Entrevista do Mês

Popularização da Fertilização In Vitro

Comumente utilizada na pecuária de elite, a Fertilização In Vitro (FIV) ficou restrita no Brasil. No Pará, uma ideia saiu do papel na última estação de monta e promete mudar esta perspectiva, levando a tecnologia aos rebanhos comerciais a um custo acessível. A partir de apenas uma dose de sêmen sexado, poderiam ser produzidos 100 embriões. Quem fala mais é Rodrigo Untura, diretor de Produção e responsável por Projetos em Larga Escala da In Vitro Brasil.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Como surgiu a ideia de oferecer FIV para rebanhos comerciais?

Rodrigo Untura - Dos plantéis leiteiros. Os principais rebanhos do país começaram a usar embriões sexados de fêmea, ao invés do sêmen convencional ou sexado. O sêmen sexado tem baixíssimo índice de prenhez na inseminação artificial convencional e em tempo fixo. Após esta ideia, comecei a idealizar como seria produzir embriões de FIV (fertilização in vitro) sexados de macho para rebanhos de corte. Se conseguisse tornar viável financeiramente, esta técnica poderia mudar o cenário dos rebanhos de corte no Brasil. Além disso, no Norte, o mercado de animais de elite é muito restrito.

Revista AG - Foi difícil convencer os pecuaristas de que a tecnologia é viável à produção de carne?

Rodrigo Untura - Produtores que já trabalham com produção de embriões, inseminação convencional ou IATF (inseminação artificial em tempo fixo) tiveram mais facilidade em aderir à técnica. Produtores mais conservadores, aqueles que ainda utilizam apenas touros para emprenhar as vacas, têm uma dificuldade imensa em aceitar qualquer tecnologia, ainda mais uma como esta.

Revista AG - Qual foi a solução para baratear os custos desta técnica ao pecuarista comercial?

Rodrigo Untura - Umas das fases que encarece a FIV é o processo de aspiração nas vacas vivas. Por este motivo, ficou restrita aos criatórios mais elitizados. Na FIV comercial, essa etapa não existe, pois os óvulos são aspirados de vacas abatidas, nos próprios frigoríficos. Além disso, a realização em grande escala ajuda a derrubar o preço a um patamar acessível.

Revista AG - O processo de produção de embriões in vitro compreende quantas etapas?

Rodrigo Untura - Três: aspiração do animal vivo, seguida da fecundação e transferência dos embriões. No projeto da FIV comercial, anulamos a aspiração e, por isso, não precisamos dispor de veterinários e também não dependemos da produção de um indivíduo único, como acontece, normalmente, numa aspiração de doadora elite. Posso conseguir o número de ovários que forem precisos na indústria.

Revista AG - Quanto custa o serviço?

Rodrigo Untura - No método tradicional, para produção de animais de elite, custa aproximadamente R$ 450,00 por prenhez confirmada aos 60 dias. Neste projeto de produção de animais de corte, o valor cai drasticamente, para R$ 60,00 por embrião (inclui aspiração, fecundação, sêmen, transferência e diagnósticos precoces e definitivos) ou R$ 150 por prenhez confirmada aos 60 dias. Porém, o contrato é feito a partir de 1.000 embriões. Pagar por prenhez ou embrião é escolha do cliente.

Revista AG - Qual a origem das vacas abatidas, das quais são extraídos os óvulos?

Rodrigo Untura - Podem ser do próprio cliente, de terceiros que estejam na escala de abate do dia ou descarte de plantéis de elite ou de criatórios que fazem melhoramento genético. Estas matrizes podem ter sido abatidas por já possuírem uma idade avançada ou por terem continuado vazias após a estação de monta. Os embriões geralmente são transferidos a fresco, mas também existe a possibilidade de congelá-los, uma alternativa para quem não deseja usar vacas abatidas de terceiros.

"Uma das fases que encarece a FIV é o processo de aspiração nas vacas vivas... Na FIV comercial, essa etapa não existe, pois os óvulos são aspirados de vacas abatidas, nos próprios frigoríficos. Além disso, a realização em grande escala ajuda a derrubar o preço a um patamar acessível".

Revista AG - Além da FIV, o pecuarista ainda arca com o sêmen utilizado no processo?

Rodrigo Untura - O sêmen utilizado possui um valor de R$ 55 por dose e está incluído no valor do embrião. Caso o pecuarista queira utilizar um touro mais caro, paga-se somente a diferença. O produtor pode escolher a raça que preferir.

Revista AG - O touro doador de genética precisa ter um perfil diferenciado?

Rodrigo Untura - O sêmen escolhido deve ser de um reprodutor com melhor fertilidade que o usado normalmente. Na FIV, usamos uma dose de sêmen para até dez vacas, usando sexado (produção de aproximadamente 100 embriões), ou até 20 com o convencional (cerca de 200 embriões).

Revista AG - O que os touros mais caros teriam a mais que aqueles mais baratos?

Rodrigo Untura - Eles possuem maior capacidade para imprimir as qualidades desejadas na progênie, como peso à desmama ou menores tempo e peso de abate.

Revista AG - Um bezerro nascido de FIV possui qualidade superior a um nascido de monta ou IA convencional?

Rodrigo Untura - Com a produção de embriões, podemos usar touros que são geneticamente superiores. Dessa forma, os produtos nascidos terão maior ganho de peso na desmama, irão para o abate mais cedo, serão padronizados, vão diminuir o manejo de fêmeas e confinamentos, entre outros. Automaticamente, estes touros são mais caros.

Revista AG - Esta FIV em gado comercial pode ficar mais barata que uma IATF com sêmen sexado?

Rodrigo Untura - Ela não é mais barata. Com a técnica de FIV, fica aproximadamente R$ 25,00 a mais por cabeça. Porém, o retorno financeiro que a FIV propõe é bem maior.

Revista AG - Qual a taxa de prenhez de FIV no rebanho comercial?

Rodrigo Untura - Varia entre 45% e 50%, basicamente a mesma do gado de elite, mas observamos um ligeiro aumento na porcentagem de prenhezes, por termos abundância de embriões e não necessitarmos escolher acasalamentos. Ou seja, todos os embriões resultam de um mesmo acasalamento, logo, escolhemos somente os melhores.

Revista AG - Até o momento, quantas prenhezes foram contabilizadas no projeto?

Rodrigo Untura - No final da estação de monta 2011/12, fizemos um projeto piloto nas fazendas do Grupo Quagliato, onde foram transferidos 822 embriões. Para a de 2012/13, já temos mais de 15 mil prenhezes contratadas somente no estado do Pará.

Revista AG - Quais cuidados cuidados de manejo, sanidade e nutrição devem ser tomados com a receptora para que não se perca o investimento?

Rodrigo Untura - A lida com embriões é muito parecida com o manejo de IATF. Sempre pedimos um manejo racional, com uso de bandeiras e sem gritos no curral. Outros pontos importantes são o fornecimento de, no mínimo, 80g de fósforo na mineralização, vacinas de leptospirose, IBR, BVD e que sejam feitos exames de brucelose. Sugerimos também a limpeza dos pastos e que estes sejam de boa qualidade.

Revista AG - Aliás, a gestação das fêmeas enxertadas é mais sensível do que a de matrizes de monta natural?

Rodrigo Untura - Temos de ter cuidado com estresse, ou seja, impedir trazer gado recém-transferido para o curral, evitar vacinas, vermífugos e medicamentos para controle de moscas até os 60 dias de gestação. Após este período, segue igual.


"No final da estação de monta 2011/12, fizemos um projeto piloto nas fazendas do Grupo Quagliato, onde foram transferidos 822 embriões. Para a de 2012/13, já temos mais de 15 mil prenhezes contratadas somente no estado do Pará."

Revista AG - Em comparação à IA e à IATF, a técnica, que, na verdade, torna-se uma transferência de embriões em tempo fixo, realmente vale o investimento?

Rodrigo Untura - No nosso projeto piloto, que deu origem ao serviço, os resultados foram bem interessantes, pois contrapomos as três técnicas. Na IA e na IATF com sêmen convencional, as taxas de concepção são um pouco melhores em comparação à FIV comercial, mas o fato de nascer 50% de bezerros machos e 50% fêmeas prejudica o rendimento financeiro final, posto que a arroba de boi gordo é mais valorizada que a de vaca em cerca de 10%. Como na FIV comercial podemos utilizar sêmen sexado de macho, apenas 10% dos embriões nasceriam fêmeas. Neste caso, a FIV comercial proporcionaria um rendimento de, aproximadamente, R$ 110 mil (supondo uma @ de boi gordo a R$ 90) a mais que as duas técnicas na venda dos bezerros que se tornarão bois gordos no futuro, já considerando uma taxa de prenhez de 45% a cada 1.000 vacas transferidas. Em comparação à IATF com sêmen sexado, os resultados são ainda mais consistentes, resultando em um montante de R$ 250 mil a mais. E isso já superestimando a taxa de concepção da IATF com sexado para 30% - a média nacional é 20%.