Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado do Leite

Pé no chão

O tempo das vacas gordas terminou. Pelo menos, por enquanto

O ano de 2008 termina com a sensação de que tudo voltou ao que era antes: a (curta) época de vagas gordas, com preços recordes, disputas pelo leite e investimentos dos laticínios parece ter acabado. O que houve, afinal? O mercado não havia mudado diante da demanda em crescimento, da oferta sem condições de reagir e dos custos estruturalmente mais elevados, forçando preços mais altos?

Em termos. O primeiro aspecto a se analisar quando falamos de mercado internacional de lácteos é que nenhum analista acreditava de fato que os preços recordes de US$ 5.000/tonelada, que permitiram cotações superiores de US$ 0,45/litro no mercado interno, durariam para sempre. E isso por três razões básicas: primeiro, a oferta responderia a valores recordes, ainda que isso demorasse. Segundo, preços de lácteos mais elevados desestimulariam o consumo. Nesse aspecto, é importante lembrar que mais de 75% do crescimento do consumo de lácteos está ocorrendo em países emergentes, onde a renda é um fator crítico para isso. Também, com o custo elevado, alguns substitutos, como gorduras vegetais, passaram a ser mais atrativos para a indústria de alimentos. Por fim, o comércio mundial de lácteos é relativamente modesto, uma vez que leite é um produto de consumo local. Cerca de 6 a 7% da produção mundial é comercializada entre países. A conseqüência disso é que aumentos generalizados na produção, gerando excedentes, acabam sendo destinados ao mercado internacional, cujo tamanho é ainda pequeno, o que força a queda nos preços.

Essa dinâmica própria do mercado de lácteos encontrou, a partir de setembro, um ambiente econômico extremamente conturbado, carregado de incertezas, resultando em redução dos investimentos, do crédito e da confiança do consumidor. Por tudo isso, os preços internacionais de lácteos caíram vertiginosamente e atingiram patamares próximos aos do “préboom”.

Reflexos no Brasil

No Brasil, o processo foi semelhante, com o agravante de que o aumento da produção, no primeiro semestre, foi de nada menos do que 13,9% em comparação a 2007. Além disso, fruto do crescimento de 2007, dos investimentos dos laticínios, que disputavam matéria-prima, de um início de ano promissor e da expectativa que 2008 repetiria 2007, os preços ao produtor subiram mais do que os valores do atacado, espremendo as margens da indústria.

A figura 2 (acima) mostra o preço ao produtor e, com base na estimativa do preço médio de atacado para uma cesta de produtos lácteos, utilizando a destinação industrial do SIF (Serviço de Inspeção Federal) e a utilização de leite fluido para produzir cada produto, a porcentagem que o produtor recebeu, bem como a diferença (preço de atacado – preço ao produtor), desde setembro de 2006.

Nos primeiros meses dessa análise, o produtor recebia algo em torno de 50% do preço de atacado. E o preço ao produtor era praticamente igual a essa “margem bruta” dos laticínios. No momento dos picos de 2007, a indústria teve seu melhor momento: a diferença entre o preço de atacado e o preço ao produtor foi significativa. Embora a porcentagem recebida do preço do atacado tenha caído significativamente nesses meses dourados, os valores pagos ao produtor atingiram valores recordes. Com bons preços no atacado, dá para repartir e todos ganham.

A partir de setembro de 2007, a indústria verificou quedas acentuadas no preço de atacado, apenas em parte repassadas ao produtor, que finalizou 2007 recebendo por volta de 56% do preço de atacado e invertendo a situação imediatamente anterior: o preço do leite ao produtor superou essa “margem bruta” (entre aspas, porque não é o conceito de margem bruta contábil, sendo utilizado para facilitar o entendimento do leitor) da indústria. Essa situação perdurou até o início de 2008, quando então os preços internos no atacado iniciaram uma tímida reação, que logo foi repassada aos preços pagos ao produtor. O resultado é que se chegou ao final do primeiro semestre com o produtor recebendo mais de 58% do preço do atacado.

Quando as expectativas de mercado finalmente não se confirmaram, os preços desabaram, a indústria procurou recompor as margens e o produtor se viu ‘‘com o mico na mão’’. O resultado imediato desse quadro foi uma brusca retração na oferta. Após o crescimento recorde do primeiro semestre, o Índice de Captação de Leite do Cepea/USP indicou que a produção em setembro de 2008 foi menor do que a de 2007.

Comportamento incerto

O comportamento de 2009 é evidentemente incerto. Uma primeira variável a ser analisada é justamente a oferta. Diante do desestímulo verificado a partir de junho, é pouco provável que tenhamos um crescimento vigoroso nos próximos meses, o que pode indicar restrição de oferta a partir do segundo trimestre. Esse comportamento poderá ocorrer não só no Brasil, mas em outros países, de forma que a oferta dessa vez pode não ser o vilão do mercado.

Se a oferta não crescerá como nos últimos 2 anos, passa a ser interessante avaliar a demanda, e isso está diretamente relacionado ao crescimento da economia mundial, especialmente nos países emergentes, mas não apenas neles. A China recentemente anunciou crescimento de 7,5% para 2009, o mais baixo dos últimos 18 anos (embora ainda alto). O FMI prevê crescimento mundial de 3% em 2009, contra 3,9% em 2008 e 5,0% em 2007. Após 2009, a expectativa é de que haja recuperação (figura 3). Alguns analistas estimam que ela virá a partir do final de 2009 e que o efeito nas economias emergentes não será tão forte. Se isso ocorrer, a demanda pode aquecer e os preços podem se elevar. Mas os riscos são grandes, considerando o momento atual e as incertezas: há quem sustente que o crescimento mundial será bem menor do que 3%, o que muda totalmente a análise.

A principal exportadora mundial, a cooperativa neozelandesa Fonterra, soltou recentemente um comunicado dizendo que não espera recuperação dos preços do mercado até o final de 2009. A leitura da cooperativa é de que os estoques estão altos e de que a demanda enfraquecida não ajudará a recuperação dos preços durante boa parte de 2009, de forma que a “ajuda” não virá do mercado externo.

Há que se analisar, ainda, a questão cambial. Após um período de desvalorização, o dólar norte-americano voltou a se valorizar e de forma não igual em relação às várias moedas. Essa valorização afeta a competitividade dos Estados Unidos, hoje o terceiro maior exportador mundial, e melhora a competitividade de países concorrentes. De certa forma, a queda de preços no mercado internacional foi compensada pela apreciação do dólar. A figura 4 simula o máximo preço a ser pago pelo leite, no Brasil, de acordo com diferentes cotações para o leite em pó no mercado internacional e taxas de câmbio. Nota-se que com dólar de 2,3 e leite a US$ 2.500, o preço de equilíbrio não passa de R$ 0,58/litro, mais ou menos a situação atual. O comportamento futuro do câmbio é muito incerto, mas pelos contratos da BM&F a expectativa é de continuação, embora leve, da tendência de desvalorização do real em 2009.

A transmissão de preços externos para o mercado interno não é integral. Há, no caso dos lácteos, a Tarifa Externa Comum do Mercosul (TEC), estabelecida em 27% e que cria uma proteção dessa magnitude em relação aos preços externos. Em outras palavras, ainda que o mercado externo esteja com cotações reduzidas, a transmissão de preços deve considerar essa diferença. Dessa forma, caso a demanda interna supere a oferta, de forma a estimular aumento de preços, pode haver um descolamento do mercado internacional.

A questão é o leite da Argentina e Uruguai, que entra sem tarifas. Se o excedente destes países em 2009 for elevado, especialmente a partir de junho, pode entrar bastante leite de nossos vizinhos, balizando o mercado.

Tudo analisado, fica claro que, em especial nesse momento, as previsões embutem alto componente de risco, pois muitas variáveis são pouco conhecidas e, mais do que isso, têm interpretações opostas dependendo da fonte analisada.

O mais sensato, para o produtor, é manter o pé no chão, evitando investimentos significativos, analisando a viabilidade do uso de cada tecnologia, aproveitando para melhorar a gestão de sua propriedade. O ano de 2009 não deve ser de vacas gordas, mas talvez não seja tão ruim quanto hoje possa parecer. Os custos de produção podem cair com a queda do petróleo, afetando o custo dos fertilizantes, do combustível e dos grãos, compensando parcialmente os preços mais baixos que devem ocorrer ao longo de 2009. Pelo sim, pelo não, é um ano para se trabalhar com cautela, pelo menos até que o cenário mais amplo da economia mundial se descortine, o que está ainda longe de ocorrer.