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SILAGEM

Implicações técnicas e práticas na alimentação de bovinos de corte

A sazonalidade da produção de forragens durante o ano, ou mesmo a necessidade de atender uma produção mais intensiva tem levado o pecuarista a adotar práticas de conservação de forragens, dentre as quais se destaca a ensilagem. O produto da ensilagem é denominado silagem, resultante do processo de fermentação dos açúcares solúveis da planta em ácidos orgânicos, principalmente em ácido lático e acético, sob condições de anaerobiose (ausência de ar) por micro-organismos epifíticos (que vivem sobre os vegetais), após a forragem ter sido colhida, picada, compactada e armazenada em silos.

De um modo geral, todo o método de conservação de forragem está sujeito a perdas inevitáveis durante o processo (Tabela 1; Figura 2). Portanto, o produtor deve estar ciente que o objetivo na ensilagem é minimizar as perdas e reduzir o custo de produção. Qualquer planta com a sua umidade original pode ser ensilada, mas deve- -se dar preferência a materiais que apresentem alta produtividade, alto valor nutricional e potencial de fermentação e conservação (açúcares, umidade e ponto de corte). Além disso, por se tratar de um processo mecanizado, depende de um planejamento de todas as etapas, visando à otimização dos recursos, como maquinários, implementos e mão de obra.

A produção de uma silagem de qualidade começa no plantio da cultura que será ensilada (Tabela 2). Posteriormente, segue com o acompanhamento da lavoura até o momento de corte das plantas. Assim, a escolha da planta forrageira (espécie, cultivar, híbrido), as práticas culturais (adubação, espaçamento, etc.), a manutenção dos equipamentos (afiação das facas) e a observação do ponto ideal para o corte influenciam diretamente no rendimento e na qualidade do produto final.

A variedade de plantas forrageiras anuais e perenes que podem ser utilizadas para a produção de silagem é vasto (Tabela 2). Contudo, algumas características devem ser levadas em consideração na escolha da melhor forrageira a ser ensilada, uma boa produção de massa, alta digestibilidade das fibras, um ponto de corte prolongado, grãos macios, adaptação ao sistema produtivo, clima e estabilidade de produção. Portanto, para que a cultivar expresse seu potencial produtivo, é necessário que ela seja adaptada à região de produção. O milho e o sorgo são as espécies mais utilizadas na produção de silagens em virtude do alto conteúdo de energia, facilidade de mecanização e alta produção de matéria seca por hectare, bem como apresentam elevado consumo voluntário pelos animais (Tabela 2). De um modo geral, considera-se que o valor nutritivo da silagem de sorgo equivale a 85 a 90% da de milho, entretanto, esses valores podem ser mais elásticos (72 a 92%), em função da qualidade de ambas e das cultivares e época de plantio (como milho safra e safrinha ou sorgo forrageiro ou granífero, por exemplo).

Milho tem ganhado a preferência nos processos de ensilagem

O teor de umidade da planta a ser ensilada é uma das escolhas mais importantes para a conservação e qualidade da silagem e deve encontrar- -se em torno de 72 a 65% (28 a 35% de MS) no caso do milho e 72 a 67% para o sorgo (Tabela 2). Para outras forrageiras como aveia, azévem, cevada e espécies do gênero Cynodom como os tiftons, coast-cross entre outras, no seu momento ideal de ensilagem (estádio vegetativo em que a planta apresenta maior produção de matéria seca - peso da forragem sem a água e qualidade nutricional) os teores de umidade devem ser superiores a 80% (Tabela 2).

Quando o teor de matéria seca estiver abaixo de 28% no momento da ensilagem, independentemente do tipo de material, pode ocorrer a produção de efluentes (chorume) no silo, os quais podem carrear os nutrientes, diminuindo a qualidade da silagem. Além disso, pode favorecer o crescimento de bactérias do gênero Clostridium (responsáveis pelo mau odor e redução da palatabilidade da silagem), as quais produzem ácido butírico, água e dióxido de carbono, cujas consequências são perdas de até 50% da silagem e aproximadamente 18-20% do seu valor energético.

Nesses casos, torna- -se imprescindível o uso de recursos que, de alguma forma, modifiquem esse cenário. Assim, a remoção parcial da água da planta através do emurchecimento ou pré-secagem pode ser uma opção interessante. Vale dizer que essa estratégia normalmente é desnecessária para ensilagens de milho ou sorgo, porém, importante para plantas de alto teor de umidade (tifton, aveia, azevém, etc.). Uma dessas estratégias é a pré-secagem e consiste na adição de mais uma etapa no processo de produção da silagem em que a planta é cortada, seguida de um pré-murchamento (desidratação) no campo, até que o material atinja os valores adequados de 26 a 38% de matéria seca, sendo então recolhida e picada, podendo o tamanho da partícula variar de 2 a 3 cm, e posteriormente compactada no silo (Tabela 2).

Após a definição do momento do corte, é iniciada a colheita das plantas, quando são cortadas e picadas, sendo que o tamanho médio das partículas deve ser entre 0,5 e 2,0 cm. A picagem facilita o processo de compactação do material ensilado dentro do silo, além de expor os carboidratos solúveis ao ataque dos micro-organismos fermentadores. O tamanho da partícula ensilada, notadamente é muito variável durante a produção de silagem (Tabela 2) e relaciona-se diretamente com a potência do trator e/ou a regulagem da ensiladeira utilizada.

O menor tamanho de partícula facilita o processo de ensilagem, uma vez que permite maior densidade de transporte do material colhido até o local de armazenamento, facilita o processo de compactação e permite melhor fermentação anaeróbia. Como consequências, preserva o valor nutritivo da massa ensilada e minimiza as perdas. O uso de partículas pequenas na confecção de silagens define menores custos de produção e promove menores perdas físicas durante a retirada e distribuição da silagem no cocho. Contudo, partículas menores do que 0,5 cm devem ser evitadas, pois prejudicam a ruminação e reduzem a digestão da fibra e o consumo voluntário da silagem.

Dentre os vários tipos de silos, os mais empregados têm sido os de “superfície” - chamados “torta”, os do tipo “trincheira” e, mais recentemente, os do tipo “bag”. Os silos horizontais ou silos trincheira são os mais comuns (Figura 1). São econômicos de construção e preparados para uma utilização completamente mecanizada, permitem rápido enchimento e boa compactação, dando origem a excelentes ensilados. Os silos devem possuir sulcos no fundo com inclinação de 2 a 3%, permitindo a saída dos efluentes, e evitando perdas, preservando a qualidade do material ensilado. Os silos térreos ou de superfície são as opções mais baratas, mas com elevadas perdas (de 5 a 15%) em todo o processo. Elas ocorrem quando a massa de forragem é posta diretamente no solo.

A ensilagem em manga plástica (bolsas) ou silo tipo “Silo-Bag” é um sistema muito versátil comparativamente com as formas mais convencionais de ensilar, pois reduzem o transporte da forragem, o que simplifica de forma significativa a cadeia da ensilagem. Nesse sistema, diminui- -se a necessidade de infraestrutura e permite-se ensilar vários tipos de forragem, eventualmente valorizarando alguns subprodutos. O Silo-Bag normalmente é empregado para ensilagem de grão úmido, mas também pode ser utilizado para planta inteira. Esse tipo de ensilagem reduz o número de operações, com redução de custos, uma menor dependência das condições meteorológicas e menores perdas.

Uma vez definidos o momento do corte, o tipo de picado e o silo, segue o processo de compactação para expulsar o ar presente entre as partículas, reduzindo assim o tempo para formação do ambiente anaeróbio, indispensável à formação dos ácidos orgânicos que conservam a silagem. A eficiência do processo de compactação é uma função dependente do tempo, do peso do trator usado e da espessura da camada de forragem formada por cada descarregamento de material ensilado. Quanto mais espessa for a camada, menos eficiente será o processo, sendo recomendadas camadas não superiores a 30- 40 cm. De forma mais generalizada, preconiza-se que a forragem ensilada deve ser compactada a uma taxa de 1 a 4 minutos por tonelada. Taxas inferiores a um minuto indicam que a descarga está sendo rápida no silo ou que há tratores insuficientes para a compactação ou camadas muito espessas.

Da mesma forma que a compactação, a vedação do silo deve ser realizada de forma adequada, a fim de impedir a entrada de oxigênio no interior da massa ensilada. Assim, o silo deve ser vedado com lona plástica apropriada, que deve ficar aderida a superfície do silo e com suas extremidades devidamente lacradas. A escolha da lona deve ser estabelecida com base na resistência aos danos mecânicos e à menor permeabilidade de oxigênio e luz.

A abertura do silo deve ser realizada somente após decorrido o processo de fermentação, o qual pode durar de 20 a 30 dias dependendo do material ensilado e do atendimento dos processos que envolvem a fermentação (disponibilidade de substrato e ambiente anaeróbio). Após a abertura do silo, alguns cuidados devem ser tomados, principalmente na retirada de uma camada mínima e uniforme de silagem. Pois, uma vez aberto, o oxigênio começa a penetrar no painel (pela parte frontal) do silo, possibilitando o crescimento de micro- -organismos aeróbios que degradam a silagem, ocasionando perdas na qualidade. Para tanto, recomenda-se a retirada de uma fatia mínima de 15 cm diários no painel do silo (Figura 1), visando reduzir essas perdas após cada abertura do silo. Desse modo, é primordial realizar o correto dimensionamento do silo (Figura 1), com o objetivo de garantir que essa camada mínima seja retirada em função do número de animais e da quantidade de silagem ofertada.

Tabela 1 - Perdas de energia na silagem de milho

Um tipo específico para estocagem de alimento na propriedade de uma maneira prática e econômica é a ensilagem de grãos (Tabela 2). A silagem de grão úmido é um processo de ensilagem em que se armazenam somente os grãos da planta, sendo os pressupostos de sua produção os mesmos relacionados à produção de silagens de planta inteira (fermentação anaeróbia). A colheita do grão é realizada quando esse apresentar de 30 a 40% de umidade (Tabela 2), sendo realizada por colheitadeira convencional e os grãos quebrados ou laminados com o objetivo de favorecer compactação e fermentação. É primordial, como na ensilagem da planta inteira, que o transporte, a partição do grão, a compactação e a vedação sejam realizados de forma rápida e eficaz para evitar perdas pela deterioração aeróbia.

Os grãos podem ser armazenados em silo tipo trincheira (Figura 1), bag ou bunker e a sua compactação deve proporcionar uma densidade mínima de 900 kg por metro cúbico. Por essa razão, silos de superfície com esse tipo de material são desaconselháveis. O fornecimento aos animais deve ser realizado no mesmo dia (imediatamente após a sua retirada, preferencialmente) evitando-se armazenar esse produto após a retirada do silo. Da mesma forma que nas silagens de planta inteira, deve-se retirar uma camada mínima de 15 cm. O uso de silagem de grão úmido representa uma redução nos custos de 20 a 30%, representados, principalmente, pela inexistência do transporte até o ponto de comercialização e vice-versa, secagem do grão, não haver descontos de umidade, impureza e taxas de armazenamento e impostos. Além de a colheita poder ser antecipada em 3 a 4 semanas, permitindo ao produtor antecipar o plantio da próxima cultura.

Silo-Bag é um sistema versátil comparativamente com as formas mais convencionais de ensilar

Algumas características podem ser observadas para identificar se uma silagem apresenta boa qualidade. Para tal, deve apresentar cheiro agradável, cor clara, podendo variar de verde amarelado a cáqui e a sua textura deve ser firme e os tecidos macios, bem como não deve apresentar pontos de aquecimento.

As perdas da silagem ocorrem desde o campo, durante o processo de ensilagem, até a desensilagem e fornecimento aos animais (Figura 2). Perdas na colheita relacionam-se a topografia do terreno, altura e estrutura da planta e mecanismos de recolhimento e picagem pela colheitadeira. Essas perdas podem variar de 4 a 7% com o corte e recolhimento e de 14 a 20% para materiais que necessitem de emurchecimento, geralmente relacionadas ao recolhimento do material.

Durante a fermentação, se a forragem foi ensilada com teores de matéria seca acima de 28 a 30%, bem compactada e vedada, dificilmente ocorrerão perdas significativas pela produção de efluentes ou fermentação secundária (Tabela 1), sendo observadas perdas durante a fermentação de 1 a 10%. Durante a desensilagem, a não remoção de uma camada superior a 15% pode ocasionar perdas de 11% de matéria seca após a abertura do silo. Em condições climáticas quentes e úmidas, pode se fazer necessária a remoção de uma fatia de espessura de 30 cm ou mais (Figura 2).

As perdas na silagem ocorrem por vários processos (Tabela 1). Por essa razão, seu valor nutritivo é sempre inferior ao valor do material original, assim, é primordial que todas as etapas críticas sejam executas de forma adequada, a fim de reduzir ao máximo essas eventuais perdas.

O fornecimento da silagem aos animais deve ser imediatamente após a retirada do silo. A silagem, após retirada do silo, caso não seja fornecida para consumo, diminui a sua vida útil e pode ter a temperatura elevada, refletida pela utilização dos nutrientes da silagem para o crescimento dos micro-organismos aeróbios. Nesse sentido, sobras de silagem no cocho ou na carreta distribuidora devem ser eliminadas.

A afiação das facas também influência no rendimento e na qualidade do produto final

A produção de silagens apresenta custo de produção superior às opções de pastagens ou fenos, custos que estão relacionados obviamente aos processos de produção da cultura e da ensilagem. Assim, sua utilização é recomendada para animais com maior potencial de resposta econômica, como em crescimento e terminação, ambos associados a sistemas intensivos, nos quais exista uma alta concentração de animais e a base do volumoso seja fornecida pela silagem. Nesses sistemas, a complementação nutricional da dieta é realizada com a adição de concentrados, cuja proporção depende da qualidade da silagem.

Assim, é possível que o uso de silagens de alta qualidade, envolvendo o milho, podem prescindir da inclusão de concentrados ou exigir baixa incorporação, fatos que repercutem positivamente na redução dos custos com a alimentação. Nesse sentido, o pecuarista deve estar atento para que todas as etapas do processo sejam realizadas de forma correta para garantir a produção de uma silagem de qualidade. Pois, os gastos operacionais para a produção independem da sua qualidade, ou seja, o custo de produção de uma silagem boa é o mesmo de uma silagem ruim.

A produção de silagem de elevado valor nutricional é uma das principais estratégias alimentares para intensificar a produção na pecuária de corte, em particular na fase de engorda, pois os rendimentos da produção de forragem, por meio de uma cultura de alta produtividade, produzem benefícios econômicos já amplamente quantificados. Nos últimos anos têm sido crescentes os avanços científicos e tecnológicos em relação a novas variedades de plantas a ensilar, o surgimento de máquinas e implementos, a presença de aditivos que potencializam o processo de produção da silagem.

Contudo, diferente do gado de leite, na pecuária de corte, ainda continua sendo uma técnica pouco adotada. As razões são de ordens diversas, como a baixa produtividade da lavoura de milho - geralmente por problemas climáticos, falta de equipes de prestação de serviços para confecção da silagem, pouco conhecimento no manejo do silo e ainda a falta de cultura em conservar forragem. Entretanto, independentemente dessas questões, é crível afirmar que o potencial de produção de silagem de milho e sorgo no Brasil, por meio de suas diversas regiões agrícolas, bem como a grande oferta de subprodutos, possibilitam oportunidades, ainda que não sejam generalizadas, mas de forma pontual ou estratégica, para participar do processo de melhoria dos índices produtivos da bovinocultura de corte.

Além disso, naquelas regiões de maior valorização da terra, a silagem pode contribuir para processos de integração e verticalização da atividade, por meio de sistemas mais intensivos de produção. Ademais, pode garantir uma oferta constante de animais para abate e assegurar os vínculos com os demais elos da cadeia produtiva da carne bovina.

*Eduardo Lisbinski, Everton Sartori e Júlio Barcellos são zootecnistas. Todos integram o Nespro/UFRGS - [email protected]