Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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CAINDO NA BRAQUIÁRIA

A VOCAÇÃO AGROPECUÁRIA DO SUDESTE GOIANO

“À venda essa linda Fazenda, boa para pecuária leiteira, cria, recria e engorda, lavoura e cana”, dizia a placa pregada no mourão daquele lindo pedaço de terra à beira da rodovia que liga Rio Verde a Montividiu. Me vi obrigado a parar o carro na frente da porteira. Observei, então, que havia um senhor que se encontrava com um rolo de arame liso no braço e todo o aparato necessário na cintura para executar o trabalho de manutenção de cerca. Era o Sr. Antonio, conhecido como Toninho, empregado da fazenda.

Deveria haver motivos plausíveis para essa venda, já que a própria placa denotava a vocação extraordinária dessa terra para se obter os mais altos níveis de produção agropecuária. Encontra-se fincada no sudoeste goiano, região de terras roxas, com quase meio milhão de habitantes, a mais de 700 m de altitude, sendo talvez a região com maior vocação econômico- edafoclimática do país para produção agropecuária.

Questionado sobre a venda, Sr. Toninho nos informou que a venda da fazenda tinha sido uma decisão do dono, Sr. Hugo, que, já com idade avançada, preferiu vender a propriedade e dividir o dinheiro entre os quatro filhos, que não sentiam interesse pela produtiva terra de 1.450 ha que seu pai havia aberto em 1960 para pecuária de corte e lavoura.

Por volta das 8h30min, chegamos à fazenda do Sr. Ronaldo, veterinário de formação e administrador, que, com seu irmão, toca os quase 2.500 ha de terra. Eles plantam soja e mantêm um rebanho de 700 vacas Nelore e cruzadas, fazendo com perfeição o trabalho de integração lavoura-pecuária.

Ronaldo nos contou detalhes importantes do sistema de produção implantado por eles, tais como a prática do plantio de braquiária em abril, após a retirada do milho safrinha, nos relatando que, para sua surpresa, essa prática traz vantagens como cobertura do solo na área de lavoura, durante os meses de inverno, dando um descanso às pastagens perenes de verão e levando as matrizes para pastorear nessas áreas manejadas com cerca elétrica para rotação de pastagens. “Se eu deixar o solo descoberto na entressafra agrícola, a terra aguenta quatro semanas sem secar. Se plantar braquiária para cobertura, ele se mantém úmido quase todo o tempo, precisando de poucos chuvisqueiros para não secar totalmente. E tem mais: caso haja uma chuva forte, meu solo não será levado morro abaixo se tiver plantado braquiária”, explica conscientemente Ronaldo.

O produtor tem observado que os melhores bezerros são aqueles nascidos no final da seca. Suas mães vivem com sobra dessa pastagem plantada na área de lavoura e os bezerros registram menores problemas de saúde do que quando nascidos no verão chuvoso. Dos 2.500 ha da propriedade, 1.000 ha são mantidos como pastagens, sendo 10% anualmente recuperados com plantio da soja. Para 2010, os proprietários têm como projeto principal a formação de 20 ha de pastagens de Tifton que acomodarão os bezerros nascidos e desmamados sem ocasionar problemas de intoxicação por fungo da braquiária.

Os irmãos deixaram bem claro que mantêm parte da fazenda com a pecuária por considerar uma “poupança viva” as vacas no pasto. E Ronaldo ainda enfatiza: “Zadra, as vacas, para nós, são a garantia de renda se precisarmos de dinheiro vivo para uma eventual urgência. O risco é quase zero. Pode até haver seca por um tempo, que elas se recuperam. E sem perdas como na lavoura, que nos dá maior lucro que a pecuária, mas que, intrinsecamente, possui risco bem maior que a criação de gado”.

Ronaldo tem sua fazenda cercada por cana, produto que servirá parte das 27 usinas construídas no sudoeste goiano. O número de indústrias deve chegar a 55 em 2012 com a agenda de inaugurações das que estão em construção, atingindo assim a 2ª colocação em produção de açúcar e etanol no país.

Nem tudo são flores, pois, cruzando o município de Acreúna, vimos um cenário desolador com inúmeros armazéns de recebimento de soja, milho e sorgo desativados e totalmente tomados pelo mato. No entanto, esperamos que os preços de commodities agrícolas se mantenham atraentes ao lavorista para contrabalançar a invasão da cana na linda paisagem do sudoeste goiano. Sabemos que a combinação da lavoura e da pecuária através da integração é o caminho para se obter lucro nesse tipo de terra com extraordinária vocação natural para a agropecuária.