Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Ovinocultura

Produtor mais profissional

A postura mais profissional dos criadores e a união da cadeia vêm colaborando para o crescimento da ovinocultura no país. Os produtores passaram a encarar a atividade com mais seriedade e perceberam o quanto essa mudança de atitude é importante para a conquista de uma posição sólida no mercado. Embora ainda exista um longo caminho pela frente, a evolução do setor é constante nos últimos anos, analisa o criador Arnaldo dos Santos Vieira Filho, presidente da Associação Paulista de Criadores de Ovinos (Aspaco) e vice-presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco). “Os aventureiros estão saindo da atividade e dando lugar para aqueles que realmente enxergam a ovinocultura com a sua devida importância econômica”, observa.

O aprimoramento do setor em diferentes níveis é saudado pelo dirigente, que cita os recentes debates ocorridos em Brasília, na Câmara e no Senado Federal. “É fundamental que os governantes percebam a organização da cadeia e se comprometam com as reivindicações apresentadas pelos produtores”, assinala Vieira.

A crescente profissionalização, que foi um dos destaques do segmento no ano de 2008, teve reflexos no mercado da carne. Embora o país ainda seja um importador, o preço do cordeiro apresentou elevação e mostra que há cada vez mais consumidores interessados no produto. No Estado de São Paulo, por exemplo, o quilo do cordeiro vivo iniciou o ano com valores entre R$ 3,00 e R$ 3,50. Agora, na reta final de 2008, os preços estão em torno de R$ 4,00. Nos restaurantes e supermercados, a procura pelos cortes está cada vez mais perceptível. “São conseqüências da maior organização e formalidade da cadeia, que também vem investindo bastante em ações de estímulo ao consumo”, ressalta o presidente da Aspaco.

Robson Leite, diretor e proprietário da Savana Agropecuária, um dos maiores empreendimentos da ovinocultura nacional, é um entusiasta do setor e comemora o aumento da demanda. “Há dois anos, no mercado de São Paulo, para cada 10 quilos de picanha bovina, eram dois ou três quilos de cordeiro consumidos. Hoje, essa relação se inverteu, e são 12 quilos de cordeiro para os 10 quilos de picanha”, enumera o empresário.

A Savana, que há quatro anos comercializava 12 cortes ovinos, atualmente oferece 58 opções de cortes. E para atender os consumidores, a empresa busca por mais produtores. Atualmente, são 20 integrados e outros 60 fornecedores que trabalham com a Savana, que tem sede em Bragança Paulista/SP. “Mercado existe para a ovinocultura nacional, mas precisamos trabalhar com paciência e na união dos interesses da cadeia, buscando a cultura do associativismo”, argumenta Leite.

Não há informações oficiais, mas a estimativa é de que o consumo de carne ovina fique entre 700 gramas e 1,5 quilo por pessoa ao ano no Brasil. Para se ter uma idéia, o consumo de carne bovina e de frango passa dos 35 quilos por habitante. Em países como a Austrália e o Uruguai, o consumo da carne ovina por pessoa chega a 15 quilos ao ano e 7,5 quilos ao ano, respectivamente.

Muito trabalho pela frente

O ano de 2009 promete ser agitado para o setor. A expectativa é pela ampliação dos trabalhos da Câmara Setorial de Caprinos e Ovinos e por avanços na implementação do Plano de Desenvolvimento da Caprinocultura e da Ovinocultura Nacional. O plano inclui o Programa Nacional de Sanidade dos Caprinos e Ovinos (PNSCO) e o Programa de Melhoramento Genético.

Instituições como o Ministério da Agricultura, a Embrapa, a Arco, o Sebrae e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estão trabalhando em parceria em torno de todos esses projetos. “São ações voltadas para o desenvolvimento de tecnologias para produção de carne, leite, pele e lã de qualidade. Ainda deve ser criado um programa nacional de capacitação para técnicos, produtores e trabalhadores rurais no segmento”, explica o pesquisador da Embrapa Caprinos Evandro Vasconcelos Holanda Júnior.

Na opinião do especialista, essa mobilização vai ajudar a superar importantes gargalos da atividade. “Precisávamos dessa coordenação sistêmica dos representantes da cadeia para tratar de questões como a redução dos custos de produção, a oferta regular, a melhoria e garantia da qualidade, o desenvolvimento de produtos e a inserção em novos mercados”, define o pesquisador.

O presidente da Aspaco, Arnaldo Vieira, acrescenta a importância de levar esse trabalho até o criador. “Precisamos colocar tudo isso em prática nas propriedades. É preciso que o produtor sinta a evolução no dia-a-dia da atividade e fique cada vez mais motivado”, sustenta.

Apesar de haver dúvidas quanto aos números, o rebanho nacional de ovinos é estimado em torno de 16 milhões de cabeças pelos representantes do setor. Em 2006, o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou um total de 13,8 milhões de cabeças de ovinos e de 7,1 milhões de cabeças de caprinos no país. As regiões Nordeste e Sul concentram os maiores plantéis de ovinos. Entre as raças de corte criadas no Brasil, um dos destaques é a Santa Inês, usada com freqüência para cruzamento com animais de raças como Dorper, Texel e Suffolk.

A produção mundial de carne ovina em 2007 foi de cerca 13 milhões de toneladas, e a estimativa é de crescimento de 1,9% ao ano, até o final desta década. A expectativa em relação aos preços internacionais também é positiva, com a demanda crescente por alimentos nos países em desenvolvimento. No entanto, os principais exportadores têm limitações ambientais, sanitárias e de área para expansão dos seus rebanhos. “Esse cenário revela grandes possibilidades para que a ovinocultura brasileira se torne um player no mercado mundial de carne ovina no médio prazo”, constata o pesquisador Holanda Júnior. O presidente da Aspaco tem a mesma opinião. “Nosso potencial é enorme. Temos vários biomas e a atividade comporta uma diversidade de climas e situações. E se o Brasil já é um grande produtor e exportador de carne bovina, suína e de frango, tem condições para ser também um grande produtor de carne ovina”, declara Vieira.