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Caindo na Braquiária

Aumento de desfrute passa pelas raças adaptadas

Aumento de desfrute passa pelas desfrute passa pelas

Num dos intervalos de aula do CIZIP (atualmente FZEA – USP Pirassununga) me dirigi à oficina mecânica da fazenda onde se encontrava o agrônomo Euclides Martins Sobrinho, ou “Cride”, como ele mesmo se apresentava. Pedi um estágio durante as férias lá no Projetão, um projeto de cruzamento entre as raças Gir, Nelore e Caracu na linda fazenda da USP. “Cridão”, como muitos o chamavam, já contava com o dom de ensinar estudantes de veterinária e zootecnia com atenção, formando inúmeros excelentes profissionais do ramo, que até hoje destacam-se no meio.

Foi nesse primeiro estágio que me despertou a paixão pelo gado de corte, matéria que, já de cara, me levou a conhecer profundamente o Caracu e suas cruzas. Raça de diversas qualidades, destaca- se por produzir matrizes muito boas no cruzamento e bois pesados ao abate, todos com pêlo muito curto, virtude primordial para a sobrevivência nos sistemas de pastoreio tropicais.

Eram férias de julho de 1988 quando estagiei com Dr. Alexander Razook e Dr. Laércio Pacola no Instituto de Zootecnia (IZ) de Sertãozinho/SP. Lá, conheci as linhagens de carne na raça e seu comportamento como ganhadora de peso. Tive certeza que as adaptadas teriam papel importante na produção de carne nos campos tropicais brasileiros.

O ano de 2002 já vinha indicando intensamente o uso de sêmen de Caracu em matrizes F1 quando o programa Montana trouxe a filosofia do composto tropical, recomendando o uso de raças adaptadas sobre matrizes F1. Dentre elas, havia uma em especial para o Brasil tropical úmido. Era o Senepol, vermelho, mocho, de pequeno porte e com pêlo curtíssimo (conhecido como pêlo-zero). Raça formada no final do século XVIII na Ilha de St. Croix (Ilhas Virgens) e que lá se desenvolveu por um século nas condições adversas de clima e comida. Lembrome bem quando assisti a um vídeo do Senepol no Chaco Paraguaio pela tradicional família Pereira. Fiquei impressionado com a adaptação, conformação muscular e habilidade materna da raça.

Em algumas horas, desembarcávamos em Assunción para ver pessoalmente o rebanho e escolher cinco touros para coleta no Brasil. Foi muito prazeroso conhecer esse potencial de produção de carne macia nos trópicos. Infelizmente, dez dias antes do embarque dos touros para o Brasil, estourou um foco de aftosa no Paraguai, impossibilitando a importação dos mesmos. Mas José Pereira Benza, o mais velho da família, economista formado nos Estados Unidos, parecia ter premeditado o acontecimento. Três meses antes, procurou parceiros brasileiros para a produção de Senepol em larga escala. Encontrou o visionário João Arantes, pecuarista desbravador de Rondônia, que aceitou de prontidão a proposta. Trariam matrizes do Paraguai para a Nova Vida, localizada na cidade de Ariquemes.

Com a aftosa no Paraguai, o Senepol AP (Arantes/Pereira) foi obrigado a mudar os planos. Rumaram aos Estados Unidos buscando a genética Senepol. Trouxeram do rebanho dos Brown e de outros não menos famosos um avião cheio de novilhas e alguns touros. Dentre eles, Nocona, reprodutor que gerou a fotografia mais bonita já obtida com machos da raça em catálogos de sêmen nos últimos anos.

Passados alguns meses, lá estava eu, em Medeiros Neto/BA, levando uma fita de vídeo do gado do Paraguai ao Dr. Armando Leal do Norte, um ícone do cruzamento no Brasil. Fiz o convite a ele e todo o grupo de criadores de Red Norte para visitas organizadas por José Pereira ao Paraguai. O resultado foi o uso de sêmen da raça sobre as matrizes Red Norte em geral, sendo, atualmente, a mais usada por Dr. Armando. Em 2001, um grupo de Montaneiros importou 700 embriões americanos da raça, de onde nasceram inúmeros touros de centrais e doadoras que ainda figuram na elite brasileira.

Meados de 2002, chegava ao Brasil o Dr. John Ernest Frisch, talvez o mais renomado pesquisador de raças adaptadas aos trópicos de que se tem conhecimento, do qual tive a grande oportunidade de absorver sua vasta experiência com o uso de raças adaptadas no cruzamento. Atualmente, sabemos exatamente o tipo de Senepol e Caracu a ser selecionado para o Brasil e como devem ser usados nas diversas matrizes cruzadas. Se desejamos produzir carne macia e aumentar o desfrute do rebanho, devemos usar os atributos do Caracu e Senepol com matrizes cruzadas no Centro-Norte, bem como devemos lançar mão do Bonsmara no Centro-Sul do país. Dessa maneira, teremos vigor híbrido com adaptabilidade ao gado, duas características que devem andar juntas a todo custo se procuramos eficiência em gado de corte.