Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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OVINOCULTURA

POTENCIAL PARA CRESCIMENTO

Demanda aquecida estimula cadeia da caprinovinocultura a trabalhar pelo aumento da produção

Holanda Júnior, da Embrapa: interesse dos criadores em material genético revela evolução qualitativa dos rebanhos

A caprinovinocultura é um setor com enorme potencial para crescer, mas com muitos desafios a superar. Com demanda em ascensão por produtos como carne e leite, a cadeia trabalha para organizar melhor a atividade e conquistar uma posição consolidada no mercado. A tarefa não é fácil, mas algumas iniciativas podem ajudar a impulsionar a produção. Uma das evoluções mais importantes dos últimos anos está relacionada ao melhoramento genético dos rebanhos, avalia o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Schwab. “O aumento do interesse pela carne levou a uma mobilização do setor nesse sentido. Existe a consciência de que é preciso investir no plantel para oferecer um alimento de qualidade”, destaca o dirigente.

O pesquisador Evandro Holanda Júnior, chefe-geral da Embrapa Caprinos e Ovinos, também tem essa percepção. Segundo ele, um dos indícios desse progresso qualitativo é o crescimento do número de rebanhos participantes de projetos de melhoramento baseado em provas de performance produtiva, como é o caso do Programa de Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos de Corte (Genecoc), desenvolvido pela Embrapa.

A genética ovina brasileira, que é representada por 26 raças registradas pela Arco, desperta inclusive o interesse do mercado externo. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex) já foi contatada para avaliar as possibilidades de negociações com outros países, mas o Brasil ainda precisa resolver questões sanitárias para evoluir nesse tipo de comercialização. “Já desenvolvemos novas linhagens nas raças exóticas e aprimoramos muito as raças brasileiras. Esse trabalho é interessante para outros países porque pode ajudar na renovação da sua seleção”, argumenta Schwab.

Apesar de vislumbrar oportunidades para a venda de material genético ao exterior, a cadeia sabe que tem um longo caminho pela frente no mercado interno. Uma das necessidades mais urgentes é conquistar o aumento do rebanho para organizar efetivamente um mercado da carne ovina no Brasil. Hoje, em torno de 60% dos cortes consumidos no país têm origem nas importações, especialmente do vizinho Uruguai. A informalidade no abate e na venda da carne também dificulta o tabelamento de informações e o direcionamento de medidas de desenvolvimento.

O presidente da Arco tem a convicção de que o trabalho da extensão rural pode ser determinante para ampliar o rebanho nacional. “Precisamos que os técnicos trabalhem de forma mais direcionada, levando a transferência de tecnologia ao produtor, que precisa conhecer a atividade. Temos carência nessa área e, muitas vezes, deficiência de mão de obra qualificada nas propriedades”, assinala.

É preciso prestar atenção ao mercado. Embora não exista um levantamento numérico que indique essa ampliação, os representantes da cadeia produtiva garantem que o interesse dos consumidores pela carne cresceu significativamente nos últimos anos. A comercialização aumentou principalmente nos restaurantes que oferecem cortes especiais nos seus cardápios. “Podemos afirmar que houve uma elevação no consumo se considerarmos os investimentos em frigoríficos de grande escala e o interesse dos produtores por material genético capaz de produzir carne de qualidade. O leite de cabra e o leite de ovelha também estão recebendo muito mais atenção”, salienta o pesquisador Evandro Holanda Júnior, da Embrapa. Na opinião do especialista, é importante analisar o comportamento desse mercado para saber de que forma é possível agir. “A carne está sendo ofertada em mais estabelecimentos e um maior número de pessoas está consumindo esses cortes. Porém, o impacto no volume do consumo ainda é pequeno, porque a frequência de consumo também é baixa”, observa.

O pesquisador alerta que se os produtos da cadeia não estiverem inseridos no mercado, o setor não será economicamente viável. “Os leilões e as exposições são importantes, mas não suficientes para garantir a viabilidade. É necessário colocar como foco principal dos negócios um objetivo central: aumentar a frequência com que os consumidores encontram e escolhem consumir a carne. E isso somente será possível com oferta regular”, projeta. Não há uma estatística concreta sobre o consumo de carne ovina no país. O presidente da Arco, Paulo Schwab, estima que esse índice esteja em torno de 500 gramas por habitante ao ano. Ao mesmo tempo, o pesquisador Holanda Júnior acredita que, entre cortes ovinos e caprinos, o consumo fique entre 700 gramas e 1,2 quilo por pessoa ao ano.

Conseguir dados estatísticos fiéis à realidade ainda é um desafio para a caprinovinocultura nacional. Há muitas opiniões divergentes em relação aos números do rebanho, mas os indicadores mais recentes mostram pouca variação nos últimos anos. Em novembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou os dados da Pesquisa Pecuária Municipal 2008 (PPM 2008), que mostram um aumento de 2,4% no plantel de ovinos entre 2007 e 2008, e um recuo de 1% no efetivo caprino no mesmo período.

O estudo aponta para um total de 16,6 milhões de cabeças de ovinos, com destaque para a Região Sul, que teve um incremento de 5,3% no rebanho, com 4,85 milhões de cabeças. Entre os caprinos, o plantel soma 9,35 milhões de exemplares, sendo que no Nordeste, onde está a maior concentração da espécie, a queda na produção foi de 1,3% entre 2007 e o ano passado.

Em 2010, as atenções da cadeia estarão voltadas para a implementação do Plano de Desenvolvimento da Caprinocultura e da Ovinocultura elaborado no âmbito da Câmara Setorial do Ministério da Agricultura. O plano tem como pontos centrais a conclusão e a implementação do programa nacional de sanidade, a implantação do programa de melhoramento genético e de ações de pesquisa e desenvolvimento visando tecnologias para produção de carne, leite, pele e lã de qualidade. “Também temos como metas o estudo do complexo da caprinovinocultura e a criação de um programa nacional de capacitação continuada para técnicos, produtores e trabalhadores rurais. O plano está em execução e várias ações estão em curso”, explica Holanda Júnior