Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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MERCADO DE LEITE

SINAL ABERTO

Após recuo histórico na produção, expectativas apontam para retomada da atividade leiteira

O ano de 2009 iniciou repleto de incertezas. Qual seria a extensão da crise econômica que havia eclodido há três meses e quais seriam os reflexos da mesma? Ficaria a economia do país seriamente fragilizada e o crescimento visto nos últimos anos, estagnado ou até comprometido? Dúvidas não faltavam.

No setor lácteo, a situação também não era animadora. Os produtores encontravam- se desestimulados – em função da queda nos preços do leite no segundo semestre de 2008 – e o mercado internacional mostrava, mês após mês, recuo no preço das commodities, chegando a valores próximos aos praticados em 2006. Do lado da indústria, em 2008, os investimentos no Brasil foram maciçamente voltados à produção de leite em pó – em função dos altos preços no mercado mundial e na expansão das exportações –, com construção de torres de secagem e ampliação de unidades processadoras. Na visão de muitos analistas internacionais, os preços não deveriam voltar a cair devido a um forte desabastecimento do mercado, ausência de estoques e demanda crescente por países emergentes. Mas os altos preços de 2007 e 2008 estimularam a produção e isso, com a queda na demanda em função da crise, forçou os preços para baixo.

As previsões, então, não se confirmaram. O mercado internacional começou a dar sinais de desaquecimento já no 2º semestre de 2008, o que foi imediatamente repassado ao produtor nacional. Desestimulado em função dos preços e ressabiado em relação ao cenário de economia instável, o produtor reduziu seu volume de produção, resultando numa queda histórica de 4,52% no 1º semestre deste ano comparado ao mesmo período de 2008 (produção inspecionada). Quando comparado o segundo trimestre de 2009 ao mesmo trimestre de 2008, a diminuição Fotos: Thaíse Teixeira 2010 15 chega a 8,7%. Mesmo em outros períodos de crise, esse fato não havia sido registrado, sendo que, no passado recente, a produção do primeiro semestre de um ano vinha sempre mostrando crescimento em relação ao 1º semestre do ano anterior.

Os baixos preços internacionais, aliados à valorização da moeda brasileira frente ao dólar, criaram uma situação desfavorável às exportações – que ficaram praticamente zeradas em alguns meses do ano –, além de propiciar a retomada das importações (já que, com preços baixos e moeda valorizada, ficou muito mais atrativo trazer produto de fora, principalmente dos países do Mercosul, pela ausência de tarifas de importação). E foi exatamente o que aconteceu: o saldo da balança comercial de lácteos no 1º trimestre ficou negativo em cerca de US$ 11 milhões. No período, foram importadas 27 mil toneladas de leite em pó (21,5 mil provenientes da Argentina e 5,5 mil toneladas do Uruguai). Para conter esse movimento, o governo brasileiro impôs medidas restritivas à importação de lácteos – através do licenciamento não automático – determinando limites e preço mínimo para o leite em pó vindo da Argentina e do Uruguai. Com isso, o preço pago ao produtor brasileiro se descolou dos preços internacionais, chegando a superar até mesmo os valores europeus, como mostra o gráfico 1.

Os preços seguiram a dinâmica do mercado interno, no qual a crise não se mostrou intensa no setor de alimentos e bebidas. Uma pesquisa da LatinPanel sobre consumo mostrou que o maior crescimento em volume, no 1º semestre, ocorreu nos alimentos, com um aumento de 15% ante o primeiro semestre de 2008.

Longa Vida

Outro ponto de destaque, neste ano, está relacionado ao leite longa vida. Com aposta plena das empresas na produção de leite em pó – impulsionado pelos altos preços de 2007 e 1º semestre de 2008 –, o leite longa vida teve sua produção reduzida, com o agravante de algumas empresas importantes do segmento estarem endividadas e, até mesmo, em recuperação judicial. Com isso, o ano de 2008 terminou superofertado de leite em pó e com pouco volume de leite UHT. Com consumo mantido e produção reduzida, a demanda pelo produto foi impulsionada, e seus preços começaram a disparar no atacado (veja no gráfico 2). As empresas iniciaram uma corrida por leite, elevando os preços ao produtor. Mas esse incremento – ocorrido a partir de abril – só foi chegar ao campo mais evidentemente em junho, quando os valores no atacado atingiam o seu pico, já perdendo força daí em diante. Vale ressaltar que a variação de preços do leite UHT (diferentemente dos queijos) é mais tolerada por parte do consumidor, que, apesar de fazer substituições e reduzir o consumo, dificilmente deixa de comprar o produto. Desta forma, com demanda mais inelástica, o produto aceita preços mais altos antes do consumo declinar.

Com a elevação dos preços, em algum momento afetando a demanda, e com a recuperação antecipada da oferta no Centro- Oeste e Sudeste, os preços dos lácteos mostraram queda, principalmente o leite longa vida e os queijos. Ao produtor, o pagamento de outubro veio com diminuição de 5,9% em relação ao mês de setembro, em R$ 0,6984/litro. Para o pagamento de novembro (referente ao leite de outubro), 85,5% dos representantes das empresas pesquisadas pelo Cepea falam em nova redução. Em relação à oferta, o aumento da produção de leite no 4º trimestre não deve ser tão expressivo quanto nos anos anteriores em função da antecipação das chuvas no Sudeste e Centro-Oeste e também das dificuldades dos produtores em relação aos custos de produção.

No mercado internacional, os preços estão em ascensão, mostrando reajustes mais significativos nos últimos dois meses, como mostra o gráfico 3. No oeste da Europa, a tonelada do leite em pó integral já chega próximo aos US$ 4.000 e a US$ 3.500/ton na Oceania. Os leilões da Fonterra através de sua plataforma de vendas online, globalDairyTrade, acumulam alta de 49% nos últimos 3 meses, sendo que a média dos contratos do leilão de novembro ficou em US$ 3.437/tonelada.

Os principais países produtores verificaram menor crescimento da oferta em 2009 (alguns até com queda, como o Brasil), reflexo dos preços baixos das commodities lácteas. Além disso, os custos de produção mais altos também implicaram redução: segundo dados do relatório do IFCN, apenas 2% do leite mundial pode ser produzido ao custo de US$ 0,20/litro, que seria o preço de equivalência do mercado internacional no início do ano. Além disso, problemas climáticos prejudicaram a produção na Oceania, sendo que o volume produzido nos três primeiros meses da estação 2009/10 na Austrália e na Nova Zelândia estão 4% e 2% inferiores, respectivamente, em relação ao ano anterior.

O que esperar para 2010?

Pelo que se pode ver até agora, a perspectiva para 2010 é positiva. Se os preços externos continuarem subindo ou ao menos se mantiverem nos níveis atuais, as empresas brasileiras já podem pensar em voltar a exportar. Com câmbio de R$ 1,80 e US$ 3.500/tonelada, cerca de R$ 0,64/ litro seria o preço de equivalência entre o leite em pó no mercado internacional e o preço ao produtor. Em apresentação do USDEC – Dairy Outlook 2010, Mark Voorbergen, do Rabobank, acha que os preços das commodities no final deste ano serão um indicativo do valor médio para o ano de 2010, apesar do mercado internacional se mostrar muito volátil ultimamente.

Mantido este cenário de oferta controlada, retomada da economia mundial (nova previsão do FMI aponta que o PIB mundial em 2009 deve crescer 3,1%, versus queda de 1,1% na previsão anterior) e crescimento do consumo (principalmente em países emergentes), pode continuar a ocorrer elevação de preços no 1º semestre de 2010, apesar de analistas internacionais acreditarem que os sinais não são tão claros assim: na opinião do especialista do Rabobank, os estoques europeus só serão eliminados no segundo semestre de 2010, além do fato da demanda ainda não ter crescido consistentemente no mundo, sendo hoje puxada principalmente pelos países asiáticos. De qualquer forma, dois sinais positivos: primeiro, a União Europeia zerou novamente os subsídios às exportações, prática que normalmente vem associada a preços em recuperação; segundo, a Fonterra elevou seu pagamento para esta estação.

No Brasil, com o país saindo da crise e se fortalecendo, as operações para consolidação do setor lácteo podem ser retomadas, com novos investimentos e possível retomada da corrida por leite. Na Europa, com as empresas em condições mais estáveis, também é esperada uma nova onda de fusões e aquisições no setor, principalmente se analisarmos o cenário para os próximos cinco anos.

É evidente que há diversas variáveis que podem mudar essa previsão: se a crise tiver mais uma perna, como muitos acreditam, ou se a oferta de leite responder mais rapidamente ao aumento de preços do que o esperado, essa tendência de alta pode não se concretizar. Se a oferta interna crescer significativamente nos próximos meses – o que não acreditamos – talvez demore mais para termos o alinhamento com os preços externos. E há sempre o aspecto cambial que, aparentemente, não trará grandes novidades. O cenário mais provável, no entanto, aponta para um 2010 promissor para o setor.