Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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MERCADO DA CARNE

NOVOS RUMOS

Andrea Brasil e Rodrigo Paniago - Boviplan Consultoria

Mudança na cadeia da carne e no cenário global já definem mercado

Durante este ano, houve muitas especulações de como o Brasil, em seus diversos setores, iria caminhar, devido, principalmente, à crise econômica mundial. No setor pecuário muitas transformações ocorreram. Algumas delas foram: a redução do valor pago pela arroba do boi gordo em alguns estados, o aumento dos custos com insumos e mão de obra, a concentração do abate na mão de poucos e, mais recentemente, as campanhas contra o consumo de carne bovina. Essas, em especial, afirmam que a criação de gado “causa” o desmatamento e, consequentemente, o aquecimento global. Este último fator de transformação da pecuária tem gerado preocupação em vários setores da cadeia produtiva e da comunidade científica, pois estas afirmações devem ser avaliadas com seriedade, antes que alardes e atitudes precipitadas causem estragos no futuro.

Mesmo diante de todas estas transformações, especulações e problemas associados à pecuária, o Brasil obteve o reconhecimento internacional, nos últimos anos, por sua competitividade na produção e na exportação de carnes. Mas apenas esta vantagem de produtividade já não garante um bom desempenho nas exportações, pois, segundo analistas e exportadores, a relação real/dólar também é fundamental na competitividade do segmento. O real mais caro eleva o preço da matéria-prima, em dólar, em relação aos países concorrentes exportadores, onde as moedas não estão tão valorizadas. Assim, devido a este fator e aliado à demanda, que ainda não está totalmente recuperada no mercado internacional, as exportações de carne do Brasil recuaram 24,1% de janeiro a outubro de 2009, na comparação

com o mesmo período do ano de 2008.

Conforme abordado em nossa edição de novembro de 2008, as estimativas da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) eram que, em 2009, o volume de carne bovina “in natura” exportada chegaria a 2,5 milhões de toneladas contra 2,2 milhões de t em 2008. Porém, de janeiro a outubro de 2009, o Brasil exportou 769,338 mil toneladas de carne bovina “in natura” (dados do MDIC - Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, analisados pela ABIEC). Entretanto, segundo avaliação do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), a comercialização mundial de carne bovina deve crescer em 2010, principalmente devido à retomada da economia mundial.

Um dos fatores que pode favorecer a retomada da exportação de carne bovina no país é a visita de técnicos da Coreia do Sul ao estado do Rio Grande do Sul, para conhecer o sistema de defesa agropecuária, objetivando negociar a compra de carne do Brasil. Outro fator é a inspeção de técnicos chilenos em estabelecimentos de abate e de processamento de carne bovina do Mato Grosso e do Tocantins. A visita teve o objetivo de avaliar a possibilidade de habilitar frigoríficos destes estados a exportarem carne “in natura” para o Chile. Hoje, nove estados já estão autorizados a vender carne para aquele país: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Rondônia, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro (Fonte: ABIEC).

No mês de outubro as exportações de carne bovina “in natura” somaram 82,4 mil toneladas, valor acumulado em 21 dias úteis. Este número é 6,5% maior que em setembro de 2009 (77,4 mil toneladas em 21 dias) e 7,6% menor que em outubro de 2008 (89,3 mil toneladas em 22 dias úteis) (dados da SECEX – Secretaria do Comércio Exterior, do MIDC). O número de propriedades na lista de fazendas ERAS/TRACES habilitadas a exportar carne bovina “in natura” para a União Europeia aumentou em 147 em novembro, totalizando 1.712 propriedades. As fazendas estão distribuídas, por estados no Brasil, da seguinte maneira: 24 no Espírito Santo, 145 no Mato Grosso do Sul, 287 no Mato Grosso, 36 no Paraná, 105 no Rio Grande do Sul, uma em Santa Catarina, 112 em São Paulo, 613 em Minas Gerais e, em Goiás, onde no mês de setembro eram 403 e em outubro 366, agora são 389 (Fonte: European Commission).

O abate de bovinos no país, até o dia avaliado no mês de novembro, totalizou 394.795 cabeças, sendo 146.967 no Mato Grosso, 70.631 em Minas Gerais e 85.724 em São Paulo. De janeiro ao dia avaliado em novembro, foram abatidas 17.787.044 cabeças, valor este 14,26% menor que o mesmo período de 2008 (20.746.856 cabeças) (Fonte: MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). É importante ressaltar que no ano de 2009 os valores ainda podem aumentar até o fechamento do mês de novembro e que para 2008 foi considerado o valor do mês de novembro inteiro.

Arroba

No decorrer de 2009, para as unidades federativas analisadas, o valor pago pela arroba do boi gordo em janeiro foi mais alto, passando por oscilações no decorrer dos meses e fechando o período em baixa, como pode ser observado no gráfico de evolução do preço médio da arroba do boi gordo por UF, de janeiro a novembro. Entretanto, o único estado em que, em janeiro, o preço era mais baixo, chegando ao valor máximo em julho (R$ 2,66 por kg) e fechando em queda foi o Rio Grande do Sul.

No período atual analisado (de 20/10 a 19/11), como pode ser observado no gráfico da evolução do preço de arroba do boi gordo, houve uma queda no valor pago aos pecuaristas para todas as unidades federativas analisadas. Os estados de São Paulo e Santa Catarina fecharam o período com o maior valor, R$ 76,00/arroba no dia 19/11; mas, no dia 20/10, o valor era de R$ 79,00 e R$ 78,00/arroba, respectivamente. Corroborando ainda neste cenário, o valor médio da arroba do boi gordo no período atual (de 20/10 a 19/11) foi desvalorizado em relação ao período anterior (21/09 a 19/10), invertendo o quadro observado, pois, no período de 21/09 a 19/10, os valores médios obtidos estavam valorizados em relação ao período anterior de 20/08 a 18/09, para a maioria dos estados, com exceção de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Os frigoríficos ainda não estão demonstrando muita disposição em aumentar o valor pago pela arroba do boi gordo, pois as escalas de abate estão se alongando. Segundo levantamento da Scot Consultoria, no início do ano de 2009, as escalas que atendiam, em média, quatro dias, no mês de outubro passaram a atender, em média, sete dias, com alguns grandes frigoríficos informando programações de abate de mais de nove dias. Este fato de alta oferta, segundo a Scot Consultoria, foi devido a pecuaristas que seguraram o boi para esperar preços melhores e, assim, geraram um acúmulo no final do ano, necessitando, portanto, escoar os animais.

A venda de boi de pasto, que era para ter sido efetuada até agosto, início da entressafra, foi retardada e realizada juntamente a comercialização do boi de confinamento, em outubro. Ainda segundo a Scot, a entressafra de 2009 foi atípica, com um grande volume de chuvas, o que ajudou a manter os bois no pasto por mais tempo. Diante de valores da arroba insatisfatórios, muitos produtores estão procurando frigoríficos que ao menos estejam reduzindo o prazo de pagamento ou pagando à vista, o que, segundo ela, e como observamos nos valores das arrobas, é cada vez mais difícil de acontecer.

Deságio

O deságio pago aos pecuaristas nas negociações à vista em relação ao valor a prazo (30 dias), no período de 20/10 a 19/11, foi de 2,85%, valor 2,15% acima do observado no período anterior (de 21/9 a 19/10), de 2,79%. Como observado nos períodos analisados anteriormente, o Rio Grande do Sul permanece acima da média nacional, com um deságio no período atual de 3,91% (37,19% acima da média). Este fato é acompanhado pelos estados de Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Os demais estados apresentaram valores abaixo dessa média.

Nas análises realizadas no decorrer de 2009, de fevereiro a novembro (considerando até o dia 19), a média do deságio no país foi de 2,88%. Estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul sempre permaneceram com valores acima da média, contrariamente ao estado de São Paulo, onde o valor do deságio nunca ultrapassou o valor médio nacional. Já para os demais estados houve inversão de posição em alguns meses, como, por exemplo, o Mato Grosso. Neste estado, nos meses de fevereiro, abril e maio, o deságio permaneceu abaixo da média nacional e, nos demais meses, o quadro se inverteu.

Relações de troca

No período atual de 20/10 a 19/11, o valor médio da relação de troca entre boi gordo e desmama foi de 2,01, ou seja, 0,49% abaixo do valor do período anterior (de 21/09 a 19/10), que foi de 2,02. Contrariamente ao observado nas edições anteriores, o valor médio desta relação de troca, que vinha subindo em pontos percentuais, teve uma pequena queda. Apesar da desvalorização da arroba do boi gordo ocorrida no período, a relação de troca não apresentou queda significativa. Isso deve-se à diminuição no preço do bezerro, oriunda de uma maior oferta desta categoria animal em alguns estados e, principalmente, devido à retenção de matrizes. Em estados como, por exemplo, Minas Gerais e Paraná, no período de 21/09 a 19/10, o preço médio por cabeça na categoria de desmama a oito meses de idade era de R$ 602,25 e R$ 585,75 e, no período atual, caiu para R$ 590,95 e R$ 552,95, respectivamente. De modo geral, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul apresentam o mesmo cenário de relação de troca superior em relação aos demais estados quando comparamos com o período anterior.

O estado do Rio Grande do Sul permanece há algum tempo com a melhor relação de troca, de 2,40. Nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás as relações de troca ficaram abaixo da média nacional, sendo que Goiás permaneceu com a pior relação de troca (1,87). O quadro de pior relação de troca para Goiás já se perpetua há um bom tempo.

A relação de troca entre boi gordo e boi magro apresentou o valor médio nacional, no período atual, de 1,26. Este valor foi 0,78% abaixo do observado no período anterior, de 21/09 a 19/10, que foi de 1,27. Os estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais apresentaram relação de troca acima desta média. Por outro lado, em Goiás e Mato Grosso do Sul, os valores médios da relação de troca foram iguais ao valor médio nacional. Mantendo o mesmo patamar do período anterior, no período atual o estado de São Paulo permaneceu abaixo da média nacional e, ainda, com a pior relação de troca (1,12), onde se pode adquirir apenas 1,12 boi magro com a venda de um boi gordo.