Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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GESTÃO

CENÁRIO DE LUCRO

Como gerenciar o campo de forças complexo e dinâmico?

Francisco Vila - Consultor Internacional ABNP (Associação Brasileira do Novilho Precoce)

Com a recuperação da economia mundial e, em especial, com a forte retomada da demanda interna, poderíamos esperar um bom ano para o agronegócio brasileiro. No entanto, o que parece óbvio não está garantido. Esta contradição se deve à dependência do resultado da pecuária de efeitos sistêmicos de outras esferas da economia e do panorama institucional e político do país.

Os preços, hoje, movimentam-se em ciclos interligados que são influenciados pela estratégia global de aplicação de fundos (especulação), pelo sistema de vasos comunicantes das cotações internacionais das commodities, pelo ambiente psicológico das decisões dos proprietários rurais e, finalmente, pelos caprichos do clima. Ou seja, muito pouco depende exclusivamente do planejamento comercial do produtor.

Perante esta realidade complexa e dinâmica, o modelo de negócio da agropecuária moderna distingue-se das fórmulas de sucesso do passado. A comunicação real e virtual nivela as tradicionais vantagens da hábil manipulação das oscilações sazonais dos preços e exige novos paradigmas de gestão, bem como novos padrões de precisão na administração de processos, situações e pessoas. O fator sorte está sendo substituído pelo mérito profissional.

2010 – Um ano de cautela

Os macrocenários da economia, a previsão de safras e a abundância de capital especulativo com suas repercussões nos preços das commodities e, nomeadamente, no câmbio indicam um nível geral de preços aquém do que se esperou até recentemente. Mesmo com demanda crescente por alimentos, a projeção otimista da oferta de grãos para o consumo humano, animal e energético predeterminam preços poucos atrativos para 2010. Os agricultores já aumentaram sua área de plantio (volume). Com a superação da crise e a maior disponibilidade de crédito, observa-se a retomada de investimentos em insumos (produtividade). E a simulação do clima global deixa-nos prever safras recordes nas principais regiões do mundo (concorrência). Assim, resta pouco espaço para ganhar com preços. O que ocorre na agricultura propaga-se através de efeitos de onda no sistema para a realidade concreta do pecuarista.

Enquanto isso... focar no controle de custos

Quanto maior a dependência de fatores externos, mais importante torna-se a estratégia de controlar custos, ganhar escala e concentrar na qualidade do produto. Trata-se de focar naquilo que é diretamente influenciável pela estratégia do negócio e pela gestão eficiente do sistema produtivo. Através de práticas de fidelização com fornecedores de insumo e frigoríficos, parte dos ganhos da cadeia pode ser incorporada no panorama de rentabilidade da fazenda.

Efeitos diretos e indiretos

Para cada dimensão, tipo e localização de propriedade valem regras diferenciadas. No entanto, alguns fatores são universais e devem ser monitorados pelo empresário rural. O mais relevante é o fator mercado. O pecuarista é tomador de preço tanto na compra quanto na venda. Desta forma, a demanda internacional por carne de qualidade e o consumo nacional do restante da produção definem a produção e o patamar do preço. Juntamente com o momento no ciclo bovino – que se manifesta no preço do bezerro –, as cotações do mercado futuro indicam o corredor da provável evolução do preço da arroba ao longo do ano produtivo.

Se o governo mudar a política de câmbio, a cotação do boi pode sofrer alterações significativas e reativar o sistema de prêmios para animais de qualidade. O Plano Safra e outros programas de fomento podem, ou não, impactar o nível de preços e custos. Outras políticas de cunho ambiental ou social, muito prováveis num ano eleitoral, podem mudar o quadro de referência legal para a atividade (Código Florestal) e exercer forte influência na motivação do produtor. De qualquer forma, é importante prestar atenção crescente às questões da produtividade legal e trabalhista como investimento na sustentabilidade da propriedade. Outro fator decisivo é a transformação de alguns fundamentos do setor. O principal desafio para a cadeia da carne é o novo quadro do poder de barganha em função da crescente concentração da indústria de carne. Até que ponto os fatores positivos e nocivos se compensarão? Somente o futuro vai dizer.

Por outro lado, a indústria de insumos está evoluindo da sua tradicional função de fornecedora de produtos para o campo para prestação de serviços e, mais recentemente, para agente financeira para investimentos. Desta forma, a tradicional distância entre fornecedores, produtores e indústria da carne tende a diminuir. Isto favorece o surgimento de novas alianças estratégicas horizontais (entre produtores com perfis e interesses compatíveis) e verticais (entre indústrias de insumos, fazendas altamente tecnificadas e arranjos de fidelização com prêmios e soluções de financiamentos inovadores por parte dos grandes frigoríficos).

As novas tecnologias que estão saindo dos laboratórios da pesquisa genética e das fábricas de insumos, juntamente com a sofisticação dos sistemas informatizados de controle sanitário e fiscal dos órgãos públicos, estão criando um novo quadro de competitividade que dividirá o setor em ganhadores e perdedores (pelo menos em termos de rentabilidade e diferenciação de preços na comercialização).

Os novos parâmetroros de gestão

A pecuária é uma das atividades produtivas mais complexas e dependentes de fatores de influência fora de seu alcance. Se é difícil ganhar fora da porteira, o foco deve ser dirigido para os elementos influenciáveis dentro da propriedade. A máxima para a condução do negócio deve ser o controle de custos, pois o lucro é a diferença entre o preço e a soma dos custos fixos e variáveis de preços externos e eficiências internas. Tocar o barco da ‘melhor forma’ não é postura empresarial. O empreendedor, em conjunto com seu gerente e os consultores, deve determinar um rumo, definir metas e estratégias e alinhar a prática tradicional de produzir a um modelo claro e transparente de transformar matérias-primas em produto acabado nos padrões que o mercado exige e remunera.

Trata-se de uma nova filosofia de negócio que muda o foco da tradicional atenção dada às soluções técnicas para a excelência gerencial. Pois o dinheiro não se ganha com as coisas benfeitas, mas sim com os processos gerenciados com eficiência