Raça do Mês

 

15 ANOS DE SENEPOL

Em 2000, o taurino vermelho desembarcava no território brasileiro. Hoje a genética do adaptado contribui para o desenvolvimento da pecuária moderna

Erick Henrique [email protected]

Tudo aquilo que valorizamos possui uma relevância histórica, seja ela datada há milhares de anos ou, como no caso do adaptado de origem caribenha, há pouco tempo. O passado é primordial para determinar os caminhos futuros da árdua e apaixonante pecuária.

A façanha do pecuarista João Arantes Júnior (JAJ) estabeleceu uma nova alternativa para o segmento. O saudoso criador importou, no ano de 2000, os primeiros exemplares Senepol dos Estados Unidos para sua fazenda em Ariquemes/ RO. No entanto, logo que os animais chegaram, tiveram de colocar à prova toda a adaptabilidade que detinham, pois saíram de um rigoroso inverno do hemisfério Norte para um calor de 40ºC em Rondônia.

Gilmar Goudard destaca o crescimento da raça na ordem de 40% nos últimos quatros anos e a perspectiva para 2015 é um avanço de 60%

Graças a essa iniciativa, o animal hoje é criado em mais de 17 estados da República e a cada evento como leilões, dias de campo e simpósios, surgem novos criatórios de Senepol. Todavia, se outros criadores do passado, além de JAJ, não tocassem esse sonho adiante, no cruzamento industrial do adaptado com o zebu, através da monta natural, essa genética não estaria desbravando importantes polos pecuários País a fora.

“Nosso compromisso será sempre direcionado para o crescimento da raça Senepol a todo instante. Nesses 15 anos, a sementinha adaptada cresceu, prosperou e consolidou-se via 332 criatórios associados e mais de 55 mil animais puros de origem (PO) e puros por cruza (PC) registrados, povoando todos os estados produtivos no Brasil”, comemora o presidente da Associação Brasileira de Criadores Bovinos Senepol (ABCB), Gilmar Goudard.

O “boi vermelho” cativou os criadores pela adaptabilidade ao clima tropical, além de outros atributos como boa conformação frigorífica, 56% de rendimento de carcaça no abate, habilidade materna, docilidade, pelo curto, resistência a ectoparasitas, eficiência alimentar (que reverte em economia na fazenda) e precocidade reprodutiva. Fatores que resultam na qualidade da carne capaz de atender os anseios do consumidor.

Atributos que levaram a cidade mineira de Uberlândia a receber a Convenção Nacional da Raça Senepol, realizada pela ABCB durante a Exposição Agropecuária de Uberlândia (Camaru). O evento traçou os objetivos para o desenvolvimento do taurino adaptado, bem como celebrou os 15 anos de Brasil. O encontro ocorreu entre os dias 31 de agosto e 7 de setembro, englobando palestras, dia de campo e leilão.

No primeiro dia do evento, Uberlândia comemorava 127 anos de existência, ao mesmo tempo que a ABCB Senepol trouxe para abrir a semana de seminário o senador Ronaldo Caiado (DEM/GO), que resumiu o cenário atual e deu pistas do amanhã para a pecuária e ao próprio Senepol.

“O Brasil é o único país do mundo capaz de produzir boi verde, ou seja, aqui entregamos para a indústria um produto sustentável, uma raridade no mundo atual. Além disso, nós conseguimos avançar, mesmo situados nos trópicos, em termos de qualidade de carcaça e precocidade sexual. Permite-nos fornecer um gado que atenda a demanda nacional e simultaneamente concorrer de forma competitiva no comércio internacional”, explanou o senador sobre a “década da pecuária brasileira” para os mais 500 senepolistas presentes.

Aptidão endossada pelos dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que mostram que o agronegócio foi responsável por 23% do total do Produto Interno Bruto (PIB) registrado pela economia brasileira em 2014. Isso significa que R$ 1,1 trilhão das riquezas produzidas no País procedem da agricultura e da pecuária.

“A pecuária é o único setor viável da economia brasileira, visto que o produtor ainda consegue quitar compromissos. Dessa maneira, o pecuarista pode vender os animais hoje e aguardar o depósito no dia seguinte. Já outros mercados em crise, como o imobiliário e a indústria automobilística, estão estagnados porque não há demanda”, concluí Caiado.

Segundo Caiado, o Senepol é uma raça que pode ser utilizada em sua região, no Vale do Araguaia/ MT, a uma temperatura de 40 graus, e ainda assim consegue acompanhar o rebanho Nelore com primazia. Algo que na opinião dele é difícil de ser praticado com as raças europeias.

E quando o senador falou com convicção que o Senepol poderia ser utilizado na região mato-grossense, não foi brincadeira. O criador Jorge Basílio, da Fazenda Coroados, em Juína/MT, região de clima quente e úmido no Noroeste do estado, já utiliza a raça no cruzamento com as raças Nelore e Red Angus há sete anos.

De acordo com o produtor, o animal resiste às condições climáticas, além de apresentar libido elevada. Destaca apenas um touro para cobrir 40 vacas. Para Basílio, é possível comercializar um bezerro fruto desse cruzamento com valorização de 25% a 30%, o que para ele comprova que a raça veio para impulsionar a pecuária brasileira.

Fortalecendo essa premissa, o diretor executivo da ABCB, proprietário da Senepol Cannã e organizador do dia de campo da convenção Cannã Day, Ricardo Magnino, disse em exclusividade que a entidade, inclusive, fechou uma parceria com o Frigorífico Real, de Uberlândia, para produção de carne de qualidade.

“Os traços de consanguinidade do Senepol brasileiro estão a níveis baixos, na média de 1,95%”, aponta o pesquisador Gilberto Menezes

“No congresso da raça, realizado em 2014, conversei com os executivos do frigorífico, que precisava disponibilizar um produto cárneo qualificado, cuja demanda até pouco tempo atrás inexistia. Agora, com uma proposta real por cortes de qualidade, os criadores de Senepol poderão receber um plus sobre o valor do gado de corte produzido”, esclarece Magnino.

A empresa deverá pagar bonificações de 3% pelo macho que esteja dentro do padrão exigido de quatro dentes e três milímetros de acabamento de gordura e nas fêmeas, 5% (a especialidade do frigorífico é o abate de fêmeas). “Dentro dessa perspectiva, fechamos um acordo para produzir 10.000 bezerros Senepol meio-sangue Nelore para que possamos ter carne Senepol em grande escala no mercado”, projeta.

Segundo Magnino, a ideia para alcançar tal volume é utilizar a técnica de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IAFT), com sêmen do adaptado, em 500 vacas Nelore em dois protocolos, com repasse de touro Senepol. Todo o processo será acompanhado por técnicos da ABCB Senepol.

Diversidade genética

Compondo o segundo dia de congresso, o zootecnista e pesquisador pela Embrapa Gado de Corte, Gilberto Romeiro de Oliveira Menezes, trouxe à tona um tema essencial para o melhoramento genético do Senepol: a variabilidade genética do taurino tropical por meio da análise de pedigree.

Trabalho que está disponível no Sumário de Touros Senepol Geneplus/Embrapa 2015, lançado durante a Convenção. Menezes chama a atenção dos criadores para evitar a consanguinidade do rebanho (endogamia), termo utilizado para caracterizar o acasalamento entre dois animais que possuem algum grau de parentesco. O aumento no nível de endogamia faz com que os animais sejam mais homozigotos (menor variabilidade genética) e, com isso, estejam mais propensos à doenças hereditárias.

Mães Nelore com filhos F1 Senepol, a prova do cruzamento industrial qualificado

Populações que possuem uma menor diversidade genotípica podem simplesmente deixar de sobreviver e se reproduzirem perante condições ambientais mais severas. “Nós analisamos exclusivamente os adaptados PO nascidos nas propriedades brasileiras, no ano de 2001 a 2013, totalizando 18.570 animais”, explica Menezes.

“Com esses animais, nós voltamos a ter a genealogia dos fundadores (dos EUA e das Ilhas Virgens) para completar o pedigree. Assim, nosso banco de dados ficou com 20.228 indivíduos, sendo 9.185 fêmeas e 11.043 machos, com esses nascidos no ano de 1950 a 2013. Ou seja, a ideia é ter um retrato fiel do Senepol brasileiro”, diz o pesquisador.

Para o especialista da Embrapa, a proposta é realizar melhorias na base de dados da associação, completando as informações de pedigree de muitos dos animais inseridos no sistema da ABCB Senepol. O projeto gerou a adição de 258 bovinos na base dos quais não se tinha conhecimento genealógico, bem como o ajuste de data de nascimento de 806 animais, ajuste de pai de 1.487 e 266 da mãe, além da eliminação de 43 duplicações (animais repetidos).

“Os traços de consanguinidade do Senepol brasileiro estão em níveis baixos, na média de 1,95%. A mesma pesquisa endogâmica realizada com zebuínos Nelore registrou média de 2,70% e o Guzerá, de 2,39%. Isso mostra empenho dos senepolistas para minimizar e controlar o parentesco nos cruzamentos”, afirma Menezes.

Contudo, ele também alerta os criadores para uma tendência na utilização de poucos reprodutores no plantel, ocasionando o gargalo genético. A pesquisa recomenda que os selecionadores de Senepol utilizem touros e matrizes de ampla diversidade genética do mesmo modo que considere o controle de endogamia ao realizar o acasalamento do rebanho. Também a inserção de touros jovens deve ser fomentada.

Segundo Menezes, os próximos passos são a aplicação desses resultados no Programa de Melhoramento da raça e a complementação do estudo sobre a estrutura genética do Senepol, com uso de marcadores moleculares.

Raça democrática

Um fato que está deixando a ABCB Senepol entusiasmada é o surgimento de novos criadores na raça. A associação contabiliza a entrada de 70 novos criatórios no período de janeiro a agosto deste ano.

Glayson Bom Conselho resolveu investir no Senepol após participar do 1º Congresso Internacional do adaptado, em 2014

O líder da instituição almeja, até 2017, alcançar a marca de 500 criatórios associados. “O Senepol, na verdade, tem feito o trabalho por nós. Cada vez mais um número maior de pecuaristas percebe o que é dito em relação ao animal, sobre a adaptabilidade, a rusticidade, a precocidade, a longevidade e, principalmente, a capacidade de cobrir a vacada a campo, em um território igual ao nosso, com temperatura elevada e às vezes até com falta de alimentação. São fatores que ocasionaram esse boom da raça”, avalia Goudard.

Para o dirigente, o maior indicador desse crescimento são os índices de recompra dos criatórios que fizeram teste com o Senepol e, ao verem os bezerros nascidos, retornaram no ano seguinte comprando cinco vezes mais touros que anteriormente.

“Isso resulta na escala de qualidade e visibilidade da utilização do adaptado no cruzamento industrial. Faz com que o vizinho do criador enxergue a qualidade dos bezerros que estão nos pés das vacas e, claro, ele quer saber o porquê desse diferencial de um animal tão bem acabado sendo produzido lá e não em sua fazenda. Então, ele descobre que é o touro Senepol que proporciona isso”, comenta o presidente.

Goudard ressalta o crescimento na ordem de 40% nos últimos quatros anos e a perspectiva para 2015 é um avanço de 60%. No último ano, foram comercializadas 243 mil doses de sêmen, ocupando a segunda colocação entre os taurinos e, no geral, só atrás do Nelore e do Angus.

“As pessoas perguntam se o taurino caribenho é a bola da vez. Eu digo que não. Mas é a bola que começou a rolar e vai fazer muitos gols. O Senepol apenas começou a mostrar as qualidades aos produtores. Ainda nem conseguimos chegar a um patamar de volume muito grande. Portanto, nós colocamos nossa cara a bater para que as pessoas nos conheçam”, explica Goudard.

Prova de eficiência alimentar com a raça Senepol revela o baixo consumo dos animais e excelente ganho de peso

Ele recorda que o animal atraiu olhares de renomados criadores/ artistas da música sertaneja como Michel Teló, Jads & Jadson, Almir Sater, além do escritor prestigiado, psiquiatra e criador Augusto Cury, que fez uma palestra emocionante sobre os caminhos para alcançar a felicidade, o qual, muitas vezes, perdemos por destinar parte do tempo a coisas não essenciais.

E quem está correndo atrás dos seus sonhos é o criador da Fazenda Peão Agropecuária BC, Glayson Bom Conselho, que depois de participar do 1º Congresso Internacional Senepol, em 2014, iniciou plantel no município de Bom Jesus do Amparo/ MG.

“Estudo a raça há mais de três anos, após conhecer o Pedro Crosara [presidente do Conselho Deliberativo Técnico da ABCB] que está sendo meu padrinho, aconselhando onde investir em cima das fêmeas Nelore. Eu vou empregar o Senepol no confinamento desde a cria e recria para produção tanto de F1 para corte quanto do Senepol PO, utilizando a inseminação com FIV, TE e IATF”, diz o recém-chegado senepolista, que está acertando os últimos detalhes do confinamento.

Os filhos e sucessores do pioneiro João Arantes Júnior, Ricardo Arantes e Neto Arantes, diretores-executivos da Fazenda Nova Vida, estão dando uma contribuição significativa para disseminar o animal em solo tupiniquim. Segundo os herdeiros, entre 2014/2015 eles trouxeram cerca de 50 novos criadores.

“Quando meu pai trouxe o Senepol, ele sempre acreditou que o animal desempenharia um papel fundamental no crescimento da pecuária brasileira, sobretudo no cruzamento industrial, mas isso seria possível apenas através da democratização da genética, ou seja, permitir que novos criadores e pequenos produtores tivessem acesso a animais, touros, sêmen e embriões. E a fazenda sempre deixa à disposição esse tipo de genética, seja para um criador de 1.000 cabeças ou cinco”, lembra Ricardo Arantes.

A segunda edição do Leilão Elite realizado pelos irmãos Arantes no dia 3 de setembro, durante a Convenção, contou com a presença de 400 pecuaristas, que movimentaram a cifra de R$ 1,145 milhão, com a comercialização de 36 doadoras, muitas de linhagens raras.

Eficiência alimentar

O sistema de avaliação denominado Consumo Alimentar Residual Prova de eficiência alimentar com a raça Senepol revela o baixo consumo dos animais e excelente ganho de peso REVISTA AG - 31 (CAR) é um dos métodos utilizados nos programas de melhoramento atuais para avaliar o consumo individual e o ganho de peso diário de cada animal, possibilitando a identificação de reprodutores que, para um mesmo ganho, consumam menos alimento, diminuindo os custos de produção e tornando a propriedade mais sustentável.

Buscando comprovação científica sobre a eficiência alimentar no gado vermelho, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com apoio da ABCB Senepol, realizou uma Prova de Eficiência Alimentar de Touros na Fazenda Capim Branco, em Uberlândia, com 38 touros avaliados, pertencentes a 16 criatórios, sob supervisão da professora Carina Ubirajara de Faria.

Os animais entraram na fazenda dia 26 de janeiro, aos 15 meses de média de idade. Passaram 21 dias em adaptação e foram pesados a cada 14 dias, com comida servida à vontade durante a prova. Para o estudo, a universidade utilizou o sistema GrowSafe, capaz de emitir relatórios online, 24 horas por dia, da alimentação de cada indivíduo.

As informações eram enviadas via satélite para uma central de dados onde os pesquisadores faziam a mensuração, gerando, assim, o cálculo da eficiência alimentar de cada touro que convertia proteínas e nutrientes vegetais de menor valor agregado em carne. O alvo do estudo foi identificar os reprodutores que possuíssem essa característica e a repassassem para sua progênie.

Com o término da prova, no dia 4 de maio, o campeão da raça foi o touro da fazenda Senepol Santa Luzia, SL 110, que saiu da avaliação com 18,6 meses, pesando 563 kg e apresentou ganho de peso diário de 1,071 kg, 39 cm de circunferência escrotal e gerou CAR negativo de 1,427 kg de Matéria Seca (MS) por dia. O CAR negativo indica que o animal consumiu menos que os demais participantes e produziu maior volume de carcaça.

“São diversos locais que desenvolvem esse tipo de prova com o adaptado, como o Instituto de Zooctenia de São Paulo (IZ/SP), UFU, Prova de Avaliação de Desempenho da Raça Senepol (PADS), e temos observado que geralmente a dieta alimentar do Senepol é planejada para que ele ganhe 1,1 kg diariamente. Porém, para nossa surpresa, a média ultrapassou 1,7 kg, pois a conversão alimentar desses animais é muito grande em razão da adaptabilidade ao clima tropical. Isso porque foi concebido na Ilha de Saint Croix, onde existe uma dificuldade de alimentação maior que as pastagens degradadas que temos no Brasil”, conclui Goudard.

“Avante SENEPOL!”, complementa.