

E-mail: [email protected] 2Augusto Gameiro é professor do Departamento de Nutrição e Produção Animal, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo. E-mail: [email protected] Consulte bibliografia com os autores.