Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Do Pasto ao Prato

O mundo mudou. E as perspectivas?

Em outubro publiquei o artigo “Mercado mundial da carne bovina – perspectivas para o Brasil”, onde fiz uma revisão das principais tendências que influenciam o mercado do boi e da carne no Brasil. Muitas cartas comentando, analisando e criticando o artigo foram enviadas, enriquecendo seu conteúdo e melhorando o debate. Obrigado pela participação. Em palestras sobre o tema, muita gente também me pergunta sobre o impacto da crise mundial no Brasil. A crise ainda não está definida, não se sabe sua extensão. Ainda estamos no “olho do furacão”, ou tentando ler o rótulo de uma garrafa, estando dentro dela. O que podemos analisar, até o momento, a respeito de como será o mercado do boi da carne nesse final de ano e em 2009?

A oferta de gado gordo para abate continua restrita. Os abates dos últimos 12 meses (Nov/07 a out/08) estão 11% abaixo em relação aos 12 meses anteriores (Nov/06 a out/07). Nos últimos 3 meses, a diferença é ainda maior, 13%. A perspectiva é de que nos próximos meses a oferta seja ainda menor. Esse ano, os confinadores da pesquisa Top 50 BeefPoint de Confinamentos reportaram ter comprado garrotes mais caros, de pior qualidade e a uma distância maior. Ou seja, esgotaram ainda mais os estoques de animais, que não sendo terminados na entressafra, seriam engordados e abatidos nessa safra que agora se inicia.

Os altos custos de produção e diminuição do crédito para grandes projetos pecuários também devem diminuir a velocidade com que a produção de bezerros se recupera. Muita gente tem perguntado: quanto tempo irá demorar para a produção voltar a crescer e derrubar novamente os preços? Essa dúvida é correta, visto a corrida pelo aumento da produção de cana-de-açúcar após os preços recordes de 2006. Em pouco tempo, a produção aumentou mais rápido que a demanda, diminuindo os preços.

Com esse cenário de custos mais altos, apenas os mais eficientes, produtivos, conseguirão lucratividade. Com isso, menos gente deve investir pesado. Antes de investir, será preciso se profissionalizar. O preço pode cair por outros fatores (como menor demanda mundial), mas continua sendo improvável a ocorrência de uma avalanche de oferta nos próximos anos. Alguns grandes projetos pecuários, agora, também sofrem com a escassez de crédito e têm menor possibilidade de saltos no volume produzido. Isso também reduzirá, pelo menos no curto prazo, aumentos significativos na oferta.

As exportações devem se manter nos atuais níveis, com possibilidade de queda nos volumes. A queda na cotação do preço do petróleo, quase 1/3 do pico desse ano, e cerca de 40% mais barato do que há um ano, diminui a capacidade de compra dos principais parceiros comerciais do Brasil, em carne bovina.

A margem dos frigoríficos continua apertada, mesmo com a melhora na relação de troca (venda de carne, no mercado interno e externo e compra de boi gordo). O grande problema é o baixo volume de abate, que traz como conseqüência uma menor diluição dos custos fixos. Quando uma planta opera com capacidade máxima, gasta menos por animal abatido, podendo até ter uma menor margem entre a venda da carne e a compra do boi.

Efeitos no Brasil

A princípio, a crise será mais amena no Brasil do que em países europeus e nos EUA. Mas nosso país não passará imune. O desaquecimento de setores importantes da economia leva a um efeito cascata. Se todos apertam os cintos, há menos vendas em todos os setores, mesmo os que não seriam impactados inicialmente. Em resumo: o mundo vai crescer menos em 2008 e 2009, mas segue em crescimento, se recuperando a partir de 2010. Em 2009, que será pior que 2008, mesmo os países desenvolvidos terão (algum) crescimento. Num cenário de mais longo prazo, continuam válidas as projeções de que as economias emergentes irão sustentar o crescimento mundial e é de lá que virá o grande crescimento do consumo mundial.

Há gente esperando preços mais baixos para o boi gordo no primeiro semestre de 2009. A justificativa seria uma queda na demanda, especialmente internacional, maior do que a oferta (que está enxuta e deve continuar assim). Se isso ocorrer mesmo, o que considero pouco provável, vai atrasar ainda mais a recuperação da produção brasileira, prolongando o problema de baixa oferta e alta ociosidade dos frigoríficos. Há duas opções, diante do cenário atual. A primeira é colocar o pé no freio, esperar para ver o que acontece para investir. Como o ciclo de produção é longo, e os resultados demoram para aparecer, esse tempo perdido agora pode custar caro lá na frente. A segunda opção é investir agora, com um aguçado foco em intensificação, aumentando/ otimizando o resultado por cada recurso investido. O lucro virá da extrema capacidade de produzir com eficiência e custo competitivo e na habilidade em implantar tecnologias que aumentam a produção, de forma economicamente viável.

O lucro pode vir também de preços mais altos, graças à baixa oferta, mas apostar suas fichas apenas nisso é arriscado. Um setor que está carente de investimentos, e de produção de alta qualidade, e com volume, é a cria. Faltam bezerros de alta qualidade, em quantidade, e deverá faltar ainda mais.“O melhor temperamento para um bom investidor é ser ganancioso quando os outros estão assustados, e ficar assustado quando os outros são gananciosos”, Warren Buffet, investidor de 78 anos, homem mais rico do mundo, fortuna pessoal de US$ 62 bilhões. E você, o que vai fazer?