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PASTAGEM

INIMIGAS TRAIÇOEIRAS

Plantas tóxicas afetam rendimento do gado e podem causar grandes perdas econômicas

Prof. Dra. Carla Guerra, Prof. Dra. Cristina Silva e Prof. Dr. Ricardo de Soutello - Docentes do Curso de Medicina Veterinária da Faculdade de Ciências Agrárias – Andradina (SP)

A bovinocultura de corte no Brasil é essencialmente baseada em sistemas de pastagens. Como em outros países, uma significativa causa de prejuízos na pecuária está na ingestão de plantas tóxicas. O número das conhecidas para ruminantes no Brasil aumenta constantemente. Atualmente, são descritas pelo menos 88 espécies tóxicas, pertencentes a 50 gêneros. Apesar do grande número, as identificadas como causadoras de perdas econômicas importantes são relativamente poucas, mas suficientes para causar grandes prejuízos.

Denominam-se plantas tóxicas todo vegetal que, introduzido no organismo dos homens ou de animais domésticos, é capaz de causar danos à saúde e à vitalidade desses seres. Elas provocam um desequilíbrio que se traduz como sintomas de intoxicação. O princípio tóxico de uma planta consiste em uma substância ou um conjunto de substâncias quimicamente bem definidas, de mesma natureza ou de natureza diferente, capazes de, quando em contato com o organismo, causar intoxicação. Atualmente é desconhecido o princípio ativo de, pelo menos, 32 das 88 espécies descritas no Brasil. Esse conhecimento é necessário para desenvolver técnicas mais eficientes de controle. A intoxicação depende da quantidade de substância tóxica absorvida, da natureza dessa substância e da via de introdução.

A ingestão de plantas tóxicas pelos bovinos pode causar prejuízos também à saúde humana, uma vez que as toxinas podem ser transferidas para o homem através do consumo do leite e da carne. Como exemplo disso, podese citar um fato ocorrido nos Estados Unidos, onde o consumo de leite de vacas em pastagens invadidas por Eupatorium rugosum causou uma doença conhecida como enfermidade do leite (“milk sickness”), podendo ocasionar até mesmo a morte de pessoas.

Carência de dados

Em diversos estados brasileiros, há uma carência de dados sobre a frequência das causas de mortalidade de bovinos, o que dificulta as estimativas das perdas dos animais por morte ocasionada pelas plantas tóxicas. Pode-se estimar que, nos campos brasileiros, a mortalidade bovina anual decorrente de intoxicação por plantas tóxicas está entre 1.000.000 e 1.400.000 cabeças.

A ocorrência, frequência e distribuição geográfica das plantas tóxicas podem ser determinadas por diversos fatores, por exemplo, palatabilidade, fome e sede. Várias plantas tóxicas causam sinais que podem ser confundidos com picada de cobra, raiva ou outra doença. A mais temível do Brasil é a erva-de-rato ou cafezinho (Palicourea marcgravii).

Perdas econômicas importantes ocorrem em bovinos mantidos em pastagens de Brachiaria decumbens e outras espécies de Brachiaria com a presença do fungo Phitomyces chartarum, que causam fotossensibilização, principalmente nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste. Nos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, Região Sudeste, a planta tóxica mais importante é Cestrum laevigatum.

As principais práticas recomendadas para o controle das plantas tóxicas são mecânicas (corte, anelamento do caule, desenraizamento, queima, etc.), químicas (herbicidas) e biológicas, sob orientação técnica. Roçar é paliativo e, com a rebrota, o problema de intoxicação tende a se agravar; e, ainda, as folhas de certas plantas tóxicas tornamse mais palatáveis quando murchas ou secas (por exemplo, mamona). Após a queimada, também, a rebrota aumenta o risco de intoxicação.

Evitar excesso de lotação é o ponto- chave para reduzir a incidência de intoxicação, porque os bovinos sem restrição alimentar têm maior oportunidade de selecionar seu alimento, e as pastagens não degradadas têm menor infestação de plantas invasoras e tóxicas; portanto, os pastos degradados devem ser recuperados.